Estranho Sem Nome, O

15/09/2005 | Categoria: Críticas

Faroeste sobrenatural mostra como Clint Eastwood bebeu da fonte de Sergio Leone e criou uma obra de toque autoral

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O céu azul se funde no horizonte com a terra seca e quente do deserto da Califórnia (EUA). Ao longe, surge a silhueta de um cavaleiro solitário. Ele vence alguns quilômetros no lombo empoeirado de um cavalo e entra na pequena cidade de Lago. Os moradores olham, surpresos. A aparição de gente desconhecida não é comum por aquelas bandas. Logo, o cavaleiro vai demonstrar a todos que comum é a última palavra que deveria ser aplicada a ele. A abertura de “O Estranho Sem Nome” (High Plains Drifter, EUA, 1973), inclusive a música melancólica, o ritmo lento e os enquadramentos incomuns, sugere um faroeste spaghetti. O segundo filme dirigido pelo então astro Eastwood bebe dessa fonte, mas possui um toque autoral e é um excelente exemplo de como os westerns reconstruíram a mitologia clássica do gênero, nos anos 1970.

Todo o filme gira em torno da figura misteriosa do pistoleiro sem nome, interpretado pelo próprio Clint. O arquétipo do personagem já era um velho conhecido dos fãs do ator, que o viram interpretar, por três vezes, pistoleiros semelhantes, nos filmes de Sergio Leone: rápido no gatilho, poucas palavras, senso de humor mórbido, passado desconhecido. Não custa lembrar, contudo, que esse arquétipo é uma constante nas centenas de filmes passados no Velho Oeste que a Itália produziu. “O Estranho Sem Nome”, de fato, descende diretamente de “Django”, o filme de Sergio Corbucci que aumentou a dose de violência e adicionou um elemento sobrenatural ao “homem sem nome” que Eastwood já havia imortalizado.

Aliás, as aberturas dos dois filmes são bem parecidas. O momento em o público vê pela primeira vez os dois personagens em ação também. Nos dois casos, eles mantêm os olhos escondidos embaixo do chapéu, são importunados no bar da cidade por malfeitores, reagem com velocidade e mandam todos para o caixão. A diferença é que o implacável personagem de Eastwood age com atitudes ambíguas. Com os moradores de Lago, é cruel e misógino, chegando mesmo a estuprar uma mulher em plena luz do dia. Com os outros, é bondoso e gentil (às crianças índias que perambulam pelo lugar, ele distribui doces).

Esse comportamento, é claro, tem uma explicação – e ela é a melhor coisa do filme, o elemento que transforma “O Estranho Sem Nome” em um longa-metragem diferente e especial. Eastwood, ainda que não exiba a segurança de trabalhos posteriores, já é esperto o suficiente para evitar explicações em demasia. Seguindo a cartilha do faroeste psicológico, a chave para entender as motivações do “estranho sem nome”, bem como o elemento sobrenatural do filme, está no sonho repetitivo que o personagem tem todas as noites, e que o filme mostra em flashbacks eventuais.

Todos os demais moradores de Lago são caracterizados como os arquétipos clássicos do faroestes: a prostituta, o xerife, o barbeiro, o barman, os malfeitores, o pastor, o comerciante. Qualquer apreciador do gênero vai reconhecer o que faz um personagem apenas olhando as suas roupas. Em resumo, Clint Eastwood utilizou as ferramentas tradicionais do faroeste para construir uma obra que as distorce. Ele soube até mesmo convencer o estúdio que bancou o filme a atender alguns caprichos típicos dos grandes autores, algo que ele ainda não era.

O cineasta, que também produziu a película, fez a Universal construir um pequeno vilarejo de treze construções, inclusive com interiores completos e mobiliados, para filmar “O Estranho Sem Nome”, à beira de um lago na Califórnia. Foi uma excelente decisão, pois dessa forma ele pôde filmar todas as cenas na seqüência correta, inclusive aquelas que se passam dentro das casas. Por outro lado, a cidade cenográfica comete um dos poucos pecados do filme, pois todos os prédios parecem novos demais quando o pistoleiro adentra a cidade pela primeira vez. Claro: eles era, de fato, recém-construídos, o que não deixa de ser um defeito.

A construção do falso vilarejo deu liberdade ao fotógrafo Robert Surtees para caprichar nas composições estranhas, bizarras, bem ao estilo do grande Sergio Leone. O personagem de Eastwood, por exemplo, é freqüentemente filmado de baixo para cima, o que lhe empresta uma aura ameaçadora. Surtees também tem a chance de elaborar cenas noturnas arrojadas, com uso de contrastes violentos e muitas sombras, bem na linha do que Gordon Willis estava fazendo na série “O Poderoso Chefão”, na mesma época. Tudo isso faz de “O Estranho Sem Nome” um faroeste de visual incomum.

Para espectadores desacostumados aos faroestes italianos, o longa-metragem de Clint Eastwood pode parecer um tanto lento na primeira parte, quando os habitantes de Lago contratam o misterioso pistoleiro para proteger o vilarejo da ação de bandidos sedentos de vingança. A partir da metade, no entanto, o filme ganha um senso de humor mórbido e peculiar, e se transforma em uma sucessão de grandes cenas, como aquela em que Clint manda os habitantes do lugar pintarem todas as construções de vermelho e rebatiza a cidade de Inferno. Além disso, o confronto final é absolutamente antológico e também assustador. Para neófitos, “O Estranho Sem Nome” poderia ser descrito como uma mistura do horror “O Corvo” com o clássico western “Matar ou Morrer”.

O lançamento em DVD no Brasil foi feito pela Universal. O disco contém, além do filme, apenas um trailer e notas de produção. Como compensação, a qualidade do filme é muito boa, com imagens mantendo o enquadramento original (widescreen 2.35:1) e som Dolby Digital 2.0. Nos EUA, existe uma versão com trilha de som mais refinada (DD 5.1).

– O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, EUA, 1973)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Verna Bloom, Marianna Hill, Mitch Ryan
Duração: 105 minutos

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