Família Savage, A

19/11/2008 | Categoria: Críticas

Bom desempenho geral do elenco e diálogos acima da média superam o esquematismo de velhos clichês de filmes independentes sobre famílias disfuncionais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Parece até planejado. Todos os anos, desde o começo da década de 1990, pelo menos um filme independente fura o cerco das grandes produções vinculadas aos milionários estúdios de Hollywood e abre espaço no imaginário do grande público. Títulos que se beneficiaram desta regra tácita nos EUA são de qualidade variável e incluem “Pulp Fiction” (1994) e “Pequena Miss Sunshine” (2006). O drama cômico “A Família Savage” (The Savages, EUA, 2007) tem o perfil exato desse tipo de obra: passou no Festival de Sundance, tem atores famosos no elenco e até ganhou lugar na cerimônia do Oscar do ano seguinte, com duas indicações. Acabou, contudo, eclipsado pelo fenômeno “Juno” (2007).

De certa forma, que a platéia (e os críticos) tenha elegido o segundo como darling, e não a estréia cinematográfica da roteirista e diretora Tamara Jenkins, acaba funcionando como testemunho do estado das coisas nos nossos tempos. Porque o esperto “Juno” tematiza a sensibilidade adolescente do século XXI, enquanto um dos temas principais de “A Família Savage” é o abandono e a solidão na velhice – e todos sabemos que filmes para jovens são bem mais vendáveis do que filmes para adultos. O longa-metragem de Jenkins tem personagens sólidos e bem delineados, uma dupla de atores maravilhosa e conta com diálogos maduros como ponto forte. Peca, contudo, por certo esquematismo, tanto estético quanto narrativo, que visa carimbar a obra com o pedigree de Sundance, mas acaba soando mecânico, sem o viço de originalidade que a temática original poderia lhe conferir, se a narrativa fosse mais livre, mais aberta, mais despojada.

A abertura de “A Família Savage” é um bom exemplo deste problema. Numa série de imagens justapostas com agilidade e humor, Tamara Jenkins apresenta o cenário em que a história vai se desenvolver. A ação começa numa pequena e ensolarada cidadezinha no interior do Arizona (EUA). O céu, azul e límpido, parece ter sido esfregado com água sanitária. Não há um único automóvel nas ruas. Velhinhos boa-praça trafegam pelas ruas brilhantes em carrinhos de golfe adaptados. Suas esposas de cabelos brancos fazem uma coreografia engraçada em torno de sebes cuidadosamente aparadas. Cactos com formatos fofos adornam as casas de classe média alta, tudo ao som daquelas canções de caixinhas de música dos anos 1950. Se Amelie Poulain morasse nos EUA e tivesse mais de 60 anos, certamente estaria morando ali por perto.

A família do título é formada por três pessoas. Lenny (Philip Bosco), o patriarca, mora no paraíso dos velhinhos. A morte de sua namorada octogenária, porém, o deixa no olho da rua. Ele começa a sofrer de demência e, claro, não tem condições de morar sozinho. A contragosto, entram em cena os filhos adultos dele, Wendy (Laura Linney) e Jon (Philip Seymour Hoffman), afastados do pai há anos. Ela sonha em escrever peças, e tenta há oito anos conseguir uma bolsa para se dedicar à tarefa, sem sucesso. Ele ensina drama, tem doutorado em Brecht e está terminando um namoro de três anos com uma garota polonesa (“o visto dela expirou”). Os dois mal se falam. Eles carregam cicatrizes emocionais devido aos maus tratos a que foram submetidos pelo patriarca na infância. Mas pais senis são responsabilidade dos filhos, e eles não podem fugir disso.

A convivência obrigatória com Lenny, claro, é mero pretexto do roteiro para que os dois personagens principais sejam obrigados a efetuar uma incômoda auto-avaliação pessoal. Famílias disfuncionais andam em moda há anos no meio audiovisual norte-americano, e não apenas no cinema (as impressões digitais de “Beleza Americana”, “Magnólia” e, mais recentemente, “Retrato de Família” e “A Lula e a Baleia” são evidentes). Em paralelo, porém, Tamara Jenkins ganha pontos por abordar temas bem mais raros e difíceis, como a perda de afeta nas relações humanas contemporâneas e, sobretudo, as doenças da velhice – e o faz com perspicácia, mas sem perder a dignidade, como se vê na melhor cena do filme, o diálogo duro travado pelos irmãos no estacionamento de um asilo (“as paisagens lindas desse lugar não fazem bem aos velhos, apenas amenizam a culpa dos filhos que largam os pais aqui”). Nesse ponto, a obra se coloca apenas um degrau abaixo do excelente “Longe Dela” (2007), estréia da atriz canadense Sarah Polley na direção.

Do ponto de vista da técnica, “A Família Savage” é impecável. O filme inteiramente narrado do ponto de vista de Wendy, e não trapaceia este postulado nem por um minuto. Cada cena é cuidadosamente planejada para levar à próxima, e o faz com economia e inteligência, apesar de a estrutura ranger sob o peso de velhos clichês (ela toma quilos de antidepressivos e faz ginástica na frente da TV, ele chora no café da manhã) – sente-se falta do toque de rebeldia, ousadia e imprevisibilidade que povoava os grandes dramas feitos pela geração New Hollywood, nos anos 1970 (“Cada um Vive Como Quer”, “Alice Não Mora Mais Aqui”). A narrativa parece certinha demais, previsível demais. O enredo segue passos já pisados antes, tornando-se mais sombrio no segundo ato e terminando em tom levemente melancólico, mas de indisfarçável esperança e otimismo.

O grande mérito de “A Família Savage” está no fabuloso elenco. O par central, veterano de produções do gênero, brilha de maneira uniforme. Ambos estão naturais, completamente à vontade nos respectivos papéis (Hoffman merece um elogio extra por ter oferecido, no mesmo ano, pelo menos dois outros papéis do mesmo calibre, e em filmes bem diferentes: “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” e “Jogos de Poder”). Philip Bosco, que interpreta o pai, também está ótimo. Para completar, vale destacar a belíssima cena final, com Linney e um animal de estimação, em que Tamara Jenkins dá uma demonstração de sutileza narrativa que, se aplicada à história como um todo, poderia ter rendido uma obra-prima irretocável. É uma cena, claro, que exige interpretação por parte do leitor/espectador. Uma dica: que tal tentar uma leitura do destino do animal como trama paralela que ecoa, sem explicitar, a final da jornada pessoal de Wendy?

O DVD nacional da Fox é simples e não contém extras. A qualidade da imagem (widescreen anamórfica) e do áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– A Família Savage (The Savages, EUA, 2007)
Direção: Tamara Jenkins
Elenco: Laura Linney, Philip Seymour Hoffman, Philip Bosco, Peter Friedman
Duração: 114 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »