Expresso do Terror

24/04/2006 | Categoria: Críticas

Com pouco dinheiro e muita criatividade, Eugenio Martín funde horror, ficção científica e suspense em fantasia delirante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O método incomum de Sergio Leone produzir filmes, na década de 1960, serviu como exemplo para muitos cineastas obscuros. Utilizando apenas um ou dois atores conhecidos e muita criatividade, o diretor italiano mostrou que não era preciso gastar fortunas em orçamento para produzir filmes interessantes. O método gerou enorme quantidade de seguidores, alguns de qualidade superior (Sergio Corbucci, por exemplo). Eugenio Martín jamais se destacou entre os melhores aspirantes a Leone, talvez por não ter militado nas fileiras do spaghetti western, mas aprendeu direitinho a lição. É o que fica claro após uma conferida em “Expresso do Terror” (Horror Express, Inglaterra/Espanha, 1973), seu filme mais famoso.

Para criar a delirante mistura de horror satânico setentista com ficção científica, Martín teve à disposição um orçamento minúsculo. Não hesitou: gastou-o com os salários de dois dos atores mais conhecidos e prolíficos do cinema de horror B, os amigos e grandes estrelas do gênero Christopher Lee e Peter Cushing. Ambos haviam feitos várias grandes obras para a produtora inglesa Hammer na década anterior, e andavam meio esquecidos. Com a dupla, um punhado de cenários de segunda mão – basicamente, comprou a preço de banana uma réplica de trem de luxo construído para um filme espanhol de 1971 – e um roteiro criativo, Martín elaborou um filme cheio dos excessos dos anos 1970, mas que transpira garra e criatividade.

Na verdade, “Expresso do Terror” é um clássicos das madrugadas da televisão aberta brasileira. Já foi exibido centenas de vezes, principalmente em meados dos anos 1980. Sendo assim, é bem provável que os fãs de cinema de horror feito com baixo orçamento já estejam familiarizados com o título. A premissa da obra é bem simples, funcionando como uma espécie de variação violenta de “Assassinato no Expresso Oriente”, thriller da lavra de Agatha Christie que fez razoável sucesso na mesma época.

Quase toda a trama se passa dentro de um trem de luxo que corta as planícies geladas da Sibéria. A história diz respeito ao arqueólogo Alexander Saxton (Lee). Durante uma expedição à Manchúria, em 1906, o professor encontra um ser meio homem, meio macaco, de dois milhões de anos, perfeitamente preservado em gelo. Esperando revolucionar a ciência com a descoberta, Saxton a embarca em segredo no trem, para Londres. Mal deixa a estação, porém, a carga congelada passa a ser suspeita de estranhos assassinatos, quando passageiros e membros da tripulação começam a aparecer mortos, com os olhos esbranquiçados. Será que o monstro está vivo?

“Expresso do Terror” é o tipo de filme que não deve ser levado a sério. Se analisados de perto, os detalhes do roteiro escrito por Julian Zimet e Armand d’Usseau não se sustentam. É o caso, por exemplo, na alucinada explicação para a origem do misterioso homem-macaco, que envolve a análise de amostras de sangue retiradas dos olhos da múmia. O líquido, examinado em microscópico, seria capaz de guardar as imagens vistas pelo estranho ser em toda a sua existência, uma teoria que não tem o mínimo respaldo científico (aliás, chega a ser hilário imaginar que o sangue possa funcionar como uma espécie de câmera de televisão em estado líquido).

Por outro lado, a relativa despretensão do longa-metragem o deixa livre para realizar um coquetel alucinado de gêneros, sem muita preocupação com verossimilhança. É daí que vêm os diálogos bem-humorados (“Não somos monstros, somos ingleses!”), as pitadas de ficção científica (os roteiristas não deram bola para o fato de que, em 1906, o homem ainda não soubesse como se parecia a Terra vista do espaço) e a interessante teoria religiosa que permite a interpretação de que Satanás pudesse ser um extraterrestre. No todo, o filme acaba funcionando, mesmo que às vezes pareça um samba do crioulo doido, desde que o espectador não espere encontrar uma obra-prima. Atente ainda para a curta e louquíssima intervenção de Telly Savalas, que havia trabalhado com o diretor na sátira “Pancho Villa” pouco antes.

O DVD nacional, da Works Editora, tem como base o lançamento internacional da Image Entertainment. O disco é simples, não tem extras, e traz uma cópia apenas razoável do filme, com qualidade de imagem (o aspecto original, 1.66:1, é preservado em formato letterbox) e som (Dolby Digital 2.0) OK.

– Expresso do Terror (Horror Express, Inglaterra/Espanha, 1973)
Direção: Eugenio Martín
Elenco: Christopher Lee, Peter Cushing, Alberto de Mendoza, Telly Savalas
Duração: 87 minutos

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