Estrada Para Perdição

30/08/2004 | Categoria: Críticas

Segundo trabalho do diretor Sam Mendes narra conto de gânsgsters em ritmo de road movie gelado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Se a gente pensar bem, os espectadores de cinema podem ser divididos em três blocos culturais mais ou menos fixos. É possível identificá-los quando se debruçam para ler a crítica de um filme. Há os cinéfilos, mais exigentes, que normalmente procuram logo saber quem é o diretor responsável pelo trabalho. Existem os que encaram o cinema como mera diversão, e esses costumam observar primeiro os nomes no elenco. Já a turma ávida pelas novidades está interessada mesmo é nas estréias. “Estrada Para Perdição” (Road To Perdition, EUA, 2002) é um produto que pode chamar a atenção dos dois primeiros grupos.

Para começar, o cineasta idealizador do projeto chama-se Sam Mendes, o garoto-prodígio que estreou atrás das câmeras com o premiado “Beleza Americana”. No elenco, unem-se astros de primeira grandeza (Tom Hanks, Paul Newman) e estrelas em ascensão (Jude Law, Jennifer Jason Leigh). “Estrada Para Perdição” – felizmente em tradução literal, sem um artigo antes da última apalavra – é um título perfeito para um filme irregular. É perfeito porque exibe o caráter desolador, melancólico que enche cada fotograma da tela, a partir do primeiro minuto de projeção. Perdição, no caso, possui dois significados. É o nome da cidadezinha para onde o assassino de aluguel Michael Sullivan (Hanks) ruma com o filho mais velho, depois que os mafiosos para quem trabalhava matam sua esposa e o caçula da família, na Chicago de 1931. O título lembra uma verdade dolorosamente óbvia: a jornada de Sullivan está perigosamente próxima do fracasso absoluto.

Sam Mendes realiza um filme interessante, mas sem alma, sem vigor, sem energia. Como em “Beleza Americana”, ele busca um diálogo com os clichês (aqui, o filme de gângster) para tentar superá-los. Dessa vez, porém, cai na vala comum, porque não consegue capturar o movimento interior dos personagens. O espectador vê que eles sentem ódio, medo, angústia e desespero, mas não consegue sentir junto com eles. A ação não vibra nos vísceras. São imagens belas, mas frias. Permanecem sempre distanciadas do público, sem permitir que ele mergulhe na história.

Em “Estrada Para Perdição”, os personagens não superam a falta de profundidade do roteiro. O matador Sullivan não consegue exibir a aura de culpa que o gibi, no qual a obra foi inspirada, constrói desde o início. O tratamento visual da violência, embora esteticamente sofisticado, também não foge do óbvio. Em compensação, quando se transforma em road movie carregado de longos silêncios e concentra a ação na relação entre pais e filhos, o filme cresce bastante. Há poucos diálogos – é um filme de imagens, que explora magnificamente a beleza americana das paisagens -, mas eles são afiados como navalha. O uso inteligente e inesperado do som nas duas grandes seqüências finais também superam a obviedade. “Estrada Para Perdição” cumpre o papel de filme para bons moços, mas não encanta. E o DVD, que tem só o filme e nenhum extra, também não.

– Estrada Para Perdição (Road To Perdition, EUA, 2002).
Direção: Sam Mendes
Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Jennifer Jason Leigh
Duração: 119 minutos

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