Faces

01/09/2009 | Categoria: Críticas

Com influência de Antonioni, Cassavetes examina o fracasso de um casamento de classe média

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Em uma das cenas de “Faces” (EUA, 1968), o causticante retrato do casamento de classe média dirigido por John Cassavetes, quatro mulheres casadas, todas acima dos 30 anos, chegam à casa de uma delas acompanhadas por um rapaz bem mais jovem, que conheceram num bar. Está implícito que Chet (Seymour Cassel), homem loiro, bonito e musculoso, terminará a noite na cama de uma delas. O grupo dança, bebe e conta piadas, em um excitante jogo de sedução. Na hora da verdade, uma das mulheres questiona o motivo de o rapaz ter puxado conversa com elas no bar. “Percebi que vocês tinham amor para dar, mas não sabiam como”, responde ele.

A frase simboliza não apenas o cerne de “Faces”, mas toda a obra de Cassavetes. O diretor, pai do cinema independente americano e criador de uma estética despojada que influenciou dezenas de grandes cineastas dos anos 1970, jamais escondeu em entrevistas que o grande tema dos filmes que fazia era o amor. Seus personagens querem amar, mas não sabem lidar com esse amor. São impedidos pelas circunstâncias, pelos problemas do dia-a-dia, pela rotina do casamento, pelos sentimentos conflitantes de medo, inveja e paixão, pelos impulsos sexuais muitas vezes desastrados, pela incapacidade de verbalizar sentimentos. A fala de Chet é um momento importantíssimo para compreender o cinema de Cassavetes, embora esteja discretamente escondida no meio de um filme extremamente dialogado.

“Faces” faz parte do grupo de cinco títulos classificados, normalmente, como as obras-primas de Cassavetes. Além dele, integram o conjunto os excelentes “Sombras” (1959), “Uma Mulher sob Influência” (1974), “A Morte de um Bookmaker Chinês” (1976) e “Noite de Estréia” (1977), todos reunidos em um box de DVDs lançado pela Criterion Collection nos EUA. São filmes bem diferentes entre si, mas que vistos no contexto da obra do cineasta, de fato possuem um fio da meada único: a busca incessante pelo amor. Uma busca freqüentemente mal-sucedida, às vezes sabotada de forma inconsciente pelo próprio autor (da busca). Que fique claro: não estamos falando aqui do amor açucarado dos melodramas de Hollywood. Amor, para John Cassavetes, era um estado de paz de espírito, só alcançável quando a pessoa se cerca de gente que a compreenda, ainda que em um nível não-verbal.

Os personagens de “Faces” não estão neste estágio, mas o perseguem. O filme tem nítida influência européia, especialmente do trabalho desenvolvido por Michelangelo Antonioni em “A Noite” e “A Aventura”. O foco de John Cassavetes, porém, não é o movimento interior dos personagens. O diretor os mostra batendo cabeça pela vida, aplacando a falta de amor com álcool e sexo. O filme traça um retrato profundo e ambivalente da instituição do casamento. Embora pareça que Cassavetes está criticando ferozmente o casamento, o final – aberto, silencioso, emocionante e espetacular – abre todo tipo de possibilidades. Cada espectador, baseado nas suas próprias experiências, pode interpretá-lo de uma maneira diferente. E não é sensacional quando um filme abre espaço para que a experiência pessoal determine o destino dos personagens após os créditos cortarem a tela?

A abordagem de Cassavetes é 100% centrada nos atores. Tendo iniciado no cinema como ator, Cassavetes era adepto do improviso, mas desenvolveu um método peculiar para economizar tempo e dinheiro: passava semanas ensaiando exaustivamente cada cena, antes de rodar os filmes. Na locação, o improviso não existia mais. A ação de “Faces” se passa em uma única noite de bebedeira, e os personagens parecem perdidos entre gargalhadas histéricas, porres homéricos e discussões insuportáveis. As cenas são extremamente longas, algumas delas durando mais de 20 minutos, e era permitido que os atores usassem suas próprias palavras para conduzir o roteiro. A sensação, portanto, é de que estamos vendo a própria vida se desenrolando, e não um filme. Os personagens têm problemas, mas não os admitem e nem sabem verbalizá-los, o que termina por fazê-los agirem de modo desesperado, angustiado.

O registro da câmera, feito em película amadora de 16mm, é despojado e imperfeito (freqüentemente a iluminação está estourada, provocando flashes brilhantes de luz que cegam o espectador), mas procura sempre aquilo que está no título do filme: os rostos. O objetivo de Cassavetes era tentar desvendar, com esta técnica, os sentimentos obscuros, as hesitações e os impulsos por trás das palavras dos personagens. Como outros grandes cineastas, sendo o sueco Ingmar Bergman o maior deles, Cassavetes filmava o rosto humano como uma paisagem misteriosa e repleta de significados ocultos.O resultado de tudo isso é um filme pulsante e cheio de vida.

O DVD nacional leva o selo da Cinemax e é baseado na edição norte-americana da Criterion: imagem cristalina (widescreen 1.66:1 anamórfico), som decente (Dolby Digital 2.0), mas nenhum extra.

– Faces (EUA, 1968)
Direção: John Cassavetes
Elenco: John Marley, Gena Rowlands, Seymour Cassel, Lynn Carlin
Duração: 130 minutos

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