Eterno Amor

13/07/2005 | Categoria: Críticas

Jean-Pierre Jeunet aprimora fórmula de ‘Amèlie’ em romance impossível cheio de estilo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O longo plano de abertura de “Eterno Amor” (Um Long Dimanche de Fiançalles, EUA/França, 2004) sintetiza muito bem o filme do francês Jean-Pierre Jeunet. A câmera focaliza uma explosão distante e começa a descer, revelando o dorso dilacerado de um cadáver pregado a um poste apenas por uma mão, uma imagem que evoca a crucificação de Jesus. Logo abaixo, uma comitiva de soldados franceses caminha por poças de lama, sob chuva, dentro de uma trincheira típica da I Guerra Mundial. Essa deveria ser uma cena aterrorizante. Num filme de Jeunet, porém, a morte não é crua e dolorosa, mas colorida e cheia de estilo. E “Eterno Amor” não é um drama de guerra, mas uma história de amor impossível e romântica, narrada à maneira lúdica, veloz e plasticamente bela do diretor.

A tentação de comparar “Eterno Amor” com o filme anterior de Jeunet, o ultra-otimista “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain”, é enorme, pois o estilo visual e narrativo é idêntico, só que aprimorado. Grande parte da equipe técnica retorna, como o diretor de fotografia Bruno Delbonnel, responsável pelo visual resplandecente e supercolorido. Alguns membros do elenco também batem ponto, em especial Audrey Tatou, a atriz fofa que brilhou na pele da heroína sonhadora.

Basicamente, Tatou interpreta uma variação de Amèlie em “Eterno Amor”. Mathilde é uma garota órfã, que mora com tios numa pequena cidade litorânea da França. Ela manca porque teve poliomielite na infância. É 1918, e Mathilde está triste, porque seu amado desde os tempos de juventude, Manech (Gaspard Ulliel), está morto. Manech é um dos soldados que marcham no magnífico plano de abertura.

O rapaz, de 20 anos, fazia parte de um grupo de cinco soldados que se automutilaram para conseguir dispensa de continuar lutando na guerra. Por causa disso, um tribunal militar os mandou ao encontro da morte. Só que não foram submetidos a um pelotão de fuzilamento, mas mandados à Terra de Ninguém, a planície lamacenta e imunda que fica na fronteira entre as trincheiras alemãs e francesas. Ficar ali significa morrer bombardeado ou baleado pelo intenso fogo cruzado. Mas Mathilde nunca conheceu ninguém que tenha visto o cadáver de Manech.

Quando recebe de outro militar uma caixa com pertences dos cinco soldados mortos, Mathilde decide procurar os parentes deles, para entregar a cada um os objetos. É o pretexto da garota para empreender uma investigação capaz de encontrar uma prova concreta da morte do rapaz. Ou, quem sabe, para achá-lo vivo. Esse é o resumo do enredo de “Eterno Amor”.

Um resumo muito superficial, é verdade. Jean-Pierre Jeunet narra o longa-metragem utilizando o mesmo estilo tagarela, detalhista ao extremo e hiperveloz de “Amèlie”. O cineasta possui um hábito curioso: ele enche a narrativa de parênteses. Ou seja, se detém em detalhes aparentemente inúteis sobre os personagens, para depois continuar a narrativa de onde havia parado. A longa cena que abre o filme, por exemplo, tem cinco parênteses, pois mostra flashbacks do passado de cada um dos cinco soldados condenados à morte. Jeunet faz questão de contar, até mesmo, que um deles usava as botas roubadas de um soldado alemão, e que Manech foi mandado à Terra de Ninguém com uma das mãos, ferida, protegida por uma luva de lã vermelha com pequenas nuvens brancas desenhadas.

Em “Amèlie”, no entanto, parênteses desse tipo estavam ali apenas para colorir o longa-metragem, e não possuíam nenhuma função narrativa. A platéia fica sabendo, por exemplo, que a garota adora observar as expressões das pessoas nas salas de cinema, mas essa informação não tem nenhuma importância para a ação que o filme mostra. Em “Eterno Amor”, ao contrário, todos os parênteses que Jeunet inclui na narrativa – e eles são quase infinitos, tamanha a quantidade de freadas que o diretor dá no enredo para contar pensamentos, reflexões e pedaços do passado dos personagens – são retomados mais à frente. Muitas vezes, um detalhe insignificante exibido no início da película ganha um novo significado no final.

