Falcão Maltês, O

10/04/2004 | Categoria: Críticas

Debochado e sórdido, filme de estréia de John Houston é um marco na história de Hollywood

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“O Falcão Maltês” (The Maltese Falcon, EUA, 1941) tem a honra de ser, segundo historiadores, o primeiro film noir da história do cinema. Esse mero detalhe, sozinho, poderia lhe garantir uma menção honrosa em qualquer lista dos melhores filmes do século XX. Mas é preciso ir além: as gloriosas carreiras de dois grandes ícones de Hollywood, o astro Bogart e o diretor John Huston, estão diretamente conectadas a esse filme. Ou seja, esse vigoroso enredo policial ultrapassa o status de grande filme para adquirir o rótulo de lenda do cinema. Nada mais, nada menos do que isso.

Escrever sobre um filme dessa magnitude é um exercício de pouca sabedoria, mas tudo bem – Sam Spade, o protagonista de “O Falcão Maltês”, também não parece ser o sujeito mais sábio do mundo. Mas é um grande detetive, um dos melhores. Spade é observador e experiente, e bastam duas ou três cenas para que isso fique evidente ao público, sem que seja preciso fugir da trama. Bogart, em grande forma, definiu sua persona cinematográfica, imortalizada em “Casablanca”, com esse personagem: cínico, durão, com um cigarro no canto da boca, impondo respeito com a simples presença.

Visto nos dias de hoje, “O Falcão Maltês” causa espanto pela ambigüidade dos personagens principais. De certa forma, isso aconteceu também em 1941, quando ele precisou passar por diversas mudanças devido à censura da época. Ocorre que John Huston, estreando na direção, sempre batia o pé quando os censores implicavam com alguma cena. Ele voltava ao set de filmagem e bolava uma maneira de fazer a seqüência de maneira ambígua e obscura, o que favorece demais o filme, dando-lhe o clima de “nada é o que parece ser” que o enredo pede.

Pegue um exemplo clássico: a cena em que Spade encontra o almofadinha Joel Cairo (Peter Lorre, de “M – O Vampiro de Dusseldorf”, em caracterização genial) remexendo em suas coisas. Durante o diálogo que se segue, Spade se vê pegando o lenço de Cairo e sentindo o cheiro de perfume. Ato contínuo, acerta-lhe uma bofetada, aparentemente sem motivo. Seria preciso estar em 1941 para compreender imediatamente o significado de um lenço perfumado no bolso de um homem; seria como encontrar vaselina na calça de um cara, hoje em dia. E o que você acha da reação politicamente incorreta de Spade, um detetive machão e ouço confiável, capaz de chantagear uma cliente e beijar na boca a viúva do sócio, morto a tiros poucas horas antes?

“O Falcão Maltês” é ousado com poucos filmes. Nesse ponto, segue fielmente o texto áspero de Dashiell Hammett. No noir, os detetives são violentos e de caráter duvidoso, tanto quanto as mulheres são perigosas e fatais – Bridget O’Shaugnessy (Mary Astor) é a representante clássica desse gênero. A ambientação do longa-metragem completa o cenário com excelência, emprestando elementos do expressionismo alemão (os fortes contrastes das cenas interiores, mais de 90% do filme) e utilizando uma linguagem repleta de gírias, o que acentua o caráter vulgar dos personagens.

Talvez por ter sido produzido simultaneamente a “Cidadão Kane”, o filme de John Huston precisou ser admirado e elogiado na França – onde a expressão film noir finalmente deu nome ao novo gênero – para poder ficar famoso dos Estados Unidos. Ele abriu as portas todo um novo espectro de filmes, mais realistas e menos fantasiosos do que os musicais e romances açucarados dos anos 1930. No film noir, as entrelinhas tinham espaço para comentários sociais. O cinema que Hollywood viria a produzir nas três décadas seguintes deve muito a “O Falcão Maltês”. E isso não é pouco.

Como última observação, é bom lembrar que o filme também é conhecido, no Brasil, como “Relíquia Macabra” – o que, claro, tem a ver com o falcão do título original. O objeto, uma jóia espanhola do século XV, é alvo da cobiça de todos os personagens, mas pouco aparece; trata-se de uma os melhores exemplos do que Hitchcock chamava de McGuffin, ou seja, é um objeto que move a ação do filme adiante, porque tem importância para os personagens, mas pouco (ou nada) interessa à platéia. Mais ou menos como a pasta preta com o estranho brilho dourado que Samuel L. Jackson carrega com cuidado em “Pulp Fiction”. Ah, você não lembra dela? Está vendo como não era importante (para você)?

– O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, EUA, 1941)
Direção: John Huston
Elenco: Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Sidney Greenstreet
Duração: 100 minutos

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