Falsa Loura

13/01/2009 | Categoria: Críticas

Linda e talentosa, Rosanne Mulholland ilumina o contundente retrato da contradição de classes no Brasil assinado por Carlos Reichenbach

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Os primeiros 10 minutos de “Falsa Loura” (Brasil, 2008) nos apresentam a uma mulher linda e oca. Dona de um corpo milimetricamente perfeito, Silmara (Rosanne Mulholland) tem total consciência do terremoto que provoca ao desfilar diante de homens e mulheres. Por causa desse corpaço, ela age de forma arrogante e antipática com as colegas da fábrica onde trabalha, como operária. Só usa vestidos curtos, blusas transparentes, calças coladas. Fala alto, gesticula muito, tem comportamento extravagante. A palavra “prostituta” já começa a rondar na boca de vizinhos e amigos, desconfiados de que ela esteja fazendo programa para subir na vida. Para o espectador, uma questão paira no ar: como o cineasta Carlos Reichenbach vai conseguir manter a platéia interessada em acompanhar, durante 103 minutos, a vida de uma pessoa tão insuportável, tão intragável, tão fútil?

Acontece que é tudo máscara. Assim que Silmara entra em casa, onde vive com o pai (João Bourbonnais), um ex-presidiário desempregado que tem o rosto deformado, aprendemos que ela tem outro lado, bem mais agradável. Ela é uma menina doce, responsável, carinhosa, que venera um popular cantor romântico (Maurício Mattar) e usa a máscara de “vagabunda” como proteção contra um ambiente hostil. Em resumo, uma jovem suburbana normal, que alimenta sonhos de ascendência social, baseando-se no único atributo que reconhecidamente possui: o corpo, algo que – ela faz questão de avisar – não está à venda. A personagem bem construída e multifacetada, favorecida pela luminosa interpretação da atriz brasiliense Rosanne Mulholland, é a peça de resistência do décimo-quinto filme do veterano Reichenbach.

“Falsa Loura” funciona em duas camadas: como excelente estudo de personagem e como documento contundente da complexa e conflituosa relação de classes no Brasil contemporâneo – uma relação marcada por preconceitos velados e atitudes assistencialistas. É só prestar atenção em como agem os integrantes da elite econômica, durante os raros contatos que Silmara trava com elas. São educados e atenciosos, mas não parecem perceber que por baixo da atitude arrogante existe um coração, uma pessoa de carne e osso, que demanda atenção e afeto como qualquer um. De fato, são poucos os longas-metragens contemporâneos que conseguem estabelecer tão bem – e de forma absolutamente crítica – as contradições desta relação de classes. “Falsa Loura” é, sem dúvida, um filme político, mas passa sua mensagem sem engajamento ou panfletarismo, duas pragas que sempre bateram ponto em produções nacionais de teor político.

Veterano formado na Boca do Lixo, Reichenbach sabe que o cinema político mais eficiente não é aquele que grita, mas o que sussurra, inserindo sua reflexão dentro de um enredo sólido e centrado em personagens consistentes. “Falsa Loura” faz parte de um conjunto de seis roteiros que o diretor rascunhou, todos centrados em garotas da periferia. Uma das muitas virtudes do filme é que a visão de Reichenbach sobre o subúrbio não é fatalista, espantada ou curiosa. O diretor não olha para a classe C de cima para baixo, como se espiasse um zoológico humano. Seu olhar é espontâneo, natural, despido de preconceitos. Revela interesse genuíno pelo elemento humano que existe nos moradores humildes. Esta visão contamina, positivamente, o trabalho de direção de arte e fotografia. As locações (a casa, a fábrica, a boate) não parecem ter sido construídas em estúdio, algo tão comum nesse tipo de filme. Aqueles lugares parecem ter estado ali desde sempre, as paredes gastas, cheias de poeira e fuligem.

Reichenbach mostra desenvoltura na concepção de toda a galeria de personagens importantes. Há pelo menos uma dúzia deles, e todos possuem tridimensionalidade real, incluindo o jovem cantor de rock (Cauã Reymond) e o ídolo popular (Mattar), dois dos homens com quem Silmara se envolve. No geral, aliás, as atuações parecem bem eficientes, embora talvez meio desleixadas em alguns momentos, em que os atores interpretam meio tom acima do padrão naturalista estabelecido pelas produções brasileiras contemporâneas de mesmo pedigree, caso de “Antônia” (tanto o longa quanto a série de TV) e da comédia carioca “Bendito Fruto”.

O bom roteiro também consegue dar conta, com inteligência, das contradições, desejos, ambições, sonhos e carências da protagonista, elemento enfatizado pelo figurino (botas, roupas, cabelos, etc.). Neste item em particular, Reichenbach ganha a colaboração preciosa de Rosanne Mulholland, absolutamente perfeita no papel. A atuação magnética da brasiliense, cheia de garra e paixão, não deixa pistas de sua origem (ela é oriunda da elite de Brasília e filha de ex-reitor da UnB) e arrasa os corações dos homens na platéia. A cena de nudez perto do final, ousada e nada gratuita, passa longe da vulgaridade que se poderia esperar de um filme tecido por cineasta da velha Boca do Lixo. Esta cena culmina com um breve diálogo de humor sutil, emoldurado por uma tela completamente às escuras – se o filme quisesse se aproveitar do corpo prefeito de Silmara, como fazem os homens que chegam perto dela, seria fácil manter a luz acesa.

A direção de Reichenbach, clássica, chama a atenção pela discrição e pela economia. As tomadas são longas, e o cineasta nunca abusa de recursos narrativos como closes e movimentos de câmera sofisticados para sublinhar o tom emocional de certos momentos. Ele narra tudo com calma, sem pressa. Há quantidade generosa de trechos musicais (o sonho de Silmara com o ídolo romântico, caminhando sobre um mar de tecido e papel celofane, parece roubado de um filme de Fellini, talvez “Noites de Cabíria” ou “Amarcord”) e influência evidente do mestre Valerio Zurlini, tanto na estética quanto na temática – de certa forma, não seria absurdo ver “Falsa Loura” como uma variação contemporânea e tupiniquim da obra-prima “A Moça com a Valise” (1961). A seqüência em que Silmara e o ídolo romântico dançam de rosto colado, à beira da piscina, é uma óbvia referência ao clássico italiano. Além disso, o filme brasileiro projeta a mesma sensação de melancolia, de tristeza contida e silenciosa, eternizada pela linda tomada que encerra a projeção, com um dos raros closes da protagonista. Ela sofre com a piada cósmica que fez os piores temores a respeito dela virarem realidade, sem que se desse conta disso. Belo filme.

O DVD nacional leva o selo da Imovision. O formato de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) foi respeitado, e o áudio (Dolby Digital 5.1) tem seis canais.

– Falsa Loura (Brasil, 2008)
Direção: Carlos Reichenbach
Elenco: Rosanne Mulholland, Djin Sganzerla, João Bourbonnais, Cauã Reymond
Duração: 103 minutos

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