Pois então, fique sabendo que as botas alemãs não estão no filme por mero capricho, mas têm um significado, bem como a luva vermelha de Manech, e incontáveis outros acontecimentos, objetos cênicos e personagens que desfilam na tela, durante os 134 minutos de “Eterno Amor”. O roteiro de “Eterno Amor”, escrito pelo diretor em parceria com Guillaume Laurant, é um verdadeiro quebra-cabeças cinematográfico. Há duas dezenas de personagens no filme, e esses personagens desempenham dezenas de ações, e cada um dos personagens e ações representa uma pequena peça desse quebra-cabeças. A tarefa de Mathilde consiste em encontrar todas essas peças e organizá-las, de modo a reconstituir exatamente o que aconteceu na fatídica trincheira, que possui o curioso nome de Bingo Crepúsculo.

Esta, aliás, é a aparência de “Eterno Amor”: o filme parece ter tomado um banho de crepúsculo, pois é iluminado quase o tempo inteiro por uma esfuziante luz amarelo-alaranjada, que emprestar ao longa-metragem o mesmo visual estilizado e lúdico dos filmes anteriores de Jeunet. Do ponto de vista técnico, o filme é um triunfo. As seqüências de batalha são sonorizadas de forma impecável, com tiros secos pipocando por todos os lados e explosões que movem nuvens de terra e lama de forma tão intensa que você quase pode sentir a poeira no nariz. Quando focaliza a ação no front, Jeunet utiliza filtros esverdeados, apenas para contrapor visualmente a ação passada da ação presente, que é mostrada sempre no já citado tom crepuscular.

Talvez o maior destaque do filme, contudo, seja a pequena e marcante participação de Jodie Foster, esposa de um dos cinco condenados à morte no Bingo Crepúsculo que narra uma história comovente de amizade, ciúme e culpa, com um francês impecável. É a aparição de Jodie, de certa forma, que desnuda o maior defeito de “Eterno Amor”: um primeiro ato tão veloz que dificulta a tarefa básica do espectador, que é reconhecer os objetivos, a personalidade e as relações entre os personagens – ou seja, obter um quadro geral da ação dramática narrada no filme, para poder observar os avanços dessa mesma ação.

Como há elementos demais na narrativa (por vezes, Jeunet insere trechos de memórias ou pensamentos dentro de uma cena, criando duas ações que precisam ser acompanhadas ao mesmo tempo; em outras vezes, faz pequenos filmes mudos em preto-e-branco para simular recordações de personagens), é difícil para o espectador acompanhar tanta informação. A aparição da atriz norte-americana é o momento em que o filme pára, e permite que a platéia respire, tome fôlego para montar o quebra-cabeça narrativo que veio antes. Daí para a frente, a investigação de Mathilde avança, os personagens parecem mais firmes, e “Eterno Amor” ganha ritmo.

Espectadores que preferem filmes mais simples e naturalistas, como as obras de Clint Eastwood, podem ficar irritados com a abundância excessiva de objetos cênicos e trucagens digitais que Jeunet realiza. Não deixam de ter razão. Mas pequenos detalhes fazem a diferença. Em Hollywood, Jean-Pierre Jeunet poderia terminar como um cineasta extravagante, carnavalesco e histérico, como Joel Schumacher nos seus piores dias. Só que os filmes de Jeunet exalam um carinho pelos personagens, e um amor genuíno pela arte cinematográfica, que nos fazem perdoar qualquer excesso que porventura ele possa cometer dentro dos filmes que dirige. Amém.

O DVD, da Warner, contém apenas um extra: comentário em áudio (com legendas em português) do diretor. O formato de vídeo é o original (widescreen anamórfico), e a trilha de áudio em francês é Dolby Digital 5.1. Há ainda uma segunda trilha DD 5.1, em português.

– Eterno Amor (Um Long Dimanche de Fiançalles, EUA/França, 2004)
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Elenco: Audrey Tatou, Gaspard Ulliel, Jean-Pierre Becker, Jodie Foster
Duração: 134 minutos

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