Eye, The – A Herança

21/03/2005 | Categoria: Críticas

Filme asiático sobre menina que vê fantasmas após transplante de córnea é inteligente e original

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma garota cega desde os dois anos de idade recebe um transplante de córnea e descobre que ganhou, com o dom da visão, uma maldição. Sim, ela agora pode ver tudo o que pessoas comuns vêem, mas as novas córneas também lhe deram o poder de ver uma outra dimensão. A descrição sintética de “The Eye – A Herança” (Jian Gui, Hong Kong/Tailândia/Cingapura, 2002) pode dar a impressão de uma cópia asiática do sucesso ocidental “O Sexto Sentido”. Não é verdade. “The Eye” vai além do filme clássico de horror, pois é inteligente e original. Trabalha mais no gênero do suspense sobrenatural, capricha na criação de uma atmosfera envolvente e possui personagens acima da média do gênero.

Fala-se muito, quando o assunto é a mutação que o gênero horror sofreu no cinema asiático, das características particulares que essas obras compartilham. Os cineastas da região preferem dar ênfase à atmosfera decadente e aterrorizante, e utilizam todos os recursos narrativos (fotografia, música, edição) para buscar maneiras de alterar o estado nervoso do espectador, obrigando-o a ficar 100% alerta, tenso. Dessa forma, quando os sustos aparecem, sempre provocam aquele familiar arrepio na espinha que faz a delícia de todo amante do bom filme de terror. O problema é que essa técnica freqüentemente faz com que os filmes fiquem lentos, especialmente para o padrão norte-americano de narrativa. Pior ainda: em busca do clima sombrio, a composição de personagens às vezes é comprometida.

A boa notícia é que “The Eye” aproveita o lado bom do jeito asiático de fazer filmes de horror, mas não cai nas suas falhas habituais. Um dos maiores destaques do longa-metragem é justamente a construção dos protagonistas, que é densa e correta, gerando personagens tridimensionais, que poderiam existir em carne e osso. Tome o exemplo de Mun (Angelica Lee), a protagonista. Cega desde criança, ela se tornou violinista, toca música bem melancólica e tem uma personalidade solitária. Mun gosta de ficar sozinha; para alguém que viveu a vida inteira sem ver, essa é uma característica natural. Isso explica ainda porque ela não está acompanhada em momentos fundamentais do filme.

“The Eye” tem sido acusado de ser lento demais, e até monótono. O filme é lento, sim, porque precisa ser. Os irmãos cineastas Danny e Oxide Pang têm talento para o drama, e evitam a natural inclinação para o susto gratuito de nove entre dez diretores do estilo. Por isso, desenvolvem todo o primeiro ato como um melancólico drama, em que Mun reaprenda a usar o sentido da visão, de maneira difícil e dolorosa. Ela não recomeça a ver logo após a cirurgia, pois é obrigada a interpretar e compreender aquilo que seus olhos conseguem focar. No princípio, ainda nos corredores do hospital, ela só consegue ver vultos. Somente após muitos dias é que Mun gradualmente percebe que alguns daqueles vultos só são vistos por ela; um deles, um misterioso espectro negro, está sempre presente quando pacientes do hospital morrem. É quando a garota começa a desconfiar que pode estar vendo fantasmas.

Além de ser um bom exemplar de horror, “The Eye” também sabe investir com competência em outros gêneros. Quando Mun se certifica de que tem um problema, rapidamente passa a freqüentar um psiquiatra, Dr. Wah (Lawrence Chou) – e o rapaz não fica apenas sensibilizado com o problema da garota, mas cai de paixão por ela. É Wah, também, que vai ajudá-la a investigar a situação, em uma tentativa corajosa de descobrir a razão do envolvimento sobrenatural no caso e, talvez, solucioná-lo. Por isso, a partir da metade, “The Eye” flerta com drama romântico e investigação policial, mas sem esquecer que é, sobretudo, um filme de horror. Horror psicológico, filmado de maneira elegante, sempre melancólico e com pouca ação física, mas horror.

A produção asiática ainda consegue equilibrar com competência culturas que não compartilham tantas semelhanças quanto parece. O projeto conseguiu parte do financiamento em Hong Kong e parte na Tailândia, dois países bastante ocidentalizados, mas de maneira diferente. A história começa em Hong Kong, mas se resolve na Tailândia, transitando entre os dois países de forma fluída. Aliás, merece menção especial o magistral clímax do filme, que amarra todas as pontas soltas da investigação empreendida por Mun e Wah em uma seqüência longa, surpreendente e visualmente fascinante, mesmo filmada com poucos recursos. Definitivamente, “The Eye” é um filme de horror que merece mais atenção do que tem recebido.

O filme dos irmãos Pang tem lançamento brasileiro pela pequena distribuidora LK-Tel. Ele chega com imagem no corte original e áudio Dolby Digital 5.1. Possui, ainda, um pequeno documentário de bastidores e trailer. A edição é modesta, mas não decepciona.

– Eye, The – A Herança (Jian Gui, Hong Kong/Tailândia/Cingapura, 2002)
Direção: Danny e Oxide Pang
Elenco: Angelica Lee, Lawrence Chou, Chutcha Rujinanon, Yut Lai So
Duração: 99 minutos

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