E.T. – O Extraterreste

28/09/2003 | Categoria: Críticas

Amigo imaginário que veio do espaço ainda emociona – talvez mais os adultos que eram crianças em 1982 do que os baixinhos de hoje

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Steven Spielberg já era um cineasta de sucesso em 1982. Havia inaugurado a era dos filmes de verão com “Tubarão” (1975) e repetido a dose com “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, dois anos depois. O problema é que críticos e colegas de trabalho o consideravam um bom diretor de filmes infantis, nunca um cineasta sério e autoral. Um filme, porém, dobrou esse clichê – e ainda lhe transformou no homem de maior prestígio da indústria cinematográfica. Naquele ano, “E.T. – O Extraterrestre” tornou-se um retumbante sucesso mundial, embalou os sonhos de uma geração inteira e permaneceu por onze anos no topo da lista das maiores bilheterias do globo. Vinte anos depois, a obra-prima de Spielberg aparece com novas cenas, para mostrar que pode ter perdido a posição, mas não perdeu a pose.

Mesmo antes de faturar US$ 704 milhões e ultrapassar “Guerra nas Estrelas” como o filme mais visto em todos os tempos, “E.T.” já era vitorioso. As reações de alguns gênios da sétima arte ao vê-lo são exemplares. Akira Kurosawa chorou. François Truffaut, conhecido como o maior de todos os cineastas a dirigir crianças, mandou-lhe um lacônico e econômico telegrama, que dizia apenas uma frase: “você pertence a este mundo mais do que eu”. A exigente platéia do Festival de Cannes dedicou à obra um aplauso de dez minutos. E.T. continua, ainda hoje, como a mais esmagadora conjunção do gosto do público com a percepção dos críticos.

A oportunidade de rever o filme na telona é salutar. A nova geração de crianças ganha muito com isso, uma vez que o filme estava esquecido nas prateleiras das locadoras. Além disso, E.T. é cinema de primeira qualidade, uma fábula emocionante que, ao contrário do que muitos imaginam, aposta muito mais na espontaneidade dos melhores atores-mirins que Hollywood já produziu do que nos econômicos e certeiros efeitos especiais.

Por outro lado, a obra aporta nos cinemas é um pouco diferente da versão do filme que todos conhecemos. Junto da tradicional remixagem digital de som e imagem, Spielberg introduziu novas cenas e modificou levemente algumas outras. Ao todo, entraram três seqüências engraçadíssimas, que totalizam dez minutos e tinham sido deixadas de fora porque, na época, os efeitos especiais ainda engatinhavam e não haviam ficado tão bons quanto o resto do filme. As outras mudanças, porém, vão deixar os fanáticos irritados. Na famosa cena em que as bicicletas de um grupo de crianças alça vôo, Spielberg apagou digitalmente as armas dos policiais que os perseguem e as substituiu por walkie-talkies. Em um diálogo entre mãe e filho na noite de Halloween, por sua vez, o cineasta decidiu substituir a palavra “terrorista” por “hippie”.

Se o espectador não for um purista exigente, nem vai perceber essas mudanças digitais. As cenas adicionais, contudo, já valem uma nova conferida no clássico de Spielberg. As três novas seqüências são muito engraçadas e dão ainda mais clareza narrativa à produção. Na primeira, o extra-terrestre toma um divertido banho de banheira que rende boas risadas. Já perto do final, um diálogo impagável entre a garotinha Gertie (Drew Barrymore) e a mãe deixa o espectador às gargalhadas. A terceira cena é ainda mais importante para a continuidade. Nela, ET descobre cerveja na geladeira e, enquanto toma um porre, vai deixando o garoto Elliott (Henry Thomas) bêbado. A seqüência já existia no original, mas foi ampliada, para dar mais ênfase à ligação quase umbilical que vai sendo criada entre os dois personagens.

A conexão ET-Elliot é, aliás, a pedra fundamental do enredo, e traz à tona o verdadeiro tema do filme: a reação de uma criança de dez anos à traumática separação dos pais. A temática mostra-se elemento-chave para compreender o sucesso fulminante da obra, uma vez que a geração dos que foram crianças na década de 1980 enfrentava, naquele momento, a primeira grande onda de divórcios, algo raro até poucos anos antes.

A idéia do filme surgiu para Spielberg da forma mais prosaica possível. Ele teve um estalo enquanto pesquisava para “Contatos Imediatos”: e se fizesse um filme substituindo o amigo imaginário, um figura tão cara às crianças solitárias, por um extraterrestre? Com essa idéia e a ajuda da roteirista Melissa Mathison (então esposa de Harrison Ford), Spielberg burilou o roteiro durante oito semanas e passou a encarar, então, os desafios tecnológicos.

Na época, a construção do ET foi o maior problema, resolvido pelo designer italiano Carlo Rambaldi. A pedido de Spielberg, ele criou um boneco de alumínio, borracha e acrílico com 1m20 de altura. Os grandes olhos azuis foram inspirados em velhas fotografias de Albert Einstein. O coração luminoso era um truque bolado por Spielberg para mostrar à platéia que o ET tinha sentimentos, mesmo sem poder se comunicar através da linguagem oral. A equipe da Industrial Light & Magic fez o resto. O filme, que precisou de poucos retoques visuais, é um exemplo de que a perfeição técnica pode prescindir dos computadores.

O maior trunfo de Spielberg, porém, foi extrair atuações inesquecíveis do elenco de crianças. Para isso, ele filmou todas as cenas em ordem cronológica e deixou que as crianças improvisassem à vontade – a maior parte dos diálogos de Drew Barrymore surgiram assim. Além disso, a posição da câmera estava estrategicamente a um metro do chão, o que deu à platéia o ponto de vista das crianças, com adultos sempre muito altos e, conseqüentemente, ameaçadores.

O resultado final resistiu maravilhosamente ao tempo. E.T. é uma obra completa, com ritmo perfeito, que equilibra suspense, tensão, toques cômicos e drama real, sem precisar recorrer ao exagero de efeitos especiais ou à montagem frenética para encobrir defeitos de produção. Se alguém ainda tiver dúvidas sobre o talento de Spielberg, essa obra-prima está aí para derrubá-las.

Essa nova versão, no DVD duplo, vem acompanhada de um documentário extenso, incluindo as famosas cenas em que Harrison Ford interpreta um professor na escola de Elliot, e mais uma penca de extras, como uma reunião do elenco em 2002 (17 minutos). Um extra que merece destaque especial é a opção de assistir à trilha sonora sendo executada ao vivo (enquanto o filme era exibido), pelo maestro John Williams, num cinema de Los Angeles. No mínimo, uma experiência peculiar. Vale lembrar que no Brasil está disponível também a edição tripla, com a antiga versão (sem as inovações tecnológicas) restaurada e alguns outros extras.

– E.T. – O Extraterrestre (E.T. – The Extraterrestrial, EUA, 1982)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Henry Thomas, Drew Barrymore, Robert McNaughton, Peter Coyote
Duração: 115 minutos

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