Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada

17/02/2009 | Categoria: Críticas

Drama agridoce sobre homem que se apaixona pela namorada do irmão repete características do estilo Sundance

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Todos os anos, cineastas pouco conhecidos das grandes cidades norte-americanas queimam as pestanas na tentativa de produzir um grande hit no Festival de Sundance, que rola em janeiro. Desde meados da década de 1990, no evento em Utah (EUA), pequenos filmes que geram grandes buchichos são vendidos por grandes somas de dinheiro a estúdios de Hollywood, encarregados então de distribuí-los em larga escala. O sucesso de obras como “Juno” (2007) e “Pequena Miss Sunshine” (2006), que chegaram ao Oscar, consolidou uma fórmula narrativa para estes filmes de pequena escala. Esta fórmula, infelizmente, tem demonstrado desgaste. Isso fica muito claro, mais uma vez, em “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” (Dan in Real Life, EUA, 2007).

O segundo longa-metragem assinado por Peter Hedges (veterano de Sundance que fez muito sucesso por lá em 2003, quando lançou sua estréia, “Do Jeito que Ela É”) possui uma galeria de atores talentosos e consagrados, tem roteiro redondinho – com personagens interessantes e até uma pequena trama paralela que ecoa o tema principal – e momentos engraçados. No entanto, jamais consegue ultrapassar o status de espetáculo requentado para espectadores pouco exigentes, porque não tenta, nem por um segundo, sair do lugar-comum do estilo Sundance de ser: atmosfera agridoce, problemas familiares, final absolutamente previsível. Percebe-se que o diretor e co-roteirista se dedicou à obra com carinho, mas não conseguiu dar a ela o mais leve sabor de novidade.

Para começar, o argumento é forçado e artificial. Todo o conflito dramático se desenrola a partir do encontro entre Dan (Steve Carell) e Marie (Juliette Binoche) numa simpática livraria em Rhode Island, balneário chique perto de Nova York. Ele é jornalista, cria três filhas adolescentes e está viúvo há quatro anos. Ela é francesa, inteligente e bonita. O papo flui com leveza e ele se apaixona. Horas mais tarde, descobre que a moça está na cidade pelo mesmo motivo que ele: curtir o feriado do Dia de Ação de Graças – uma instituição genuinamente americana – com a família Burns. Na verdade, Marie namora o irmão mais novo (Dane Cook) de Dan. Você pode imaginar o constrangimento e as complicações que nascem quando ele descobre isso.

As situações dramáticas não se desenrolam naturalmente. Justapostas uma a uma, as cenas repetem clichês que podemos ver em dezenas de comédias românticas produzidas nos EUA. Há o jantar em família em que tudo dá errado (para o protagonista, pelo menos), o jogo de futebol americano em que as pessoas começam a perceber o azedume do personagem principal (momento que pode ser visto, por exemplo, nos recentes “Penetra Bom de Bico” e “Entrando Numa Fria Maior Ainda”) e até um personagem engraçadinho que nada tem a ver com o filme, mas aparece em pontas engraçadas, durante momentos cruciais, apenas para quebrar a tensão dramática e provocar alguns risos – o patrulheiro que insiste em multar Dan sempre pelo mesmo motivo.

Todo o filme é narrado do ponto de vista de Dan. Isso é uma vantagem para Steve Carell, que tem mais uma oportunidade para mostrar o bom ator que é, construindo cuidadosamente um personagem discreto, sem os arroubos de humor físico que lhe são caros. Por outro lado, é uma desvantagem para Juliette Binoche. Relegada ao papel de McGuffin de carne e osso – o drama de sua personagem jamais é explorado, e ela só entra em cena para provocar prazer ou dor no protagonista – a atriz francesa demonstra ótimo domínio da língua inglesa, mas abusa de caras e bocas. Ademais, é triste ver uma dupla de veteranos tão afinada quanto Dianne Wiest e John Mahoney (dois atores que têm o dom de interpretar de forma tão natural e espontânea quanto possível) desperdiçada dentro de aventais.

Claro, “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” não é um filme ruim. Há alguns momentos de humor que funcionam a contento, como o instante em que ela é obrigada, por força das circunstâncias, a tomar banho dentro de uma banheira onde ele está, vestido e encharcado. Além disso, o roteiro desenvolve a história com clareza, incluindo uma pequena trama paralela, que envolve uma das filhas adolescentes de Dan, para ecoar a enriquecer o enredo principal. Mas os acertos não bastam para disfarçar o sabor requentado de mais um candidato ao posto de surpresa independente do ano.

O DVD nacional, da Europa Filmes, é simples e traz o longa com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e seis canais de áudio (Dolby Digital 5.1).

– Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan in Real Life, EUA, 2007)
Direção: Peter Hedges
Elenco: Steve Carell, Juliette Binoche, John Mahoney, Dianne Wiest
Duração: 95 minutos

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