Expresso Polar, O

30/10/2005 | Categoria: Críticas

Robert Zemeckis acerta a mão em conto natalino que deve ser visto com olho de criança

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O lugar-comum visitado por todos aqueles que comentam “O Expresso Polar” (The Polar Express, EUA, 2004) é a tecnologia inovadora utilizada para produzir o filme. Pela primeira vez no cinema, atores em carne e osso filmaram 100% das cenas sob fundo azul e tiveram seus rostos e corpos cobertos por camadas de pixels, criando uma animação digital. Aqueles que enfatizam essa proeza tecnológica, porém, estão cometendo um grave erro: julgam “O Expresso Polar” com olho de adulto. Não é para ser assim. “O Expresso Polar” é uma linda fábula de Natal para crianças que, por acaso, foi produzida com técnicas inovadoras. A tecnologia vem em segundo plano. É a história – ingênua e sombria ao mesmo tempo – que importa. E Robert Zemeckis acertou na mosca.

No fundo, “O Expresso Polar” é uma variação contemporânea da história de Peter Pan, um tipo arquetípico que lida com a perda da inocência. O fato de os personagens não possuirem nomes somente reforça a idéia de que qualquer criança poderia ser O Garoto. O menino narra, já adulto, uma noite de Natal especial que viveu há muitos anos. Na época, o rapazola estava crescido o suficiente para pôr em dúvida a existência de Papai Noel (ou seja, estava prestes a perder a inocência), quando uma enorme locomotiva pára na frente da janela do quarto do Garoto. É o Expresso Polar do título. O menino é convidado pelo Condutor a fazer uma visitinha ao Pólo Norte e encontrar, cara a cara, o bom velhinho que ele acredita ser apenas uma lenda. Este é apenas o início de uma viagem fantástica, repleta de aventuras fascinantes.

Durante a viagem, o Garoto convive com alguns personagens que terão, sobre ele, diferentes impactos. O Condutor, que não é um poço de simpatia mas também não é exatamente chato, aparece como uma espécie de mestre-de-cerimônias. Importa mais a convivência do rapazinho com a Menina, uma garota impetuosa que se torna grande amiga, e com o Solitário, um pequeno e calado morador da área pobre da cidade (Cedar Rapids, no Michigan, EUA), de semblante triste, que está na viagem mas não se sente à vontade para conviver com os outros garotos classe-média que estão no trem. A amizade que se desenvolve entre os três, durante a viagem, reafirma valores que a criançada às vezes menospreza: lealdade, humildade, uma certa dose de altruísmo, e liderança.

“O Expresso Polar” é uma grande viagem de montanha-russa (muitas vezes literal, como na cena em que a locomotiva desce “a montanha mais alta do mundo”, lembrando a viagem de Jodie Foster em “Contato”, do mesmo diretor), e proporciona o encontro com personagens misteriosos e sedutores. O mais interessante deles talvez seja o Andarilho, sujeito meio maltrapilho que vive no teto do trem e possui o estranho hábito de aparecer e desaparecer subitamente. O Andarinho define o tom da narrativa: inofensivo, mas com um toque soturno, um pouquinho assustador.

De fato, “O Expresso Polar” tem a mesma qualidade sinistra-porém-fascinante de filmes como “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “O Estranho Mundo de Jack”. Possui um certo parentesco com os filmes de Tim Burton, e também com as fábulas de Hans Christian Andersen. O humor e o macabro marcam presença sutil nos contos infantis de ambos. A semelhança entre “O Expresso Polar” e “O Mágico de Oz” (1939), já apontada pelo próprio Zemeckis, é evidente. A realidade vista em todas essas obras parece ter vez em um universo mágico, que dá medo e delicia ao mesmo tempo.

