Fantasma do Futuro, O

09/06/2004 | Categoria: Críticas

Obra-prima da animação japonesa apresenta o homem de futuro e disute questões éticas que se abaterão sobre ele

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Muita gente cética continua troçando daqueles que acreditam que “Matrix”, o filme de 1999, tem inteligência suficiente para colocar em debate questões filosóficas importantes. Seria interessante ver o que essas pessoas pensariam ao assistir “O Fantasma do Futuro” (Ghost In The Shell, Japão, 1996), uma das melhores animações japonesas de todos os tempos. O filme leva algumas perguntas levantadas pelos irmãos Wachowski a um patamar ainda mais elevado: qual a verdadeira natureza da consciência? O que, exatamente, nos define como humanos? O que é a memória?

O enredo de “O Fantasma do Futuro” parece uma mera ficção científica banal, repleto de cenas de ação, mas vai muito além disso. O filme se passa no ano 2029, em um futuro onde a tecnologia progrediu de forma tão espantosa que homens e robôs não são mais distinguíveis a olho nu. A única diferença entre máquinas e homens é a presença do espírito. A tecnológica da época, na previsão de “O Fantasma do Futuro”, já seria capaz de isolar a alma humana em um compartimento eletrônico; essa alma poderia fazer de um corpo metálico um humano.

O espectador acompanha as investigações de um esquadrão secreto da polícia japonesa em busca de um terrorista cibernético, conhecido como Mestre dos Fantoches. O tal sujeito é um hacker poderoso, capaz de invadir qualquer rede e desaparecer pelos meandros da Internet sem deixar rastros.

A líder do grupo não é uma humana comum. Trata-se da major Motoko Kusanagi, um ciborque num corpo curiosamente assexuado, mas de formas femininas. A militar abre o longa-metragem executando um sensacional assassinato seletivo para a organização, saltando do alto de um prédio e, em queda livre e de cabeça para baixo, dando um tiro certeio na vítima.

À medida que a ação progride, porém, o espectador percebe que o foco do trabalho não é tanto a aventura, mas a ação interior da major. Motoko sofre com dúvidas. Ela não possui um centímetro sequer de carne ou osso, mas possui espírito. O que a define como humana é a alma, acondicionada dentro de uma parte blindada de cérebro. Esse detalhe gera longas discussões da major com seus subordinados, na maioria humanos turbinados com membros de aço.

O péssimo título brasileiro esconde a profundidade filosófica da polêmica levantada pelo filme. Literalmente, “Ghost In The Shell” significaria “Alma na Carcaça”. É a presença desse espírito que marca a diferença entre ciborgues e humanos, na sociedade internacional de 2029. Já não há mais diferenças entre seres humanos e artificiais; humanos reforçados com próteses são muito comuns, tanto quanto seres 100% mecânicos. Mas a natureza humana, segundo a legislação internacional, só é reconhecida para aqueles seres que carregam um espírito humano dentro do super-corpo tecnológico.

Motoko não concorda muito com esse raciocínio. Ela questiona o que a diferencia dos robôs, que pensam, sentem e agem como ela. Verborrágico e provocador, “O Fantasma do Futuro” não busca respostas a essas perguntas; o que interessa ao cineasta Mamoru Oshii é o questionamento, a reflexão sobre essas questões. Por isso, a investigação da major Motoko sobre o Mestre dos Fantoches vai levá-la a um ponto em que as perguntas se tornam não só uma fantasia de luxo de uma ciborgue, mas uma questão que exige a reflexão de toda a espécie humana.

Não se pode esquecer que os especialistas em Inteligência Artificial prevêem, para o século XXI, um cenário muito parecido com o descrito pelo filme. Dessa forma, a dualidade ciência X natureza assume uma forma diferente e original, dentro da trama da animação. O cineasta Mamoru Oshii antecipa uma discussão que deve mesmo, em algum momento futuro, sacudir a comunidade internacional. Steven Spielberg tentou fazer algo parecido em “A.I. – Inteligência Artificial”, mas perto de “O Fantasma do Futuro” seu filme parece brincadeira de jardim de infância. Nos seus 82 minutos, a produção japonesa convida o espectador a uma reflexão fascinante sobre as implicações filosóficas que o domínio total da engenharia genética vai trazer ao homem do futuro.

O impacto dessa animação sobre o ramo da cultura pop que investiga as fronteiras entre arte, corpo humano e tecnologia continua a ser enorme. O espectador atento vai notar, por exemplo, o quanto os irmãos Wachowski beberam do filme antes de construir a trilogia de Neo. É possível apontar um número enorme de seqüências copiadas pelos norte-americanos: os créditos de abertura com números verdes se embaralhando, o vôo de Motoko saltando do prédio no início do filme, a maneira como ela cai dos saltos impossíveis durante as perseguições. Não é plágio, mas chega perto.

Todo esse conteúdo denso é apresentado ao espectador na forma de uma animação futurista, em que cenários reais são misturados a personagens virtuais (desenhados à mão ou com o uso da computação gráfica) de forma inovadora. O resultado ficou tão interessante que garantiu ao estúdio Production IG uma passagem de ida para Hollywood. Os responsáveis pela animação chegaram a ser contratados, depois, para criar a famosa e sangrenta seqüência animada de “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, um dos fanáticos pela obra de Oshii.

O DVD brasileiro traz um bom documentário (22 minutos), que aborda a produção do filme de maneira didática e inteligente. O documentário tem legendas em português, mas essas são o ponto fraco do filme em si. Nelas, há enormes buracos e diálogos que ficam sem tradução. Isso complica ainda mais a compreensão da complexa filosofia que envolve as situações abordadas pela animação.

Outro ponto negativo do lançamento é a imagem em fullscreen, com cortes laterais no enquadramento original do trabalho. O áudio, pelo menos, tem duas boas opções: Dolby Digital 5.1 em inglês e DD 2.0 em japonês. Os vacilos são perdoáveis, se você levar em consideração que “O Fantasma do Futuro é uma obra-prima, que aponta novos caminhos para a ficção científica no século XXI e dá conta das ambiciosas questões propostas por “Matrix” e sucessores com firmeza e profundidade.

– O Fantasma do Futuro (Ghost In The Shell, Japão/Inglaterra, 1996)
Direção: Mamoru Oshii
Duração: 82 minutos

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