Estranhos, Os

18/02/2009 | Categoria: Críticas

Estréia de Bryan Bertino quer manter o espectador com os nervos em frangalhos durante toda a projeção, e alcança o objetivo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O casal chega à luxuosa e isolada casa de campo dos pais dele, após uma festa, na maior tristeza. O plano original de James (Scott Speedman) era proporcionar a Kristen (Liv Tyler) a madrugada mais romântica da vida dela. Ao recusar o pedido de casamento feito pelo namorado, porém, ela estragou tudo. Não demora muito, porém, para que os dois se vejam obrigados a enxugar as lágrimas para enfrentar uma estranhíssima e apavorante tentativa de invasão, feita por desconhecidos que usam máscaras sinistras. Com esta premissa enxuta, “Os Estranhos” (The Strangers, EUA, 2008) não tem pretensão maior do que simplesmente manter o espectador com os nervos em frangalhos, em estado de tensão absoluta, durante toda a projeção. E o objetivo é alcançado com louvor.

Para a estréia cinematográfica, o diretor e roteirista Bryan Bertino escreveu uma história baseada num episódio ocorrido durante a infância. Certa vez, durante a noite, a família dele foi surpreendida com batidas à porta de um estranho, que perguntava sobre uma pessoa que não morava lá. No dia seguinte, os Bertino descobriram que outra casa na vizinhança havia sido invadida e assaltada. Tomando como ponto de partida apenas as batidas inesperadas na porta de casa, Bryan escreveu um roteiro inteiramente ficcional (sim, os letreiros que abrem o filme são mentirosos) para um filme pequeno em todos os sentidos. A história se passa quase toda numa só locação (a mansão luxuosa de campo de uma família de classe média), e o elenco tem apenas dois atores e um punhado de figurantes.

“Os Estranhos” se propõe apenas a contar apenas a história de um casal assediado de madrugada por estranhos que usam sinistras máscaras. Não há nenhum subtexto, o diretor não tenta passar nenhuma mensagem, nada disso. Nem mesmo a composição consistente dos personagens é importante. Se Bryan Bertino dedica o primeiro ato a apresentar o casal em situação de conflito, isso ocorre apenas para permitir maior empatia do público com os dois. Afinal, eles são pessoas comuns, igualzinho ao pessoal do lado de cá da tela. Ele não passa de um cara apaixonado que acaba de sofrer a pior desilusão de sua vida. E o pior é que ela gosta dele. Apenas está confusa. Acha que é jovem demais para dar um passo tão importante quanto casar.

A partir da primeira pancada na porta da casa de campo, porém, o que se vê na tela é uma história simples, quase corriqueira, mas contada de uma forma que garante tensão permanente. A maior virtude do longa-metragem é a decupagem (a escolha dos ângulos de câmera), criteriosa planejada pelo diretor. Seguindo à risca a definição de suspense dada pelo mestre Alfred Hitchcock, o cineasta estreante trata de posicionar a câmera sempre numa posição que permita à platéia saber um pouco mais do que os dois personagens principais. Este é o segredo da tensão que faz o espectador fincar os dedos na poltrona e não largar nunca. Nós sabemos coisas que eles – o casal – não sabem. Hitchcock dizia que esta era a maneira mais eficiente de criar suspense, pois quando a platéia fica na mesma posição dos personagens, apenas toma sustos, um recurso que perde força quando utilizado em excesso.

Outra técnica utilizada pelo diretor para causar desconforto na platéia é a mobilidade da câmera. Ela nunca está fixa. Move-se sem parar, de modo lento, praticamente imperceptível, quase sempre lateralmente. Não é uma técnica utilizada de modo gratuito. O movimento incessante contribui para que a platéia permaneça com a sensação de quebra de estabilidade. Nós percebemos inconscientemente que algo está errado, ainda que não saibamos nomear o que é. Além disso, o uso de música diegética (ou seja, cuja fonte de origem está dentro do quadro) é criativa, embora crie emoções distintas para os personagens e para a platéia – enquanto desorienta e assusta os primeiros, agrega ainda mais tensão e angústia para os últimos, por causa da expectativa do susto.

Numa época em que o gênero de horror está dominado por imagens de violência explícita e por clichês narrativos que se propagam como erva daninha, o surgimento de um filme como “Os Estranhos”, que investe todos os recursos na criação de uma atmosfera e a sustenta com o uso inteligente de recursos simples e eficientes, deve sempre ser saudado como dado positivo. Infelizmente, o sucesso alcançado nas bilheterias norte-americanas, onde o filme fez surpreendentes US$ 52 milhões, depois de gastar o magro orçamento de U$ 9 milhões, acabou dando sinal verde para a produção de uma desnecessária continuação. Mas essa já é outra história.

O DVD nacional, da Paris Filmes, é simples. O enquadramento original foi preservado (widescreen letterboxed) e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1). Cenas cortadas, um trailer e um featurette completam o pacote.

– Os Estranhos (The Strangers, EUA, 2008)
Direção: Bryan Bertino
Elenco: Liv Tyler, Scott Speedman, Glenn Howerton
Duração: 85 minutos

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