Fale Com Ela

07/01/2004 | Categoria: Críticas

Pedro Almodóvar supera espectativas e cria história de amizade entre dois homens, enquanto reflete sobre solidão, sexo e morte

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A abertura lírica e silenciosa de “Fale Com Ela” (Hable Con Ella, Espanha, 2002) revela bastante sobre as duas horas que virão a seguir. Trata-se de uma apresentação do espetáculo “Café Müller”, da coreógrafa alemã Pina Bausch. A câmera focaliza dois homens que estão sentados lado a lado, na platéia. Eles não se conhecem. Benigno (Javier Cámara), mais contido, percebe quando Marco (Dario Grandinetti) começa a chorar, emocionado. A cena o impressiona. Findo o espetáculo, cada um segue sua vida, sem saber que tornarão a se cruzar, meses mais tarde. A relação emocionada da platéia diante da obra de arte emula a sensação do espectador após a projeção de “Fale Com Ela”: é impossível sair imune do filme de Pedro Almodóvar.

O primeiro trabalho do cineasta após o Oscar, obtido com “Tudo Sobre Minha Mãe”, confirma um dado essencial a respeito da cinematografia do espanhol: ele se junta definitivamente a uma nata de diretores de cinema contemporâneos que, à moda de gênios cada vez mais raros (pense em Hitchcock, Kubrick, Antonioni ou Fellini) e capazes de construir um estilo pessoal, único e singular. Esses são verdadeiros autores; gente como Woody Allen, Robert Altman e David Lynch, diretores que conseguem erguer todo um universo particular, onde os filmes funcionam como janelas. Almodóvar chama esse mundo privado de “naturalismo do absurdo”. É uma boa auto-definição.

Claro, não se trata exatamente do mesmo Almodóvar de “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”. O diretor amadureceu, não exibe mais aquela euforia histérica dos trabalhos anteriores. Ainda resvala de leve numa estética kitsch, mas já não mergulha nela de cabeça. “Fale Com Ela” trafega, de forma refinada, na temática da condição humana: a solidão (o traço que, Almodóvar insiste, liga todos os personagens do filme), a loucura, o amor, o sexo, a morte. O filme permite diversas leituras diferentes, sempre amparadas num tom de registro que passeia entre o melancólico e o trágico, ainda que usando uma leve ironia para amplificar e ecoar essas sensações.

“Fale Com Ela” poderia ser descrito como uma tragédia, mas não no sentido clássico, em que um herói é derrotado do final. Não há heróis aqui – e nem final. A narrativa foge da ordem cronológica convencional e passeia, envolvente, entre passado, presente e futuro, de forma fluida e imperceptível. A amizade entre Benigno e Marco nasce quando eles se encontram novamente, numa clínica em Madri. O primeiro é enfermeiro que dedica 24 horas por dia a uma paciente, a bailarina Alicia (Leonor Watling). O segundo acompanha a namorada, a toureira Lydia (Rosario Flores), depois que ela sofre um ferimento grave, ao ser atingida por um touro.

Almodóvar conduz o espetáculo com domínio absoluto sobre cada elemento cênico: música (há inúmeros pequenos videoclipes dentro do filme, inclusive um cantado por Caetano Veloso em pessoa e outro, belíssimo, sobre a voz de Elis Regina), fotografia, montagem e sobretudo roteiro agregam elementos a uma tragédia que leva, ao final, a uma reflexão profunda sobre condutas morais. A dupla de protagonistas desmente um velho preconceito, segundo o qual Almodóvar não consegue escrever bons personagens masculinos. Benigno e Marco são, cada um a seu modo, homens profundamente solitários. A amizade que nasce entre eles – tematizada de forma tocando num belo diálogo próximo ao final, entrecortado por lágrimas de parte a parte – é emocional e emocionante. E os atores (a ingenuidade desconcertante de Javier Cámara, os olhar vazio de Dario Grandinetti) nunca são menos do que espetaculares.

Outro destaque do filme está num curta metragem de sete minutos, “Amante Minguante”. O filminho é apresentado como uma espécie de interlúdio, representante do cinema espanhol mudo da década de 1920, mas foi escrito pelo próprio Almodóvar, com visual roubado de filmes como “O Incrível Homem Que Encolheu”. A narrativa surreal, como que saída de um conto de Charles Bukowski, funciona como metáfora inteligente que disfarça um acontecimento do enredo principal. Este é o momento mais lindo de “Fale Com Ela”, quando Almodóvar refina a técnica de narrar uma história de forma mais envolvente. Sem quebrar o ritmo e desinteressar o público, ele usa o pequeno filme mudo como metáfora de um ato de violência indescritível, narrado de forma esteticamente bela.

Esse é apenas um exemplo das muitas peças que Almodóvar prega no espectador. Pouco mais tarde, quando percebe exatamente o que ocorreu longe de seus olhos, o público é confrontado com um tremendo problema moral. A essa altura, quando a história muda de rumo e transforma um dos personagens de anjo em demônio, todos já estão fisgados pela doçura do sujeito. E agora, como justificar tamanha aberração? Não importa que resposta você tente balbuciar, “Fale Com Ela” continuará marcado como um dos mais belos filmes dos últimos anos.

Quem alugar ou comprar o DVD nacional ainda terá algumas surpresas a mais: dois documentários interessantes sobre os bastidores das filmagens, o curta metragem “Amante Minguante” exibido à parte e até um making of sobre a produção desse filmete,além de entrevistas com todos os envolvidos. A Fox, contudo, não legendou o material (mas, se você compreende espanhol, isso não será problema).

– Fale Com Ela (Habla Com Ella, Espanha, 2002)
Direção:Pedro Almodóvar
Elenco: Dario Grandinetti, Javier Câmara, Leonor Watling, Rosário Flores
Duração: 116 minutos

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