Faça a Coisa Certa

01/10/2003 | Categoria: Críticas

Filme barato, corajoso e engajado? O nome de Spike Lee aparece na linha de frente de qualquer filme assim

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Faça a Coisa Certa” (Do the Right Thing, EUA) abalou as estruturas do festival de Cannes em 1989. Polêmico, ousado, corajoso, o longa rachou a crítica do cinema em duas; como um dos personagens do filme diria sem pestanejar, gerou reações de amor e ódio. A obra não ganhou prêmios, mas consolidou o caráter autoral e engajado da carreira do cineasta novaiorquino Spike Lee, além de retratar com fidelidade o objetivo declarado de toda a obra dele: oferecer uma visão do problema das minorias — em especial da causa negra — partindo de dentro do próprio fenômeno.

Embora ainda seja um rascunho, “Faça a Coisa Certa” representa muito bem a temática central da obra coerente, engajada e abundante (são quinze filmes em dezesseis anos) que Spike Lee vem desenvolvendo, à periferia de Hollywood. Spike começou a fazer filmes, em essência, porque sentia necessidade de dar voz cinematográfica à causa negra. O incomodava — e continua incomodando — que cineastas representantes de raças e classes sociais dominantes (como o branco Steven Spielberg, que se debruçou sobre o problema em “A Cor Púrpura” e “Amistad”) estivessem tentando retratar a realidade da periferia de um ângulo, para dizer o mínimo, hegemônio, muito distante do realismo pesado das ruas. No raciocínio de Spike Lee, este tratamento politicamente correto do tema garantia e garante
a perpetuação das formas mais sutis e complexas dos preconceitos, através dos mecanismos da indústria cultural, como o cinema e a TV norte-americanos.

Para Spike Lee, somente um diretor posicionado dentro do problema poderia oferecer uma narrativa válida da teia histórica de causas e conseqüências que o compõem. Junto com o recente “A Hora do Show” (2001), um violento libelo racial que denuncia os mecanismos que aprisionam a raça negra em estereótipos capazes de suavizar e mascarar a questão do preconceito, “Faça a Coisa Certa” oferece um painel humano dos mais consistentes na obra do cineasta. Esse disco possui uma coleção de mais de três horas de material bônus que enriquecem o já vasto painel apresentado pela obra.

Admiradores brasileiros da virulência discursiva do cineasta têm, finalmente, a oportunidade de ouvi-lo discorrer longamente sobre os motivos que o levaram a construir uma obra tão engajada. “Faça a Coisa Certa” é, sem trocadilhos, o filme certo para isso; além de ter provocado um impacto não igualado por qualquer outro trabalho da mesma lavra (nem mesmo por “A Hora do Show”, mais radical e até certo ponto mais polêmico), a obra surgiu no mesmo momento da explosão do rap, no final dos anos 80, quando a voz dos guetos finalmente soou com força total dentro da classe média. O filme de Lee talvez seja o mais contundente trabalho artístico a abordar esse fenômeno, que ainda ecoa, diluindo na música de branquelos como Eminem.

O enredo acontece num só dia, o dia mais quente do ano, no verão novaiorquino. Uma simples discussão sobre fotos penduradas na parede de uma pizzaria italiana no bairro do Brooklin, um reduto negro da cidade, gera um tumulto racial de proporções gigantescas. A violência é acompanhada pelos diálogos pesados, pela trilha sonora vibrante, pela profusão de cores fortes e pela maneira inteligente como o diretor trabalha questões contemporâneas, como a visão do sexo e das drogas dentro da periferia.

Como material extra, o espectador ganha um documentário completo de uma hora, entrevistas picotadas com o elenco (seis minutos) e uma visita interessante do cineasta ao quarteirão onde ficaram as locações originais, além de storyboards da obra e trailers de todos os filmes do pacote, tudo com legendas em português. Há ainda um comentário em áudio revelador, que expõe muito da visão de Spike Lee do problema racial, mas nesse caso é preciso se virar sem legendas mesmo.

– Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, EUA, 1989)
Direção: Spike Lee
Elenco: Danny Aiello, Ossie Davis, Spike Lee, John Turturro
Duração: 120 minutos

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