Fahrenheit 11 de Setembro

16/11/2004 | Categoria: Críticas

Documentário polêmico aborda temas espinhosos, mas não é totalmente confiável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Fahrenheit 11 de Setembro” (Fahrenheit 9/11, EUA, 2004) não é um filme. Ou melhor, é muito mais do que um filme. É um evento, um show, um espetáculo polêmico que as pessoas antenadas – o público que acompanha o noticiário internacional, especialmente relativo à área de entretenimento – não vão querer perder. Por isso, a obra de Michael Moore não cabe na categoria de documentário, e não deve ser analisada segundo critérios que levem em conta apenas os méritos cinematográficos. “Fahrenheit 11 de Setembro” é uma peça antropológica complexa, cheia de facetas distintas, algumas boas, outras ruins.

De qualquer maneira, o espectador precisa ter em mente que o longa-metragem é apenas mais uma roda da engrenagem que move a indústria do show business. Por isso, de cerca forma, a maior de todas as ironias do trabalho de Moore é se alimentar do mesmo tipo de material que seus filmes críticam com tanta veemência. Vejamos: “Fahrenheit 11 de Setembro” começa mostrando o presidente dos EUA, George W. Bush, e vários assessores destacados se preparando para conceder entrevistas coletivas. Bush faz caretas, o vice Dick Cheney conta piada, o asqueroso subsecretário de Estado, Paul Wolfowitz, dá uma singela cusparada no pente antes de passá-lo pelos cabelos (eca!).

Da mesma forma, o filme termina mostrando as mesmas pessoas retirando as máscaras (literal ou figurativamente), os microfones, a maquiagem. A mensagem é direta: a política é um show de aparências, um espetáculo de mídia. As TVs não mostram a realidade, mas apenas uma representação superficial dela. A idéia de Moore soa perfeita. O problema é que o diretor usa exatamente a mesma técnica no seu documentário. Em determinado momento, por exemplo, ele aluga um carro de som e passeia em frente ao Capitólio (a sede do Congresso dos EUA, em Washington), lendo ao microfone o chamado Decreto Patriótico, que restringiu as liberdades individuais dos cidadãos norte-americanos.

Um minuto antes, um deputado (infelizmente não identificado pelo filme) dá um depoimento estarrecedor: eles não lêem os decretos que aprovam. Exatamente como acontece num certo país da América Latina em que o povo fala português. Michael Moore, então, desperdiça a força do depoimento encenando uma piada que pode até dar agilidade ao documentário, e provocar boas gargalhadas na platéia (sim, eu também ri), mas esvazia a contundência e a seriedade da revelação que acaba de ser feita. Ou seja, a ironia e a manipulação de informações transformam “Fahrenheit 11 de Setembro” em um segundo show de aparência, que denuncia o primeiro.

Esse é apenas um exemplo do problema básico. O filme, como de resto todo o trabalho de Michael Moore, simplesmente não é confiável. Não se sabe quais são as fontes de informação com que o cineasta trabalha. Várias pessoas dão entrevistas bombásticas e não são creditadas na tela. A origem de muitas imagens fica sem explicação. Como podemos confiar nas palavras de alguém que não sabemos quem é? Como acreditar em imagens cuja origem não é revelada? Moore parece confiar na própria reputação como garantia de confiabilidade no que está sendo mostrado. “Se tem meu nome por trás, as pessoas vão acreditar”, deve pensar. Nada é assim tão simples e rasteiro. “Fahrenheit 11 de Setembro” mostra o outro lado da realidade maquiada que denuncia, mas não vai muito longe de ser apenas outra versão, também maquiada, da mesma realidade.

Isso não significa, de forma alguma, que a platéia seja obrigada a discordar das mensagens de Michael Moore. No meu caso, endosso o ponto de vista dele integralmente (ou seja, acho George W. Bush um idiota narcisista, eleito de forma irregular, que afundou o país mais rico do mundo em dívidas e guerras inúteis por causa de uma mistura de arrogância e cobiça). Mas não acredito que o documentarista tenha conduzido seu filme com a integridade moral necessária para transformá-lo em peça de denúncia política. Concordar com as idéias de Michael Moore não significa concordar com o filme que ele fez. “Fahrenheit 11 de Setembro” é uma peça de entretenimento, um evento do show business.

Isso posto, vale dizer que o longa-metragem é dinâmico, bem editado, inteligente e aborda uma vasta gama de informações sobre o modo de vida dos EUA. “Fahrenheit 11 de Setembro” tem uma clara divisão em duas partes. A primeira, mais ágil e irônica, aborda a eleição de Bush e as reações imediatas ao atentado de 11 de setembro. A segunda, mais lenta e reflexiva, aborda a invasão do Iraque, mesclando cenas registradas no país do Oriente Médio e a repercussão da campanha militar dentro dos EUA. A primeira parte faz rir; a segunda emociona. Nas cenas passadas no Iraque está a denúncia mais virulenta do filme: a estupidez de uma guerra travada por razões econômicas, que mantém o povo do país atingido sob uma tirania igual ou maior à que existia nos tempos de Saddam Hussein.

Como uma metralhadora verbal, Michael Moore passa voando por vários assuntos que mereceriam um foco mais atento: o comportamento covarde e tendencioso da Imprensa nos Estados Unidos pós-11 de setembro; a falta de preparação psicológica dos soldados enviados aos montes para a guerra; a falta de compromisso dos congressistas diante da realidade de medo vivida pela nação americana. Ouvir uma voz se levantando dentro dos Estados Unidos para denunciar esse tipo de coisa é alentador. Talvez seja por isso que um sujeito como Michael Moore precisa mesmo, apesar dos defeitos, ser admirado.

Em DVD, o filme aparece sem muitos extras; apenas uma biografia de Michael Moore (em texto) e um segmento longo, explicando o processo de produção do documentário (também em texto, formato bastante cansativo para a tela de cinema).

– Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11, EUA, 2004)
Direção: Michael Moore
Documentário
Duração: 116 minutos

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