Experiência, A

06/05/2005 | Categoria: Críticas

Estréia de Oliver Hirschbiegel no cinema é filme perturbador, diferente e fascinante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O alemão “A Experiência” (Das Experiment, Alemanha, 2001) possui uma curiosa semelhança com o canadense “Cubo”, de 1997. Os dois títulos mostram um grupo aleatório de seres humanos tratados como ratos de laboratório, e participando de experimentos de investigação da natureza humana. Os dois chegam à mesma conclusão: o homem possui uma natureza agressiva que busca, mesmo inconscientemente, o conflito. Ambos são bons, cada um à sua maneira. Mas o título alemão é mais instigante e mais pé no chão.

O personagem principal de “A Experiência” é o taxista Tarek Fahd (Moritz Bleibtreu, que os brasileiros vão reconhecer como o estúpido namorado da protagonista de “Corra Lola Corra”). Jornalista freelancer, o rapaz lê no jornal um anúncio a respeito de uma experiência com seres humanos e resolve entrar no projeto, com dois objetivos: ganhar a grana nada desprezível por servir como cobaia do projeto secreto, durante 14 dias, e ao mesmo tempo documentar toda a experiência com fotos, de modo a publicar uma reportagem exclusiva em alguma revista de grande circulação.

As regras da experiência são simples. Ao todo, os 20 homens selecionados entre os candidatos são trancados, durante um período de duas semanas, em uma prisão. Eles são divididos em dois grupos, sendo oito guardas e doze prisioneiros. Os guardas devem manter a ordem no lugar sem usar qualquer tipo de violência; os presos devem apenas obedecer às ordens dos guardas. Qualquer um pode desistir do projeto a qualquer momento, mas se fizer isso perde o direito ao salário.

A princípio, tudo parece simples. O clima de camaradagem amistosa do primeiro dia, contudo, começa a ser abalado quando as lideranças começam a se estabelecer nos dois grupos. Berus (Justus Von Dohnanyi), o guarda principal, demonstra ser um sujeito autoritário e de índole violenta. O prisioneiro 77 (dentro da cadeia os homens não devem ser chamados pelos nomes, mas por números), justamente Tarek, é o contraponto rebelde que entra em conflito com Berus, enquanto documenta tudo com um par de óculos especiais que contêm uma microcâmera fotográfica. A partir daí, a experiência toma rumos imprevisíveis – e o filme vai ficando cada vez mais claustrofóbico, fascinante e nervoso.

“A Experiência” é a estréia na direção do cineasta Oliver Hirschbiegel, que depois faria o controverso “A Queda”, ficção disposta a documentar os últimos dias de Hitler em 1945. É um filme seguro, adulto e promissor, que conta com atuações seguras e um roteiro criativo. Como filme, “A Experiência” acerta o alvo justamente por fazer aquilo que o projeto secreto do filme se propõe a realizar: um retrato inquietante da natureza agressiva do homem e de sua pendência para o conflito.

O filme foi baseado em um romance de sucesso que, por sua vez, foi inspirado em uma experiência real, conduzida na Alemanha, em 1971. Essa informação é fundamental porque aumenta ainda mais a inquietação do espectador. “A Experiência” é o tipo de filme que põe a platéia em estado de reflexão. Pense: o que você faria se estivesse no lugar de um daqueles personagens? Perturbador, não? “A Experiência” é mesmo um filme diferente.

A Europa lançou o DVD da forma padrão da distribuidora, com muitas falhas. A imagem foi mutilada e está no formato fullscreen, com cortes laterais; a trilha de áudio é Dolby Digital 2.0. Como extras, a distribuidora incluiu o material bruto de divulgação, contendo trechos de entrevistas com o diretor e com o elenco e mais cenas de bastidores das gravações. Os extras possuem legendas em português.

– A Experiência (Das Experiment, Alemanha, 2001)
Direção: Oliver Hirschbiegel
Elenco: Moritz Bleibtreu, Christian Berkel, Oliver Stokowski, Wotan Wilke Möhring
Duração: 119 minutos

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