Eu, Você e Todos Nós

03/10/2007 | Categoria: Críticas

Estréia na direção da artista multimídia Miranda July é uma coleção de esquetes, alguns muitos bons

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A expressão “artista multimídia” pode ter muitos significados, mas nenhum deles costuma ser visto de forma positiva por pessoas acostumadas ao cinema convencional. Filmes comuns contam histórias simples, com começo, meio e fim, mas artistas multimídia não gostam de filmes comuns. A abordagem desses profissionais é mais instintiva e quase nunca objetiva contar histórias, muitas vezes mergulhando em uma miríade de impressões sensoriais que, na maioria das vezes, resulta em troços chato e incompreensível que somente alguns teriam coragem de chamar de “filmes”.

Neste sentido, o longa-metragem de estréia da artista multimídia Miranda July, “Eu, Você e Todos Nós” (Me and You and Everyone We Know, EUA, 2005), é uma boa surpresa. O filme foge completamente ao estereótipo do cinema hermético que a gente associa aos trabalhos da maioria dos artistas plásticos. O filme conta uma história, ainda bem! Por outro lado, não investe em uma fórmula narrativa clássica, se esforçando para fugir do registro naturalista, já que não tem nenhuma intenção de reproduzir a sensação de realidade, preferindo narrar sua história como num sonho melancólico, e alcançar um registro levemente onírico.

A própria cineasta define seu estilo como “tristeza com humor”, e é exatamente esta a atmosfera que o longa-metragem consegue passar: uma espécie de melancolia delicada e, de algum modo, engraçada. Para alcançar o resultado, duas influências são bem óbvias: Robert Altman (“Short Cuts”) e Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums”). Do primeiro vem a técnica narrativa, que não se concentra num único personagem principal, mas fragmenta o foco em três ou quatro tramas que correm em paralelo, cruzando-se em determinados momentos. Já de Anderson vem o olhar infantil, um tanto tristonho, mas leve e bem-humorado.

July, porém, não possui o talento do Wes Anderson. A rigor, ela não fez um filme ruim. Há muitas qualidades em “Eu, Você e Todos Nós”, inclusive o excelente desempenho dos atores e alguns diálogos e situações realmente originais. No geral, contudo, o longa-metragem mais parece uma coleção de esquetes independentes do que um todo coeso. Faltou elaborar melhor as ligações entre as histórias e tratar o (bom) roteiro com mais rigor, eliminando as passagens mais fracas e enfatizando as melhores, como a excelente trama envolvendo os dois irmãos de 7 e 14 anos, interessados em bater papo pela Internet.

Os dois personagens com mais tempo de tela são um homem e uma mulher. Richard (John Hawkes, muito natural) é um vendedor de calçados que acaba de passar por um divórcio traumático e está se esforçando para melhorar seu relacionamento com os dois filhos. A mulher é Christine (a própria July), uma artista multimídia que tenta ingressar nos círculos de arte da cidade, mas trabalha como motorista de táxi para pagar as contas. Os dois compartilham um primeiro encontro promissor, mas a partir daí a história toma um rumo, digamos, incomum.

Apesar da pouca duração, bastante tempo do filme é gasto em seqüências que não contribuem em nada para avançar a história dessas pessoas. Em uma delas, que poderia render um bom curta-metragem mas não representa nada para o longa em si, Christine acompanha a odisséia de um peixinho dourado, esquecido no teto de um carro, em plena auto-estrada. Poderia ser uma boa cena cômica, mas acaba virando um dos raros momentos em que July assume sua porção “artista performática” e envereda por um discurso que pretende ser doce e delicado, mas falha pelo excesso de pretensão.

Por outro lado, o enredo que envolve os dois pirralhos filhos de Richard não é apenas hilariante e gracioso, mas também resume perfeitamente o tema central do longa-metragem, o cerne do discurso de July: todos nós, seres humanos, estamos permanentemente à procura de conexões com outras pessoas, mesmo quando não sabemos disso. A forma despojada, ingênua e quase pueril como July apresenta uma cena de pedofilia desarma totalmente o espectador, em um momento que poderia parecer, num filme mais conservador e moralista, apenas uma passagem de odiosa moral. “Eu, Você e Todos Nós” não é perfeito, mas vale uma conferida – e sua diretora é um nome promissor.

O DVD da Videofilmes traz o longa sem extras. A imagem preserva o formato original (widescreen letterbox) e tem áudio razoável (Dolby Digital 2.0).

– Eu, Você e Todos Nós (Me and You and Everyone We Know, EUA, 2005)
Direção: Miranda July
Elenco: John Hawkes, Miranda July, Brad Henke, Brandon Ratcliffe
Duração: 97 minutos

| Mais


Deixar comentário