Estranho Mundo de Jack, O

30/11/2005 | Categoria: Críticas

Produção baseada em história de Tim Burton tem maravilhoso visual gótico em stop motion

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Tim Burton ainda era um desconhecido animador empregado da Disney quando escreveu um conto gótico misturando Natal e Halloween, duas festas populares no final do ano, nos EUA. Ele passeava na rua quando viu funcionários de uma loja de brinquedos substituírem a decoração do lugar, que estava caracterizado com os monstros da festa macabra, por motivos natalinos. A cena lhe inspirou para criar uma história sinistra e divertida. Anos depois, já diretor consagrado, ele decidiu transformar o conto em filme. Nascia “O Estranho Mundo de Jack” (The Nightmare Before Christmas, EUA, 1993), uma criativa animação musical que utilizou técnicas antigas de stop-motion para construir um visual medonhamente belo.

A parte visual de “O Estranho Mundo de Jack” traz as impressões digitais de Tim Burton em cada polegada de celulóide. É o mesmo mundo estilizado de “Edward Mãos-de-Tesoura” e, principalmente, “Os Fantasmas se Divertem”, comédia macabra que Burton dirigiu em 1988. O universo de Burton é, na verdade, o mundo dos monstros dos filmes feitos pela Universal Pictures nas décadas de 1930 e 40, só que em cores vibrantes. São vampiros, lobisomens, bruxos, esqueletos, espantalhos, abóboras e cadáveres em decomposição, vistos do ponto de vista de uma criança fascinada. As criaturas mais divertem do que metem medo.

“O Estranho Mundo de Jack”, contudo, não foi dirigido por Tim Burton. Ele concebeu a história e supervisionou a produção, mas a entregou ao animador Henry Selick. Juntos, os dois fariam, três anos depois, outra animação, “James e o Pêssego Gigante”. Nessa primeira colaboração, acertam em cheio: a mistura de humor e imagens macabras é tão rica quanto criativa. Os cenários buscam inspiração direta nas linhas tortas do expressionista “O Gabinete do Dr. Caligari” (observe especialmente o penhasco onde Jack Skellington sobe para curtir sua fossa) e nas locações cheias de sombras dos filmes da Universal (o laboratório do Dr. Finkelstein é obviamente calcado no local de nascimento do Frankenstein de Boris Karloff).

A história é uma fábula ao avesso. O esqueleto Jack Skellington é o rei da Cidade do Halloween, onde todos os moradores (monstros e aberrações em geral) passam o ano preparando a festa do ano seguinte, em um ciclo que jamais acaba. A monotonia deixa Jack triste. Em um passeio pelo bosque, ele acaba visitando a Cidade do Natal, onde tem a idéia de seqüestrar o Papai Noel para poder preparar uma festa diferente – e, assim, sair da rotina. Claro que os planos do esqueleto ambulante dão terrivelmente errado, como prevê a inquieta Sally, espécie de Frankenstein feminina que acalenta uma paixão por Jack.

Num filme assim, é claro que o destaque maior vai para o visual; há tanta coisa acontecendo em um único quadro que a atenção do espectador precisa ser total para saborear cada detalhe do filme. A animação em estilo antigo, feita cuidadosamente durante três anos, em stop-motion, é fabulosa, e o diretor Henry Selick capricha não apenas nos cenários e na caracterização dos personagens, mas sobretudo nas criativas composições visuais e nos ângulos bizarros de câmera (em algumas tomadas, vemos crianças abrindo presentes de Natal do ponto de vista dos presentes).

Além disso, a criatividade do enredo é realmente grande, trazendo ótimas gags (exemplo: o Dr. Finkelstein, responsável pela construção de Sally, retira o tampão que recobre a cabeça e coça o cérebro, quando está trabalhando no laboratório). Atente ainda para a seqüência hilariante em que Jack Skellington tenta ensinar uma clássica canção natalina à banda da Cidade de Halloween. E o final não deixa dúvidas: no fundo, sob toda a capa gótica, Tim Burton é um romântico incorrigível.

Como ponto negativo, está a excessiva quantidade de músicas, que praticamente não páram durante toda a duração do longa-metragem. Embora as canções de Danny Elfman (parceiro tradicional de Tim Burton) sejam bem interessantes, o excesso retira um pouco da fluidez do enredo, tornando-o episódio e às vezes até um pouquinho enfadonho. Convém lembrar, de todo modo, que este é um filme infantil – e os pequenos gostam dessas coisas.

O DVD brasileiro é a chamada “Edição Especial”. Ele contém o filme com imagem na proporção original (1.66:1), mais trilhas de áudio em Dolby Digital 5.1 (inglês e português). Entre os extras, um comentário em áudio unindo Henry Selick ao fotógrafo Peter Cozachik, um documentário (25 minutos), uma galeria de cenas cortadas (não finalizadas) e um curta-metragem de Tim Burton, chamado “Frankenweenie” (1984). O pacote é bem legal, mas nenhum extra tem legendas. Porém, as legendas existem na chamada “Edição de Colecionador”, que é dupla e traz o filme com imagem e som restaurados digitalmente, além de um novo pacote de extras.

– O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas, EUA, 1993)
Direção: Henry Selick
Animação
Duração: 76 minutos

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