Estrada, A

02/08/2010 | Categoria: Críticas

Parábola situada num mundo pós-apocalíptico apresenta narrativa sóbria, delicada e evocativa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

É praticamente impossível falar sobre o introspectivo “A Estrada” (The Road, EUA, 2009) sem evocar “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008). As semelhanças são inúmeras: as duas histórias se passam num mundo pós-apocalíptico, documentam a jornada de alguns personagens numa busca desesperada por sobrevivência, são baseados em romances muito premiados e funcionam como parábolas, caráter explicitado pelo fato de os personagens jamais se referirem um ao outro por nomes próprios. No entanto, em tom e sensibilidade, esses dois longas-metragens não poderiam ser mais distintos – e, nesse caso, a vantagem fica com o diretor australiano John Hillcoat, que fez um filme bem mais delicado, sutil e evocativo do que Fernando Meirelles.

Na verdade, a produção de “A Estrada” foi acompanhada com interesse desde o lançamento original do romance de Cormac McCarthy, em 2006. O escritor talvez seja, neste início de século XXI, o mais destacado e talentoso romancista em ação nos Estados Unidos. Além disso, convém não esquecer que o brilhante “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007), dos irmãos Coen, também saiu da caneta de McCarthy. Some a tudo isso o excelente western “A Proposta” (2005), filme anterior de Hillcoat, que lidava com um universo igualmente sombrio e desolado com o mesmo realismo brutal, e você tem um longa-metragem potencialmente clássico.

Graças ao talento dos nomes envolvidos, à frente e atrás da tela, “A Estrada” não decepciona. Com trilha sonora esparsa, locações reais e pouquíssimos efeitos digitais, John Hillcoat desenvolve a parábola elaborada por McCarthy sem se afastar do texto original e acentuando aquilo que ele tem de melhor: a tenacidade do protagonista (chamado nos créditos de O Pai, e interpretado por Viggo Mortensen), seus esforços hercúleos para manter-se vivo e ao mesmo tempo proporcionar uma educação de base moral para o Filho (Kodi Smith-McPhee). Hillcoat faz tudo isso através de escolhas estilísticas corajosas. Ele usa os silêncios para demarcar a lenta agonia da dupla. Há poucos diálogos e quase nenhuma música.

O enredo se passa em algum ponto determinado do futuro, em que os Estados Unidos foram devastados por algum cataclisma de origem não-identificada. O evento decretou a extinção dos seres vivos, vegetais ou animais, além de escurecer o céu. Não existe mais civilização. Os poucos agrupamentos humanos que existem se dedicam a roubar, pilhar e matar uns aos outros para comer. O canibalismo é praticado em larga escala. Nesse cenário desolador,
Pai e Filho movem-se pelo país em direção ao sul, na esperança de que possam chegar a algum ponto em que a situação seja um pouco melhor. Tudo o que os move é a esperança (provavelmente, eles sabem, ilusória). Não há televisão nem rádio. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu com o planeta, ou se aquela situação é apenas localizada.

A trama, seca e sem enfeites, é narrada através de diálogos esparsos em que os personagens lidam com aspectos concretos de sua existência, como a busca por comida ou a importância dos sapatos para a sobrevivência, sem jamais procurar discutir tópicos metafísicos que poderiam advir da situação-limite. Nesse ponto, o filme funciona muito bem como parábola, deixando que cada espectador projete sobre a história suas próprias preocupações. Há quem diga que o tema central é a ausência de Deus. Outros preferem acreditar que seja a relação entre pai e filho. Pode ser um alerta ecológico, ou um estudo sobre a moral (pessoalmente, gosto muito da última interpretação). De fato, o filme funciona em todos esses níveis. Os melhores filmes, aqueles que não tentam ensinar lições, funcionam sempre dessa maneira, com diversas camadas sobrepostas.

Em termos puramente cinematográficos, “A Estrada” tem muitas qualidades. A encenação de John Hillcoat segue na direção contrária do cinema de massa contemporâneo, com planos longos e câmera afastada dos atores. A fotografia dessaturada do espanhol Javier Aguirresarobe (incrível a diferença entre este filme e “Vicky Cristina Barcelona”, que ele também fotografou, em termos de paleta de cores) dá uma boa medida da desolação daquele mundo frio e sem vida, sem que sejam necessários cenários gerados em computador. Além disso, Mortensen e o estreante Smit-McPhee atingem uma química muito boa; o primeiro demonstra, mais uma vez, ser um ator de nuances, quase minimalista, perfeito para uma história sóbria como essa.

Todo o filme é pontuado, também, por flashbacks coloridos e luminosos do passado de Pai e Filho, em que havia também uma Mãe (Charlize Theron), cuja ausência é ainda mais dolorosa quando sabemos que ela simplesmente abandonou o lar para a morte certa, por não suportar viver sem esperança (aliás, seria a esperança outro tema do filme?). Esses flashbacks, mostrados através de memórias ou sonhos dos protagonistas, destoam explicitamente do cenário sombrio do resto do filme, mas esta decisão não soa como estratégia comercial para tornar a história mais palatável, já que as memórias são a válvula de escape do Pai para aplacar o desespero. Assim, de episódio em episódio (todos são ótimos, com destaque para o encontro entre a família e o moribundo representado pelo veterano Robert Duvall), o filme ruma a um final alegórico em tom menor, e que pode ser interpretado como realidade ou delírio. Um final adequado para um belo filme.

O DVD simples e sem extras tem o selo da Paris Filmes e traz o filme com imagem correta (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– A Estrada (The Road, EUA, 2009)
Direção: John Hillcoat
Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall
Duração: 111 minutos

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