Exorcista, O

10/10/2003 | Categoria: Críticas

Duas versões do clássico de William Friedkin possuem diferenças, mas matam de medo da mesma forma

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Os filmes de terror nunca mais foram os mesmos depois de 1973. Naquele ano, uma obra do diretor William Friedkin, vencedor das principais categorias do Oscar no ano anterior (Direção e Filme, com “Operação França”), deixou milhares de espectadores aterrorizados nas cadeiras. Alguns desmaiavam, outros tinham ataques histéricos. O caráter revolucionário e o ambiente de tensão de “O Exorcista” (The Exorcist, EUA) modificaram para sempre as produções baratas e pouco verossímeis que caracterizavam o gênero.

A obra de William Friedkin merece um parágrafo especial pela criatividade incomum com que foi produzida. Numa época em que efeitos gerados por computador não passavam de sonho, o diretor foi responsável pela criação de novas técnicas de maquiagem e efeitos sonoros. Além disso, bateu o pé com firmeza e escalou o sueco Max Von Sydow e o dramaturgo americano Jason Miller nos papéis dos padres exorcistas, contra a vontade da Warner, que queria atores mais conhecidos (Sydow era egresso do cinema psicológico de Ingmar Bergman, enquanto Jason nunca tinha atuado na vida).

O filme permanece como clássico perene do cinema de terror, capaz de fazer muito marmanjo querer dormir de luz acesa. Culpa de um roteiro brilhante, que narra a processo de possessão da menina Regan MacNeil (Linda Blair) sem pressa, retardando a aparição do demônio e realçando o suspense em torno do que vai acontecer. Além disso, a atuação de Ellen Burstyn como a mãe da garota é simplesmente espetacular, retratando todas as nuanças de uma mãe que vê a flha consumida por uma “doença” que não consegue explicar. O corte original do filme, sem os efeitos digitais e com onze minutos a menos, parece funcionar melhor. É uma obra-prima do terror no cinema.

A nova versão de “O Exorcista” chegou aos cinemas tendo como carro-chefe uma seqüência legendária, conhecida como “a cena da menina-aranha”, em que a garota Regan McNeil, possuída pelo demônio, desce as escadas como se estivesse andando em quatro patas, de costas, e ataca a secretária da mãe. A verdade é que a seqüência tem poucos segundos e não causa impacto algum. Aos que pensam que a nova versão não vale a pena, entretanto, um aviso: William Friedkin tratou de sua obra-prima com carinho insuspeito.

O grande trunfo do cineasta, que pode passar desapercebido aos mais desatentos, foi a possibilidade aberta pela tecnologia de mixagem sonora digital. Friedkin pôde aumentar o volume sonoro nos momentos de maior impacto. A maior alteração, porém, veio com a possibilidade de usar seis canais de áudio para caprichar nos ruídos sobrenaturais que antecedem as possessões mais violentas da garota. A nova mixagem acentua o silêncio, faz os sussurros demoníacos saltarem de todos os lugares da sala e metem medo de verdade. O som é certamente o maior achado do novo DVD de “O Exorcista”.

Não fosse por ele, daria para dizer que o disco que a Warner lança agora no Brasil é um produto inútil. Porque os retoques digitais que o diretor deu nas imagens são inócuos, apesar de inteligentes (veja o filme com atenção e observe como sombras de objetos, como extintores de incêndio e portas, transformam-se em silhuetas de demônios). Os onze minutos a mais corrigem erros de continuidade e ajudam o espectador a pegar mais detalhes, mas não acrescentam muita coisa aos sustos originais.

Quanto à tal seqüência-chave, esqueça o ineditismo. As imagens da menina-aranha já eram conhecidas por todos os que assistiram ao documentário “O Medo de Deus: o Making of de O Exorcista”, feito pela BBC e presente na primeira versão do filme em DVD nacional. O programa, por sinal, é um dos melhores já produzidos no gênero e está recheado de entrevistas e depoimentos interessantes dos atores e da equipe técnica, além de ter várias das cenas inéditas que entraram na nova montagem, testes de maquiagem e cenas de bastidores. O documentário, inexplicavelmente, foi limado do novo disco, que tem um comentário em áudio (sem legendas) de Friedkin. Trata-se, portanto, de dois produtos bem diferentes.

– O Exorcista (The Exorcist, EUA, 1973)
Direção: William Friedkin
Elenco: Max Von Sydow, Linda Blair, Ellen Burstyn, Jason Miller
Duração: 122 minutos (versão original), 133 minutos (nova versão)

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