Eu, Robô

01/01/2005 | Categoria: Críticas

Alex Proyas constrói filme de ação inteligente com visual arrojado, mas um final infeliz

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Os enormes avanços da tecnologia ocorridos a partir de 1980 deixaram artistas e intelectuais com uma pulga atrás da orelha. Algumas perguntas recorrentes passaram, desde então, a aparecer no fruto do trabalho dessas pessoas, seja em estudos acadêmicos, seja nas obras de arte – especialmente em filmes e livros. Robôs parecem inevitáveis em um futuro próximo, mas como se dará a interação entre o ser humano e essa tecnologia superior? Será que, de alguma forma, máquinas poderão se tornar inteligentes o bastante para ameaçar a espécie humana? Essas questões formam o subtexto, a base sobre a qual se assenta o enredo de “Eu, Robô” (I, Robot, EUA, 2004).

Fãs de ficção científica sabem que vários outros filmes contemporâneos têm abordado, de diversos ângulos e com variados níveis de profundidade, essa mesma questão. “Matrix” talvez seja o mais famoso desses trabalhos, mas este texto ficaria longo e chato se fosse necessário enumerar todos eles. Não dá para deixar de mencionar, no entanto, a excelente animação japonesa “O Fantasma do Futuro”, cujo nome original (“Ghost in the Shell”) é uma expressão real, que está no centro da discussão de “Eu, Robô”.

O filme de Alex Proyas pertence ao mesmo filão temático. Pretende ser um filme de ação com cérebro. E consegue atingir o objetivo, embora sofra do mal padrão que afeta Hollywood – a falta de coragem de roteiristas e produtores em criar finais que reflitam a complexidade dos temas tratados por essas obras. A tendência de simplificar os filmes quando eles chegam ao clímax é uma característica que Hollywood teima em manter.

“Eu, Robô” se passa em Chicago, no ano de 2035. Neste momento, a sociedade já convive com robôs no cotidiano; existe uma máquina para cada cinco seres humanos caminhando pelas ruas dos Estados Unidos. Todos acham isso normal. Del Spooner (Will Smith), um detetive do esquadrão de Homicídios, é convocado à sede da megaempresa US Robotics, para investigar o suicídio do criador dos robôs, Dr. Alfred Lanning (James Cromwell). Detalhe: a presença de Spooner é requisitado pela própria vítima, que deixa para ele uma mensagem holográfica enigmática. Logo, Spooner passa a desconfiar que um robô possa ter assassinado Lanning.

A opinião de Spooner, contudo, é isolada. Afinal, todos os robôs obedecem às três leis da robótica, criadas pelo próprio Lanning: (1) Nenhum robô pode ferir um ser humano ou permitir, por falta de ação, que um homem seja ferido; (2) Um robô é obrigado a obedecer às ordens de um ser humano, contanto que essas ordens não entrem em conflito com a lei número 1; (3) Um robô deve proteger a própria existência, desde que isso não interfira nas leis número 1 e 2.

Em 2035, nenhum caso de agressão cometida por robô foi jamais registrado, em qualquer parte do mundo. Por isso, não é nenhuma surpresa que a opinião de Spooner, um notório avesso a novidades tecnológicas, seja desprezada. Mas o comportamento estranho do robô de estimação de Lanning, chamado Sonny, mantém Spooner decidido a investigar melhor o caso. Para isso, ele espera contar com a ajuda da psicóloga Susan Calvin (Bridget Moynahan), uma especialista em desvendar a psique matemática dos robôs.

“Eu, Robô” tem inspiração em contos do romancista Isaac Asimov, o verdadeiro criador das leis da robótica (que existem de fato). Leitores do mestre da ficção científica vão reconhecer o nome da famosa psicóloga de robôs, protagonista de vários contos de Asimov, mas não a personagem; Calvin foi rejuvenescida pelo enredo, de modo a dar lugar na trama para uma atriz jovem, bonita e dona de um corpaço. Coisas de Hollywood. De qualquer forma, aqui ela não é protagonista, mas uma coadjuvante, com pouca participação na primeira metade do filme.

Esse problema fica pequeno, contudo, diante da firmeza com que o diretor Alex Proyas conduz a trama. Proyas já é familiarizado com mundos futuristas; ele fez o neogótico “Cidade das Sombras”, um conto noir ambientado em um futuro incerto que influenciou um bocado os criadores de “Matrix”, e sempre foi fanático pelas charadas tecnológicas de Asimov. Nesse caso, montou uma para ele próprio, produzindo um filme visualmente incrível, com cenas de ação impressionantes e uma direção de arte inteligente.

A Chicago de 2035, criada com uma combinação de maquetes e efeitos computadorizados, deve muito a “Minority Report”, de Steven Spielberg: arranha-ceús futuristas e casas antigas se misturam indistintamente, e os carros são movidos a energia (mas repare como Proyas foi mais original na hora de arrumar um espacinho para estacionar, um problema do futuro que Spielberg não imaginou). Há, também, doses generosas de seqüências de ação, que incluem a perseguição de um robô e a fuga de uma casa sendo demolida. Essa última talvez seja a seqüência de ação mais espetacular de 2004. Quase dá para o espectador sentir os pedaços de reboco das paredes destruídas!

Além disso, Alex Proyas se beneficia de tecnologias inovadoras desenvolvidas para outros filmes, como “O Senhor dos Anéis” e “Matrix”. A criação do robô Sonny utilizou a mesma técnica que gerou o Gollum, da primeira trilogia, com um ator dando forma às expressões e movimentos da máquina – e faz isso muito bem. Sonny não aparenta ser humano, mas parece ter sentimentos; possui um olhar com alma, nitidamente diferente do que vemos em vários robôs idênticos.

De “Matrix”, Proyas roubou os incríveis movimentos de câmera nas cenas de ação. O efeito bullet time aparece em algumas seqüências, e há duas cenas em que a câmera faz giros de 360 º em eixo vertical, algo que nem mesmo as seqüências dos filmes dos irmãos Wachowski haviam feito antes (neles, a câmera girava quase sempre em eixo horizontal, algo bem mais simples de fazer). Tudo isso é feito com absoluta perfeição visual. Nesse sentido, “Eu, Robô” é excepcional.

O maior problema do filme parece ser, na verdade, a pedra no meio do caminho de Hollywood. Na verdade, a solução do mistério da morte do Dr. Alfred Lanning é original, inteligente e compatível com o subtexto do filme – aquela pergunta recorrente que os criadores de ficção científica vêm abordando há alguns anos. Só que essa resolução vem embalada em cenas que, apesar de bem feitas, apenas repetem os clichês que estamos acostumados a ver em filmes de grande orçamento. Anote aí: “Eu, Robô” termina exatamente da maneira que você vai imaginar no início. Ainda bem que o caminho até lá é instigante e vale a pena.

Em DVD, o filme´ganhou lançamento duplo, com um segundo disco que contém documentários, trailers e cenas cortadas. Imagem em formato original (widescreen) e som explosivo em sistema Dolby Digital 5.1 completam o pacote.

– Eu, Robô (I, Robot, EUA, 2004)
Direção: Alex Proyas
Elenco: Will Smith, Bridget Moynahan, Bruce Greenwood, James Cromwell
Duração: 115 minutos

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