Extermínio

26/07/2007 | Categoria: Críticas

Filme de zumbis moderno tem grande início realista, mas ruma a um final decepcionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Filmes de zumbi estão entre os prediletos do público que curte terror B. Isso acontece, em parte, porque não dá para levar muito a sério esse tipo de película. Produzir uma história de mortos-vivos que levantam das sepulturas e comem cérebro é sedutor, para cineastas sem dinheiro, por ser uma maneira eficiente de filmar sem gastar muito. Um bom maquiador, um elenco razoável e muita criatividade são elementos suficientes para gerar um filme bacana de terror B. De qualquer forma, o gênero está em declínio. Vem daí o primeiro grande mérito de “Extermínio” (28 Days Later, Inglaterra, 2002). O filme de Danny Boyle é uma tentativa de homenagear – e até certo ponto subverter – o terror tipo B.

“Extermínio” possui uma trama muito simples e, propositalmente, incômoda. A excelente seqüência de abertura mostra um grupo de ativistas do Greenpeace invadindo um laboratório para libertar um grupo de macacos utilizados em experiências científicas. Os macacos, contudo, parecem enfurecidos. Os bichos atacam os ativistas e, aí, algo extraordinário acontece: em pouco mais de 20 segundos, os sujeitos viram autênticas feras canibais, devorando uns aos outros. Cada novo ferido fica infectado em meio minuto. Conclusão do expectador: pode ser o início de uma epidemia.

É uma grande abertura, que liga a platéia instantaneamente à trama, sem precisar de explicações. Após um corte, somos apresentados a Jim (Cillian Murphy). Ele acorda de um coma, num hospital, exatos 28 dias depois do acontecimento com os macacos, com o qual não teve nenhuma relação. Para espanto dele (e nosso), o hospital está vazio. Parece abandonado. Jim sai às ruas de Londres, apenas para descobrir que a cidade está inteiramente abandonada. Até mesmo o centro, famoso pelos engarrafamentos. É a melhor seqüência do filme, e talvez um dos piores pesadelos da raça humana: uma praga capaz de dizimar a população em larga escala, com uma velocidade espantosa.

Algumas manchetes de jornais alertam o aturdido sujeito para o problema. Aparentemente, um novo vírus matou milhões na Inglaterra e forçou o fechamento das fronteiras do país. A ilha européia virou uma terra de ninguém, e Jim logo vai descobrir qual o destino que o aguarda. Os novos “donos” do pedaço são verdadeiras matilhas de zumbis esfomeados, todos com olhos vermelhos. Esses zumbis, que se movem numa velocidade espantosa, são mais assustadores ainda porque poderiam ser reais. O roteiro realista ajuda o espectador a entrar no clima do filme. Nesse ponto na narrativa, dois outros sobreviventes são introduzidos: Selena (Naomi Harris) e Mark (Noah Huntley).

A dupla explica a Jim a situação. Ele precisa evitar a todo custo o contato com o sangue dos zumbis, ou se tornará um deles em menos de um minuto. Comida e água precisam ser racionados, por não há mais energia na Londres deserta. O único sinal de vida humana parece ser uma solitária transmissão de rádio pirata, em que um major anuncia estar reunindo homens, fora dos limites da cidade, para organizar uma resistência. Jim e os novos amigos acreditam que chegar até o militar é a única opção de sobrevivência. Esse cenário apocalíptico consegue despertar uma sensação de clautrofobia que películas de temática parecida, como “Sinais”, não foram capazes de capturar.

Pode-se dividir “Extermínio” em duas partes distintas. A primeira mostra a fuga de Londres e tem momentos de puro brilhantismo cinematográfico. Não há muitas palavras – é basicamente um filme de ação, extremamente violento, sem humor e muito tenso. A seqüência em que Jim e seus asseclas percebem um bando de ratos de esgoto fugindo de zumbis esfomeados é um dos momentos mais originais dos filmes de terror produzidos nos últimos anos. Pena que o excesso de músicas pop (um vício de Boyle desde “Trainspotting”) atrapalhe um pouco a atmosfera sorumbática desses momentos.

Além disso, como filme orgulhosamente B, “Extermínio” foi feito com baixo orçamento (apenas US$ 15 milhões), com 100% das imagens captadas com câmeras digitais, muitas vezes na mão. Isso funciona perfeitamente nessa primeira parte da película, pois essas imagens dão ao longa uma sensação de precariedade, de improviso, algo coerente com a situação dos protagonistas. A Londres captada pelas lentes de Boyle é absolutamente aterrorizante, grande palco para pesadelos urbanos.

O problema está na segunda parte do filme, quando os sobreviventes chegam ao quartel da resistência. Nesse ponto, o enredo dá uma reviravolta radical, abandonando aos poucos a narrativa terror B e buscando uma reflexão mais ambiciosa sobre a condição humana. Embora seja coerente com a obra anterior de Boyle (especialmente o excelente “Cova Rasa”), o estudo sobre a cobiça não rende um bom desfecho para a história primária que o cineasta estava enfocando. E isso, se não estraga o filme, o abala seriamente – pelo menos como obra de terror B, rótulo que assumia claramente até a segunda hora de projeção.

Quem assistir a “Extermínio” em DVD vai ter uma boa surpresa. Há, por exemplo, três finais alternativos, todos mais sombrios do que o encerramento bobo (exigência do estúdio) exibido nos cinemas. Vale lembrar que um desses finais acabou sendo incluído nas cópias norte-americanas e brasileiras, após os créditos, depois que o público começou a reclamar da súbita mudança no tom ameaçador do longa. Também tem comentário em áudio do diretor e um pequeno documentário de bastidores. Nada excepcional, mas dá para o gasto.

– Extermínio (28 Days Later, Inglaterra, 2002)
Direção: Danny Boyle
Elenco: Cillian Murphy, Naomi Harris, Megan Burns, Brendan Gleeson, Christopher Eccleston
Duração: 112 minutos

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