Estrela Solitária

07/03/2007 | Categoria: Críticas

Wim Wenders reata parceria com Sam Shepard e filma história nostálgica de filho pródigo que remete a marcas registradas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Após uma década de seguidos fracassos artísticos e comerciais, eis que o talentoso cineasta alemão Wim Wenders decidiu, com “Estrela Solitária” (Don’t Come Knocking, EUA/Alemanha, 2005), retomar uma antiga parceria de sucesso para tentar reciclar sua energia criativa. Ele chamou Sam Shepard, responsável pelo roteiro do filme de maior sucesso que dirigiu (“Paris, Texas”, de 1984), para escrever e atuar no papel principal do novo filme. “Estrela Solitária” flerta escancaradamente com as principais obsessões do diretor em uma história que remete, em estética e temática, à já citada obra vencedora do Festival de Cannes.

Trata-se de um filme nostálgico que, se assinado por um diretor estreante, seria coberto de elogios. Vindo de um cineasta acostumado a assinar obras-primas inquestionáveis (além de “Parix, Texas” vale lembrar o magistral “Asas do Desejo”, de 1987), no entanto, deixa uma leve sensação de decepção. É louvável o esforço de Wenders na tentativa de restaurar a criatividade perdida, mas a verdade é que o longa-metragem, a despeito de possuir bons personagens e uma história envolvente, apenas recicla temas que ele já havia abordado antes. Na prática, a narrativa tem pouco a acrescentar à filmografia brilhante do diretor, ainda que funcione bem como lamento pela passagem de uma época que não volta mais.

A produção retoma diversas características das obras do cineasta, especialmente aquelas feitas durante o período mais fértil e criativo da carreira, do início dos anos 1970 até meados da década seguinte. Estão lá as imagens icônicas da paisagem do oeste norte-americano (os desertos poeirentos, as luzes de néon dos bares das cidadezinhas), e também os personagens em trânsito, literal e emocionalmente falando, buscando um ajuste de contas radical com feridas abertas num passado distante, feridas que exigem uma dolorosa reaproximação com pessoas queridas deixadas para trás. Wenders incluiu até mesmo um desnecessário enredo policial secundário, detalhe que pode ser encontrado em boa parte da obra do diretor.

A história gira em torno de um ator fictício de Hollywood. Howard Spence (Shepard) já foi, num passado distante, o maior de todos os astros de faroeste, mas agora está em irremediável decadência. Sem maiores explicações, ele abandona os sets de filmagens de uma produção, no meio do deserto, e parte a cavalo sem destino. O que Howard está buscando não está em um lugar específico. Ele deseja abandonar o mundo de aparências e sorrisos falsos de Hollywood, e resgatar o universo autêntico que deixou de lado muitos anos (e garrafas de uísque) antes. É um homem em busca de raízes, querendo reencontrar aquilo que realmente importa.

Nesta busca por um mundo que provavelmente não existe em nenhum outro lugar que não seja a própria cabeça, Howard segue o trajeto de todo filho pródigo, que à casa retorna. Vai atrás da mãe (Eva Marie Saint), onde acaba descobrindo que pode ter um filho com um velho caso de juventude. O ator não sabe direito o que a existência de um descendente poderia mudar na sua vida, mas sente que não tem outra coisa a fazer que não seja encontrá-lo. E cai na estrada, seguido de longe por um investigador de seguros (Tim Roth) com a incumbência de fazê-lo voltar ao trabalho.

Howard Spence é um ótimo personagem, um homem rústico e de poucas palavras, e Wenders o constrói da maneira correta, usando imagens alegóricas que enfatizam o fato de ele pertencer a uma época que já passou. Logo na abertura, por exemplo, ao mostrar Spence abandonando os sets de filmagens em um cavalo, Wenders filma o ator cavalgando com as montanhas pontiagudas do Monument Valley ao fundo, durante um pôr-do-sol. Parece o maior dos clichês, mas é uma cena brilhante, com dupla intenção. Quem tem intimidade com o gênero western sabe que aquele deserto era a paisagem favorita de John Ford, e a associação entre Howard Spence e John Wayne (o ator predileto de Ford e, claro, maior astro do faroeste na vida real) é quase imediata – ficamos sabendo muito sobre o personagem sem que ele precise sequer abrir a boca.

Além disso, Wenders dá um jeito de incluir, em cada tomada, algum elemento contemporâneo: uma estrada de asfalto, um trem passando, um automóvel estacionado. Esses detalhes são sempre mostrados como elementos impuros, invasores do futuro dentro de um passado idílico. O recado é claro: estamos vendo um homem que pertence a um passado glorioso mas já acabado, uma época que abriu caminho para outros tempos. Não sem razão, Spence esvazia a conta bancária, pega um monte de dinheiro e quebra todos os cartões de crédito. Faz isso para que não possa ser rastreado, mas também para romper com os laços que o ligam ao presente. Este homem quer fazer uma viagem no tempo.

O que temos, então, é uma clássica história de filho pródigo ambientada num mundo que funciona como interseção entre passado e presente dos Estados Unidos. Wenders filma isso com uma reverência evidente ao país que o acolheu, caprichando na fotografia que alterna tons de terra e concreto, e na trilha sonora impecável de country eletrificado (sons que, por sinal, também funcionam como uma soma de passado e futuro). Somados, esses elementos rendem um bom filme. O problema é que Wenders já filmou tudo isso outras vezes, e com mais vitalidade. Quem tem intimidade com a obra do diretor alemão vai percebê-lo claramente.

O DVD nacional, da Europa, é simples. A imagem respeita o formato original (widescreen), tem áudio razoável (Dolby Digital 2.0) e não tem extras.

– Estrela Solitária (Don’t Come Knocking, EUA/Alemanha, 2005)
Direção: Wim Wenders
Elenco: Sam Shepard, Jessica Lange, Sarah Polley, Tim Roth
Duração: 122 minutos

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