eXistenZ

22/01/2008 | Categoria: Críticas

Longa-metragem tem idéias semelhantes a ‘Matrix’, mas vai muito mais longe na mistura ficção X realidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O ano de 1999 parece ter sido especialmente fértil no aparecimento de filme que investigam o desaparecimento progressivo das fronteiras da ficção e da realidade. O mais conhecido desses longas-metragens, “Matrix”, situou a tecnologia como uma espécie de portal entre duas dimensões, uma real e outra virtual. “eXistenZ” (eXistenZ, EUA/Canadá/França, 1999), de David Cronenberg, realiza o mesmo raciocínio, só que num filme muitas vezes mais cerebral e instigante.

Na verdade, a única semelhança entre o filme dos irmãos Wachowski e o longa de Cronenberg é mesmo essa confusão entre mundo real e mundo virtual, uma sensação compartilhada pelos personagens dos dois filmes. O diretor canadense, contudo, vai mais fundo no problema e investiga também outras fronteiras: sexualidade, prazer e a relação intrínseca de ambos, no mundo atual, com a tecnologia. O resultado é um filme excêntrico, escatológico e muito inteligente.

Allegra Geller (Jennifer Jason Leigh) é uma genial designer de jogos de computador. Tratada como uma espécie de deusa por uma horda cada vez maior de usuários desses games, Allegra também sofre com a perseguição de fanáticos. Depois de escapar de um atentado cometido na noite em que iria apresentar sua mais nova criação, Allegra é obrigada a fugir, com destino incerto, junto ao segurança Ted Pikul (Jude Law).

Na jornada, os dois começam a realizar experiências com o novo jogo, chamado por Allegra de eXistenZ. O jogo simula uma realidade virtual tão perfeita que, a certa altura, os personagens não sabem mais se estão no mundo real ou no meio de uma partida virtual. E isso é apenas o começo.

“eXistenZ” é o típico produto que se espera da mente de David Cronenberg. Fascinado por imagens do grotesco e também pelas maneiras com que o corpo humano é capaz de interagir com a tecnologia, o cineasta reúne essas duas obsessões de uma forma que lembra muito os delírios visuais do anterior “Videodrome”, da década de 1980. Para jogar eXistenZ ou qualquer jogo contemporâneo (o filme é ambientado num futuro próximo, mas não especificado), os personagens são obrigados a implantar, na base da espinha, uma porta de entrada biológica que seja capaz de suportar uma interface digital. Em outras palavras, uma espécie de tomada.

Além disso, na louca (ou nem tanto assim) imaginação de Cronenberg, a tecnologia já ultrapassou o estágio da máquina. Tecnologia de alto nível não significa mais um emaranhado de fios e circuitos eletrônicos, como conhecemos hoje, mas algo muito mais orgânico. Assim, os joysticks utilizados nos jogos são semelhantes a fetos – e são tratados como entidades vivas por Allegra.

A localização e o formato das bioportas também dão margem à discussão sobre a relação entre sexualidade e tecnologia, algo que vai fazer o espectador de Cronenberg recordar as vaginas artificiais de “Videodrome”. De fato, “eXistenZ” soa como versão traseira (e portanto bem mais radical) de “Videodrome”. A trama complexa, por outro lado, funciona como reafirmação de refinamento e maturidade de um cineasta no pleno domínio de seu universo.

Se nada disso lhe interessou, saiba que o filme também retrabalha temas ligados à religião (os fundamentalistas que perseguem Allegra e a própria forma como os games de realidade virtual são discutidos, em reuniões que se assemelham a cultos). O enredo, especialmente complicado, se encarrega de colocar o espectador ao lado de Allegra e Ted: nem eles e nem nós, a partir de certo ponto do roteiro, sabem mais qual a natureza das imagens que são vistas, ou da carne que é tocada, ou das pessoas com quem se cruza. Tudo isso é real ou faz parte do jogo? Para completar, pequenos répteis mutantes aparecem em momentos-chave do filme, apenas para complicar ainda mais a equação.

Discutir sobre os significados e a profundidade filosófica dos temas abordados em “eXistenZ” é tarefa para um texto muito maior e mais ambicioso do que uma simples resenha crítica. É possível afirmar, contudo, que se você tem algum interesse na teoria pós-moderna, na visão particular de mundo de Cronenberg ou simplesmente em cinema de ótima qualidade, tem nesse filme um prato cheio para discussões. “eXistenZ” é filme para ser visto mais de uma vez. Infelizmente, não em DVD nacional, pois o filme não foi lançado no Brasil. Compre ou alugue o importado, pois vale a pena.

– ExistenZ (ExistenZ, EUA/Canadá/França, 1999)
Direção: David Cronenberg
Elenco: Jude Law, Jennifer Jason Leigh, Ian Holm, Willem Dafoe
Duração: 97 minutos

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