Expresso para Bordeaux

28/08/2008 | Categoria: Críticas

Último longa de Jean-Pierre Melville funciona como thriller, mas carece da energia e do senso de humor de filmes anteriores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A característica principal da fatia mais conhecida do trabalho de Jean-Pierre Melville consistiu em transportar para cenários franceses a trama e a iconografia típicas dos filmes policiais dos anos 1930 e 40 produzidos em Hollywood. Todos os grandes filmes que o cineasta dirigiu, inclusive o célebre “O Jogador” (1955) e o genial “O Samurai” (1968), beberam do noir. Apesar disso, os títulos do diretor que tanto influenciou Quentin Tarantino e John Woo conseguiram ir muito além do mero exercício de estilo. A Melville não interessava a mera reprodução. O elemento original de seus filmes, aquele toque autoral que o elevou ao status de autor completo, residia na caracterização cuidadosa dos personagens, bem como na interação entre eles.

Este toque autoral pronunciado é justamente o elemento que faz falta em “Expresso para Bordeaux” (Un Flic, França/Itália, 1972). O longa-metragem acabou sendo o último da carreira de Melville, que morreria pouco tempo depois, aos 56 anos, vítima de ataque cardíaco. Ao contrário do que se pode pensar, contudo, ele não estava em decadência. Afinal de contas, fazia apenas dois anos que lançara “O Círculo Vermelho” (1970), um dos mais celebrados filmes que dirigiu. O fogo e a vitalidade existentes nos grandes trabalhos do diretor, porém, está ausente aqui. Embora seja um thriller bem construído e se beneficie do ótimo elenco reunido por Melville, a produção não consegue atingir o mesmo grau de excelência, por exemplo, de “O Samurai”.

A citação ao filme de 1968 não é gratuita. “Expresso para Bordeaux” compartilha muita coisa com ele. O ator principal é Alain Delon, que interpreta mais uma vez um homem solitário, lacônico, taciturno. Os personagens freqüentam uma boate muito similar a um dos principais cenários do longa anterior. A trilha sonora contém generosos trechos de jazz melancólico, repletos de saxofones gemendo de dor. A trama envereda pelo submundo da capital francesa, habitado por homens durões que vestem sobretudos de couro barato. Bandidos e policiais dividem uma espécie de código de honra que borra a linha divisória entre o bem e o mal. Há ainda, no centro da história, a amizade inusitada entre o herói e o vilão, sem que o primeiro reconheça no segundo uma ameaça, recurso narrativo pinçado de “O Jogador”.

O herói é o comissário Edouard (Delon), tira que passa as noites vagando pela madrugada parisiense, à caça de contrabandistas e assaltantes de banco. Ele freqüenta a boate de Simon (Richard Crenna), sem saber que o amigo lidera uma quadrilha de ladrões de banco que vem atazanando Paris. Os dois ainda dividem o amor de Cathy (Catherine Deneuve). Melville ataca com competência os aspectos policiais do roteiro, mostrando de forma paralela as ações dos bandidos e a investigação policial. Observe, por exemplo, como ele filma de maneira brilhante o assalto a banco que abre o filme, aproveitando o cenário – a ressaca do mar e a tarde chuvosa – para encharcar o filme com uma atmosfera sombria e melancólica que encontra eco nas personalidades dos dois protagonistas. A cena do assalto ao trem, com o uso de um helicóptero, também é muito bem filmada.

O problema com o filme é exatamente a ausência da caracterização detalhista com que o cineasta abordava personagens como o assassino profissional de “O Samurai”. Naquele filme, o espectador conhece tão bem o matador que se torna íntimo dele, simpatiza com ele, torce por ele. Em “Expresso para Bordeaux”, ao contrário, Melville prefere não invadir a intimidade do trio principal, perdendo uma boa oportunidade de explorar dramaticamente o triângulo amoroso apresentado no primeiro ato. Ele parece mais interessado na ação física, que filma com zelo, do que nos conflitos e desejos dos personagens. O resultado é um thriller eficiente, mas comum, sem o charme, o senso de humor e a energia vista nos melhores trabalhos do diretor.

O filme foi lançado duas vezes pela Classic Line no Brasil. Da primeira, recebeu o nome de “Dinheiro Sujo”; na segunda, ganhou nova capa e o título “Expresso para Bordeaux”. O disco, porém, é exatamente igual. Não contém nenhum extra, e a qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) é apenas razoável.

– Expresso para Bordeaux (Un Flic, França/Itália, 1972)
Direção: Jean-Pierre Melville
Elenco: Alain Delon, Richard Crenna, Catherine Deneuve, Ricardo Cucciolla
Duração: 98 minutos

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