Tom Hanks “interpreta” cinco papéis no filme. “Interpreta”, entre aspas, porque “O Expresso Polar” é, afinal, uma animação. Inspirado em um livro ilustrado de Chris Van Allsburg, o filme procura reproduzir as pinturas a óleo feitas pelo autor da história original, e para isso recorreu a um sistema inédito de efeitos digitais. As performances dos atores foram gravadas em computador, e a silhueta foi depois preenchida com texturas (pele, cabelos) e cenários virtuais de última geração. Robert Zemeckis não poupou esforços para produzir locações digitais completas em três dimensões, como lagos gelados e cidades exóticas, o que lhe permitiu colocar a câmera em qualquer lugar, e movê-la da maneira que desejasse, para todas as cenas.

Nesse aspecto reside a força de “O Expresso Polar” para os adultos. Fãs de cinema vão se deliciar com seqüências belíssimas e movimentos de câmera impossíveis. Há uma cena em que um bilhete do trem sai pela janela, e a câmera acompanha todas as peripécias do pedaço de papel (referência, certamente, à linda abertura de “Forrest Gump”, do mesmo diretor, que mostra uma pena caindo do céu). São quatro minutos sem cortes, simplesmente sensacionais.

A já citada descida do penhasco impossível é outra seqüência de tirar o fôlego. Em certo momento, também, o trem contorna um pico nevado e pega um desvio numa enorme ponte para chegar ao Pólo Norte, enquanto a câmera se afasta, sobe, desce e mergulha entre as rodas do veículo. Essas passagens seriam literalmente impossíveis de filmar, se as paisagens fossem reais. A técnica utilizada, porém, torna o impossível apenas uma questão de dinheiro. Zemeckis teve o suficiente, e planejou as tomadas com eficiência impecável.

Se as paisagens são lindas, os personagens humanos não ficam atrás. A técnica usada por Robert Zemeckis consistiu em capturar os movimentos dos atores com centenas de sensores eletrônicos espalhados pelos corpos. As silhuetas geradas em computador eram, então, preenchidas com texturas digitais. Chamada de “captura de personagem”, o procedimento é, na verdade, uma sofisticação da técnica que construiu Gollum, o personagem de “O Senhor dos Anéis”.

O melhor dessa técnica é que ele permite falar em interpretações. Sim, interpretações. “O Expresso Polar” não procura reproduzir a realidade, como em “Final Fantasy”, mas distorcê-la levemente e simplificá-la, o suficiente para que ela lembre uma pintura, mas conserve uma nesga de humanidade. Sobra o suficiente para que as sutis expressões faciais dos personagens passem emoções genuínas – supresa, tristeza, felicidade. Tom Hanks entrega mais um trabalho memorável, especialmente quando está na pele do Garoto (ele também faz o pai do menino, o Condutor, o Andarilho e o Papai Noel). O outro destaque é Peter Scolari, intérprete do Solitário. O resto da turma não brilha nem compromete.

A rigor, “O Expresso Polar” se afasta das animações deste início de século XXI porque fala ao público infantil com o olhar deslumbrado e ingênuo de uma criança. Não é possível compará-lo com “Shrek” ou “Fuga das Galinhas”, por exemplo. O truque dessas animações, inegavelmente competentes, é pontuar os enredos com referências adultas, tornando os filmes mais interessantes para os já crescidos. “O Expresso Polar” não apela para isso (a exceção é uma cena no final, que mostra um elfo cantor com a cara de Steven Tyler, do Aerosmith). Também não é um filme cínico. No final, pode parecer até bobo, piegas ou sem graça. Mas apenas se você olhá-lo com olhos de adulto, e não souber apreciar o excelente trabalho de direção de Robert Zemeckis. Para crianças e cinéfilos, “O Expresso Polar” é imbatível, um clássico para as futuras gerações.

Inexplicavelmente, a Warner o lançou em DVD no Brasil com uma edição pífia: imagens lateralmente mutiladas (stardard 4×3) e nenhum extra. De bom mesmo só o som (Dolby Digital 5.1).

– O Expresso Polar (The Polar Express, EUA, 2004)
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Tom Hanks, Nona Gaye, Peter Scolari, Michael Jeter
Duração: 100 minutos

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