Excêntricos Tenenbaums, Os

25/01/2008 | Categoria: Críticas

Dividido em capítulos, como num livro, terceiro trabalho do texano Wes Anderson revela carinho pela vida de fracassados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Muitos filmes são inspirados em livros. A literatura permanece, ainda hoje, a maior das fontes de inspiração para cineastas. Mas “Os Excêntricos Tenenbaums” (The Royal Tenembaum, EUA, 2001) é um caso único. O longa metragem é o próprio livro. Espécie de fábula intimista sobre o fracasso, de ponto de vista norte-americano (mas não ortodoxo), o terceiro filme do texano Wes Anderson, 32 anos, está dividido em capítulos. Assim mesmo, em capítulos, e literalmente. Sozinha, essa característica diz muito sobre uma das mais originais obras dos últimos anos.

O formato narrativo é uma boa pista para compreender o filme. A estrutura literária remete a trabalhos antigos do francês François Truffaut, como “A História de Adèle H”. Truffaut é o diretor predileto de Anderson, que não esconde seu encanto quando fala de Os Incompreendidos, estréia clássica do crítico e diretor francês. O encanto pelas crianças (atores-mirins também eram apreciados por Truffaut, por sinal) revela outra fonte da qual Wes Anderson bebe, o escritor J.D. Salinger. Crianças, tanto para Anderson quanto para Salinger – e, porque não dizer, para truffaut também – são seres humanos no estado mais puro, não corrompido. Por fim, o estilo surrealista, que nos dá a sensação de estar num mundo de sonhos, vem do espanhol Luis Buñuel.

Esse coquetel de influências transforma o trabalho de Anderson numa das obras mais peculiares do cinema atual. Os filmes do texano são difíceis de classificar. Não parecem dramas, mas têm grande carga de dramaticidade e exalam melancolia. Sugerem comédia, mas nem sempre fazem rir – e o riso, muitas vezes, é amargo. E sempre focalizam a vida de losers, expressão americana para definir sujeitos que flertam com o fracasso e experimentam permanentemente a sensação de derrota. Porém, fazer isso com leveza e sensibilidade, como o diretor consegue, é uma grande vitória. Ele confirma seu nome como um dos maiores talentos jovens dos EUA.

Para começo de conversa, “Os Excêntricos Tenenbaums” possui os personagens mais bem desenvolvidos dos últimos tempos. O enredo começa narrando a saga de uma família de superdotados. Chas (Ben Stiller) negocia propriedades de luxo e faz sucesso como contador aos 10 anos. Margot (Gwyneth Paltrow) ganha um prêmio de dramaturgia aos 9. Richie (Luke Wilson) é tricampeão nacional de tênis aos 17. Tudo vai bem na família Tenenbaum, até os pais, Royal (Gene Hackman) e Etheline (Anjelica Huston), se separarem. Aí, um rolo compressor invisível anda por cima de todos. O filme faz uma elipse e corta para alguns anos à frente, como todo mundo na idade adulta.

Nesse instante, os Tenenbaum estão mergulhados em crises pessoais. Chas sofre de paranóia depois que a esposa morre num incêndio, e acredita que sua missão na Terra é impedir a si próprio e os filhos de morrer do mesmo jeito. Richie, desiludido com a ama, abandona o tênis no meio de uma partida e embarca para a Antártida, num cruzeiro sem rumo. Margot tem bloqueio criativo e fuma escondida do marido, trancada no banheiro, sem olhar ninguém nos olhos. É quando Royal, falido, decide voltar à casa de Etheline. Ao mesmo tempo, por motivos diversos, os filhos fazem o mesmo. Hora de a família lavar a roupa suja.

Uma característica dos filmes de Wes Anderson é a obsessão por detalhes. Para “Os Excêntricos Tenenbaums”, o cineasta gastou meses desenvolvendo cada pequeno traço dos personagens. Uma observação atenta nos quartos (mostrados numa seqüência bela logo no princípio do filme, ao som de uma versão melancólica e instrumental de “Hey Jude”, dos Beatles) permite identificar as personalidades de cada um apenas através da decoração – desenhos, roupas, livros, cada objeto tem uma razão para estar lá. Chas, por exemplo, veste apenas agasalhos Adidas vermelhos, que lhe dão mobilidade para escapar mais rapidamente dos lugares onde está, no caso (improvável) de um incêndio – uma obsessão que cultiva desde a morte da esposa. Ao contrário do que pode parecer, contudo, o filme passa longe de ser uma overdose visual.

A câmera de Anderson, elegante, passeia sem pressa pelas locações, que transportam os Tenenbaum para uma Nova Iorque imaginária. Ele optou por usar sempre a mesma lente de 30mm, para dar unidade – e um aspecto levemente irreal, onírico, meio desbotado até – às imagens. Os movimentos de câmera são econômicos, lentos e friamente calculados, como diria o Chapolim Colorado. Na realidade, a própria cidade ganha ares de personagem, como se tivesse vida própria e abrigasse apenas os Tenenbaums. Nas ruas, vazias de pessoas e lotadas de velhos edifícios, trafegam apenas táxis remendados, dirigidos por ciganos. O diretor diz que essa é a Nova Iorque que imaginava ao ler, adolescente, livros e revistas sobre a cidade. Tudo isso contribui para reforçar a idéia de sonho.

A música, outro elemento de destaque da obra, é da velha escola do rock’n’roll setentista, e de primeira qualidade. Escolhidas pelo próprio diretor, as canções misturam de Ravel a Nick Drake, passando por Rolling Stones (em dose dupla, e tocados em disco de vinil!), Nico e Ramones. Para inspirar o elenco mais talentoso reunido em Hollywood desde Magnólia, o cineasta levava um velho aparelho toca-discos e tocava as músicas durante as gravações, preferindo assim ao colocar o som posteriormente, no processo de montagem. O resultado desse esforço, que consumiu três anos entre o rascunho do roteiro e a edição final da obra, é um filme estranho e belo, tão mágico quanto a atmosfera que exala.

– Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, EUA, 2001)
Direção: Wes Anderson
Elenco: Gene Hackman, Anjelica Houston, Ben Stiller, Gwyneth Paltrow, Owen Wilson, Danny Glover
Duração: 109 minutos
Distribuidora: Buena Vista

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