Fabuloso Destino de Amèlie Poulain, O

02/02/2005 | Categoria: Críticas

Jean-Pierre Jeunet troca pesadelo por sonho de algodão doce e faz filme carinhoso, multicolorido e alto astral

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain” (Le Fabuleux Destin D‘Amèlie Poulain, França, 2001) é a cara do novo cinema francês: simpático, encantador e um bocadinho americanizado. Calma, isso não significa que o filme seja ruim, muito pelo contrário. Basta lembrar que até os norte-americanos fizeram birra e ignoraram o filme no Oscar de 2002, deixando-o sem nenhum prêmio em cinco indicações. A fábula contemporânea do cineasta Jean-Pierre Jeunet resgata uma Paris nostálgica, multicolorida, lúdica até quando parece suja. Uma Paris de sonho, de certa forma, pois só existe na mente do diretor. Uma Paris onde cabe um filme delicioso.

De certa forma, “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain” soa como um tímido pedido de desculpas do cinema francês contemporâneo ao público de casa. Desculpas pela temática sempre pesada, problema que os filmes da safra 1980/1990 tinham e acaram ajudando a afastar os franceses dos frutos cinematográficos produzidos no próprio quintal.

“Amèlie” é construído em cima do imaginário norte-americano de fazer cinema. O filme evoca, sim, o carinho pelos seres humanos e a visão lúdica diante da vida, uma postura que François Truffaut também tinha. De alguma forma, porém, essa influência chega a Jeunet por vias tortuosas, uma vez que a película faz coro com “Os Excêntricos Tenenbaums”, aproximando-se demais do universo e da temática do texano Wes Anderson (a cenografia abundante, o olhar infantil). Em outras palavras, “Amèlie” evoca a França através de um filtro estético assumidamente pop. Nesse sentido, o longa lembra também “Cidade de Deus” e muitas obras brasileiros dos anos 1990: é um filme que olha para dentro do país de origem, mas com olhos estrangeiros.

O maior mérito de “Amèlie”, o filme, é resgatar os pequenos prazeres da vida, algo que a gente costuma esquecer com a maior facilidade. Amèlie, a mulher, aprendemos no começo, foi uma garotinha solitária e tristonha, criada dentro de casa por um pai ausente, no bairro irresistivelmente boêmio de Montmartre. A menina triste vira uma beldade triste de sorriso cativante (Audrey Tatou, o par de olhos negros mais luminosos do cinema atual). Triste? Ah, sim! Embora sempre sorridente e animada, Amèlie vai aprender, na jornada que o filme mostra, quão dura pode ser a opção por uma vida solitária.

De qualquer forma, é impossível não se apaixonar pela personagem logo nos primeiros minutos. A garota arranca prazer de práticas cotidianas aparentemente banais, como enfiar a mão num saco de feijão ou olhar para os rostos da platéia no cinema, nas cenas de maior impacto dramático. Esses gestos dão uma dimensão humana que faz falta a grande parte dos personagens dos filmes contemporâneos. A poesia do cotidiano é a lição mais bela de “Amèlie Poulain”.

Um dia, depois de tomar um choque ao ouvir a notícia da morte da princesa Diana, Amèlie larga a tampa de um perfume, que abre um buraco na parede da sala do pequeno apartamento onde mora e deixa à mostra uma caixinha. Dentro, brinquedos e bonecos, o tesouros de uma criança desconhecida. A garçonete logo esquece de Diana e se enfia numa frenética busca pela criança, agora um senhor cheio de traumas, para lhe devolver a caixa (numa cena especialmente bela, que ecoa na cena seguinte, em que Amèlie, feliz da vida por ter ajudado uma pessoa, guia um cego num passeio deslumbrante pelas ruas de Montmartre). A partir daquele momento, Amèlie chega à conclusão de que a missão de sua vida é ajudar as pessoas a descobrirem a felicidade.

Um dos maiores trunfos da narrativa de “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain” é a verdadeira enxurrada de boas idéias. Na abertura extravagante, que explora uma série de coincidências à “Magnólia” (o filme de Paul Thomas Anderson), já somos convidados a mergulhar na trama. O enredo escorrega rápido, o ritmo é leve e ágil, as surpresas se sucedem a cada momento. A narração em off entra tão veloz que fica meio difícil acompanhar as cenas e as legendas ao mesmo tempo. São tantas as idéias inteligentes que o roteirista Guillaume Laurant tira da cartola – algumas são até deixadas de lado, por pura impossibilidade de narrar dois atos simultâneos – que daria para construir um épico com o dobro da duração, sem maiores problemas.

Ao lado do roteiro, a fotografia de Bruno Delbonnel é outro ponto alto. O uso de cores é tão estilizado que chama a atenção instantaneamente. A idéia básica do filme deu trabalho: utilizar o contraste entre verde e vermelho para criar uma sensação de parque de diversões, uma maçã do amor de película. Assim, cada cena foi planejada e executada meticulosamente, de modo a haver sempre um ponto verde e outro vermelho em cada plano.

Multicoloridas, recheadas de cores quentes, as imagens criam uma Paris de sonhos (a Paris da cabeça de Amèlie), onde as nuvens possuem as formas de bichinhos de pelúcia e as frutas e legumes estão sempre maduros. A direção de arte é coerente com a obra de Jeunet, um diretor conhecido pela extravagância imagética (“Delicatessen” e “Ladrão de Sonhos”). A diferença é que o visual abandona a sombra em favor da luz, como se o cineasta houvesse saído de um pesado e começasse finalmente a sonhar.

Já a trilha sonora, com canções construídas sobre realejos e acordeões, fornece o toque que faltava para nos sentirmos num parquinho. Pronto, é isso: “Amèlie Poulain” possui a centelha mágica que transforma espectadores em crianças de novo, joga-os de volta num grande parque de diversões. Talvez por isso, a imagem que fica na cabeça após uma sessão do filme esteja nos minutos finais, quando o cineasta enfoca uma máquina de fazer algodão doce no carrossel de Montmarte. Curta esse filme belo sem medo de esconder o sorriso bobo. De vez em quando, é bom voltar a ser criança.

Ah, o DVD nacional: se possível, compre o seu disco. Nas locadoras, o filme está em tela cheia (cortado nas laterais, um verdadeiro crime). Já na versão doméstica, ele vem com enquadramento correto e qualidade perfeita, acrescido de um disco de extras que inclui vários documentários. Os destaques vão para um featurette que explica detalhadamente o processo de construção visual do longa (13 minutos), feito com uma combinação de técnicas – direção de arte, figurinos e correção de cor no computador, tudo trabalhando junto.

Jean-Pierre Jeunet fala pelos cotovelos, em duas longas entrevistas (49 minutos, ao todo), e há muitas cenas esclarecedoras dos bastidores, como um trecho que mostra Jeunet e o fotógrafo Deubonnel escolhendo os ângulos corretos de uma cena, usando uma máquina digital amadora, e outra que ilustra a dificuldade na escolha do corte de cabelo correto para Audrey Tatou. Um dos melhores DVDs do mercado nacional.

– O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin D‘Amèlie Poulain, França, 2001)
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Elenco: Audrey Tatou, Mathieu Kassovitz, Lorella Cravota, Serge Merlin
Duração: 120 minutos

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