Extermínio 2

17/10/2007 | Categoria: Críticas

Continuação do sucesso de 2002 expande a premissa do filme original e tem inteligência acima da média

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Além de marcar o início de uma nova safra de filmes de zumbi, revitalizando o gênero com seqüências assustadoras, a produção britânica “Extermínio” ganhou notoriedade, em 2002, por ter sofrido modificações do estúdio distribuidor (a Fox) enquanto ainda estava sendo exibido nos cinemas. Numa decisão inédita, a empresa decidiu resgatar o final originalmente planejado pelo diretor Danny Boyle, e inseri-lo no lugar do encerramento mais otimista que foi exibido de início. Era a resposta do estúdio aos protestos dos espectadores, que exigiam respeito à concepção original do projeto. Quando foi anunciado que o longa-metragem ganharia uma continuação, ficou a dúvida: qual dos dois finais seria daria a partida da história contada em “Extermínio 2” (28 Weeks Later, Reino Unido, 2007)?

A resposta é ambígua: ambos e nenhum. A verdade é que a única diferença entre os dos finais estava na sobrevivência (ou não) de determinado personagem. Numa demonstração de inteligência, Boyle decidiu, agora assinando apenas como produtor executivo, inaugurar uma franquia expandindo a premissa do primeiro filme, sem tentar negá-la ou desvirtuá-la, mas descartando os antigos personagens e criando um núcleo inteiramente novo. No “Extermínio” original, a população da Inglaterra era devastada por um vírus que, em contato com sangue, transformava seres humanos em canibais enfurecidos num intervalo de 20 segundos. Em “Extermínio 2”, um curto prólogo retoma a cronologia original, apresentando o novo protagonista. Don (Robert Carlyle) está escondido dos zumbis, com a esposa e alguns amigos, em um chalé rural. Não há água ou energia no lugar, e não demora muito para que os morto-vivos invadam o lugar e ataquem todo mundo, durante uma refeição (ironia obviamente intencional). Apenas Don consegue escapar.

O tempo então avança em seis meses, enquanto uma série de letreiros trata de expandir a premissa do filme original. É onde entra a mão certeira do diretor espanhol Juan Carlos Fresnadillo (autor do ótimo thriller “Intacto”, de 2001). Ele insere um contexto político-militar contemporâneo ao cenário apocalíptico, explicando que o fato de a Inglaterra ser uma ilha permitiu à comunidade internacional isolar a infecção. Após 14 semanas, a maior parte da população nativa tinha sido exterminada pelos zumbis. Em compensação, os canibais morreram de fome logo depois disso. Os poucos habitantes que escaparam foram isolados em comunidades fechadas, monitoradas pelo Exército dos Estados Unidos. Os EUA também são responsáveis pelo planejamento da nova política de repovoamento da Grã-Bretanha. O plano consiste em transportar para a ilha todos os cidadãos britânicos que se encontravam fora da pátria durante os ataques.

Não é preciso ser pós-graduado em política internacional para perceber que a intervenção autoritária dos EUA no Iraque inspirou a elaboração do cenário em que “Extermínio 2” se desenvolve. Assim, reencontramos Dan, agora funcionário graduado da força-tarefa que comanda a ilha, mas permanece subordinada aos norte-americanos. Exatas 28 semanas após a tragédia que lhe roubou a esposa, ele reencontra os dois filhos adolescentes, que estavam de férias na Espanha. Ambos estão retornando à Inglaterra na primeira leva da política de repovoamento. Um incidente envolvendo a família dele e uma forma mutante do vírus, contudo, traz a ameaça canibal de volta ao país, fazendo o Exército dos EUA lançarem um Alerta Vermelho. Isto significa que os militares têm ordem para executar todo mundo, com o objetivo de proteger a eles mesmos. Para os cidadãos comuns, isso significa estar entre a cruz e a espada, enfrentando uma dupla ameaça: metralhadoras de um lado, canibais esfomeados do outro.

Curto repleto de cenas escuras e filmadas em planos médios, que aprofundam a sensação de claudtrofobia e impedem o espectador de entender o que realmente está acontecendo, “Extermínio 2” não investe muito tempo ou esforço na construção meticulosa do cenário apocalíptico, mas o faz com eficiência. Com a ajuda de seqüências tensas que se passam quase sob completa escuridão (uma delas, filmada através da mira de um rifle, é espetacular), o filme filtra uma espécie de caos controlado, criando drama a partir do terror e evitando transformar a história numa mera exibição dantesca de sangue e tripas. Aqui, os personagens têm sentimentos.

Obviamente, também há falhas. Nas seqüências mais agitadas, Fresnadillo não foge à regra dos filmes de ação contemporâneos, utilizando uma receita estética já cansada (cortes rápidos, câmera tremida, gritaria incessante). É certo dizer que essa estética ainda funciona, mas somente quando está a serviço de bons personagens, algo que não ocorre aqui, onde o pano de fundo contextual permanece a melhor coisa do filme. Mesmo assim há espaço para ótimas cenas, sempre com humor ferino, como o já citado prólogo – um ataque canibal durante um almoço à luz de velas, quase romântico, com vinho e tudo! – e outra, bem sangrenta, que focaliza uma multidão de zumbis sendo despedaçada pelas hélices de um helicóptero. E o clímax do filme (a já citada cena da mira do rifle) é imbatível.

Entre os muitos acertos, está também uma reviravolta que acontece mais ou menos na metade da projeção, uma tática criada por Hitchcock (em “Psicose”) e que, quando usada com parcimônia, sempre deixa o espectador sem saber o que diabos poderá ocorrer dali em diante. Infelizmente, a estratégia não funciona porque, justamente a partir do incidente, a estrutura da narrativa se torna bastante previsível, sendo possível imaginar sem muito esforço como tudo vai terminar. O final, desta vez, não tenta ensolarar um filme vermelho-sangue, mas também não prova nenhuma surpresa ao deixar uma porta aberta para possíveis continuações. Não espere um filme inesquecível, mas como segundo exemplar de uma franquia, “Extermínio 2” funciona bem, exibindo inteligência bem acima da média.

O DVD, lançado pela Fox, contém apenas o filme, com qualidade OK de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Extermínio 2 (28 Weeks Later, Reino Unido, 2007)
Direção: Juan Carlos Fresnadillo
Elenco: Rose Byrne, Robert Carlyle, Jeremy Renner, Amanda Walker
Duração: 99 minutos

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