Factotum – Sem Destino

15/04/2007 | Categoria: Críticas

Filme traduz para o meio audiovisual o clima de ressaca dos livros de Charles Bukowski

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O independente “Factotum – Sem Destino” (EUA/Noruega, 2005) é baseado em contos e poemas do lendário escritor Charles Bukowski, o bêbado profissional mais festejado por rebeldes, com ou sem causa, de sensibilidade artística aguçada. Quem já leu Bukowski vai se identificar de imediato com a atmosfera triste e letárgica da obra de Bent Hamer. O diretor foi feliz em traduzir para o meio audiovisual o clima de ressaca dos livros de Bukowski. “Factotum” não é sobre a fauna que habita o submundo boêmio da noite; é sobre a manhã seguinte. Tem gosto de cabo de guarda chuva na boca, exatamente como a prosa produzida pelo escritor.

A rigor, a película não é uma tentativa de biografia do romancista maldito, mas sim uma colagem informal de contos, poemas e trechos do romance que leva o mesmo título do livro. Não é uma tarefa especialmente difícil, uma vez que o alter-ego literário de Bukowski sempre foi um só. Henry Chinaski (Matt Dillon) personifica a auto-imagem que o escritor sempre projetou sobre si mesmo: um vagabundo anestesiado, homem triste e solitário, que afoga as mágoas em grandes bebedeiras, se diverte em apostas de corridas de cavalos e faz sexo com qualquer ser que tenha duas pernas e faça xixi sentado.

Chinaski, é preciso que se diga, não reflete fielmente o homem que foi Bukowski. O melhor biógrafo do escritor de ascendência alemã, Howard Sounes, sustenta que o homem bebia, jogava e trepava muito menos do que fazia crer nos seus escritos. Mas ele seguia fielmente a tradição romântica da boêmia implacável como fonte de pureza artística, algo popular no Ocidente desde Baudelaire, Rimbaud e Lautreamónt, ou seja, a França do século XIX. Posto isso, é preciso que se diga: Bent Hamer não está interessado em biografar Bukowski, mas apenas em transportar para outra mídia a poesia desse marginal das letras que virou ídolo pop estampado na camiseta de Bono Vox (U2).

“Factotum” se sai razoavelmente bem na tarefa. É um filme de ritmo lento, contemplativo, silencioso, que narra uma fatia da vida fictícia do vagabundo Henry Chinaski. A vida do rapaz consiste, basicamente, em permanecer o mínimo possível em empregos de quinta categoria, apenas para poder voltar à fila do seguro-desemprego e gastar os cheques em garrafas de vinho barato, lápis e cadernos de anotações. Nesse meio termo, pausas apenas para visitas ao hipódromo e para conhecer mulheres sem rumo como ele. É o caso de Jan (Lily Taylor) e Laura (Marisa Tomei).

Leitores neófitos de Bukowski podem imaginar que o filme seja uma espécie de viagem lisérgica ao submundo da noite de Minneapolis, a cidade-natal de Chinaski. Estão terrivelmente errados. “Factotum” não celebra nem glamouriza a bebedeira; narra tudo com distanciamento formal, sintetizado na excelente tomada em que o protagonista fuma numa minúscula janela de um depósito de freios automotivos, enquanto a câmera se afasta progressivamente, revelando uma interminável parede inteiriça de tijolos vermelhos, com apenas aquele minúsculo buraco no meio.

A cena simboliza o isolamento de Bukowski, um homem que não pertenceu a nenhum movimento (há quem acredite que ele foi da geração beat, outro erro grosseiro) e nem estava particularmente interessado nisso. Seu jogo era solitário; o que lhe atraía na bebida era a experiência da embriaguez, não a fauna boêmia dos bares de segunda. Há provavelmente mais cenas dos personagens bebendo sozinhos em cozinhas e quartos empoeirados do que em bares. Bent Hamer fez a lição de casa direitinho.

Quem leu Bukowski vai reconhecer de imediato o clima funesto dos romances. De qualquer forma, o filme não captura inteiramente a experiência de ler a obra de Bukowski; sua proza funciona melhor em livro. Talvez isso ocorra porque a prosa dele tem um senso de humor depressivo, um tanto desolado, mas que funciona direitinho no papel. Na telona um pouco desse humor se perde, e o filme fica mais deprimente do que engraçado, apesar de retratar bem a ambientação.

Esse ambiente solitário ganha realce na cenografia e na iluminação, bem distantes do que se espera de um filme de Hollywood. As locações em geral são bares decrépitos e quartos de motel, e parece que faltou coragem de mostrá-las sujas como deveriam ser, mas mesmo dão para o gasto. Já a luz é fria, uma luz de fim de tarde, difusa, fraca e cheia de sombras. A combinação das duas coisas, junto com o silêncio geral (quando há música, quase sempre é ambiente) cria um clima melancólico que se adequa perfeitamente à narrativa.

O maior destaque de “Factotum” é a performance de Matt Dillon. O ator incorporou não apenas a figura física de Bukowski – a barba rala, os olhos fundos e injetados, as camisas de botão brancas e largas – mas também a postura corporal e o jeito de ser: o andar letárgico, o olhar sempre para baixo, a dificuldade de entabular uma conversa, quase sempre dando respostas curtas que tentam encerrar qualquer tentativa de diálogo. Mérito também para Hamer e Jim Stark, autores do roteiro.

Talvez a grande cena do filme, a cena que melhor explique Chinaski, seja aquela em que ele volta à casa dos pais quando fica sem dinheiro. Ele senta na mesa e come, diante do pai, que de cara amarrada resmunga: “Você não tem nenhum ímpeto, nenhuma ambição. Como vai conseguir sobreviver?”. Chinaski levanta os olhos tristemente para o pai, o fita por um segundo, e então baixa a vista e continua a comer. Não dá uma palavra. Nem precisa. Ele não tem resposta para aquela pergunta, nem sequer deseja respondê-la. O filme também não.

O DVD da Califórnia Filmes não tem extras. A qualidade da imagem é razoável (wide letterboxed) e o áudio é bom (Dolby Digital 5.1).

– Factotum – Sem Destino (EUA/Noruega, 2005)
Direção: Bent Hamer
Elenco: Matt Dillon, Lily Taylor, Marisa Tomei, Fisher Stevens
Duração: 93 minutos

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