Família Rodante

16/01/2008 | Categoria: Críticas

Drama cômico de Pablo Trapero faz sensível e honesto retrato da paisagem humana no interior da Argentina

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O paralelo é inevitável. Assim como o filme-sensação de 2006, “Pequena Miss Sunshine”, este terceiro trabalho do cineasta argentino Pablo Trapero narra uma viagem de carro que corta o país inteiro. O protagonista não é um indivíduo, mas um grupo – uma família disfuncional. Como sua contraparte norte-americana, “Família Rodante” (Argentina/Brasil/França/Alemanha, 2004) é um road movie de tom bem-humorado e levemente agridoce. Apesar de tantas coincidências, porém, os dois não poderiam ser títulos mais diferentes, já que carregam de forma indelével as características narrativas fundamentais das respectivas escolas de cinema a que pertencem.

Enquanto a produção dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris utiliza a fórmula narrativa clássica do cinema independente dos EUA, para reembalar em registro levemente crítico a idéia do sonho americano, “Família Rodante” prefere soltar a câmera entre os doze personagens-viajantes, tecendo ao mesmo tempo uma bela crônica social do interior rural da Argentina. O pequeno drama cômico de Pablo Trapero soa sensível, honesto, e estabelece um olhar atento e cheio de empatia para os dramas pessoais de cada uma das pessoas que estão na estrada – gente comum, com as mesmas angústias e desejos de cada um de nós, espectadores.

A personagem central – uma senhora de 84 anos, avó do diretor na vida real – funciona como uma espécie de McGuffin. Ela aglutina os personagens da história no tempo e no espaço, mas funciona na narrativa como uma observadora, sem participar dos eventos diretamente. A mulher recebe um telefonema durante a festa de aniversário, convidando-a para ser madrinha do casamento de uma sobrinha que nunca conheceu. A euforia pela família reunida é contagiante, e a senhora logo consegue convencer todo mundo a acompanhá-la numa viagem até a fronteira tríplice entre Argentina, Paraguai e Brasil. Como em todo road movie, a viagem é mero pretexto para um período forçado de convivência que servirá para estimular o auto-conhecimento de cada personagem.

Entre as muitas subtramas, que se entrelaçam de maneira espontânea e orgânica, duas ganham mais espaço – e ambas envolvem triângulos amorosos inusitados. A primeira reúne o núcleo jovem do elenco em torno dos desencontros românticos de dois primos e uma amiga, abordando o velho tema da passagem para a vida adulta. A outra mostra o despertar da velha paixão do cunhado pela irmã com quem ele não casou. Demonstrando segurança, Trapero resolve muito bem as duas histórias, de forma natural e espontânea, sem forçar a barra ou tentar dar lição de moral em ninguém.

O ótimo roteiro faz questão de deixar pontas soltas, dando ao todo uma qualidade não-concludente, como se todos aqueles dramas pessoais (o casamento caótico da filha rebelde, a mulher que se sente prisioneira de um casamento falido) não se encerrassem ao fim da jornada. Além das qualidades óbvias de narrador, Trapero demonstra também talento para filmar os atores, criando uma espécie de rico contraste entre a paisagem humana (a família “rodante” do título) e a paisagem natural (a crônica despretensiosa do interior argentino).

De certa forma, “Família Rodante” atira mais lenha na fogueira de um clichê que vem se repetindo desde meados dos anos 1990. Este clichê afirma que o cinema brasileiro contemporâneo carece da alma, do olhar delicado, do senso de universalidade que existe de sobra nos filmes argentinos do mesmo período. “Família Rodante” consegue a proeza de ao mesmo tempo confirmar o clichê (porque é verdade, sim, que a maioria dos nossos longas não atinge o mesmo nível de delicadeza no trato com os personagens) e negá-lo (pois há felizes exceções no cinema nacional, como é o caso do pernambucano “Cinema, Aspirinas e Urubus”, outro road movie regional que ganha um contorno universal ao tematizar a amizade). Muito bom.

O DVD da Imagem Filmes não contém extras, e a qualidade da imagem (widescreen 1.66:1 letterboxed) e do áudio (Dolby Digital 2.0) é apenas razoável.

– Família Rodante (Argentina/Brasil/França/Alemanha, 2004)
Direção: Pablo Trapero
Elenco: Liliana Capurro, Graciana Chironi, Ruth Dobel, Federico Esquerro
Duração: 103 minutos

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