Fantástico Senhor Raposo, O

05/06/2010 | Categoria: Críticas

Wes Anderson supera polêmica com diretor de fotografia e entrega filme que repete gosto por personagens alienados e com problemas familiares

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Não importa o quanto “O Fantástico Senhor Raposo” (The Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009) seja divertido, cínico e inteligente. Este filme vai ficar para a posteridade como o longa-metragem cujo responsável pela fotografia escreveu um artigo detonando o diretor, ainda durante a fase de pós-produção. Uma pena, pois “O Fantástico Senhor Raposo” é o primeiro trabalho realmente interessante de Wes Anderson desde “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001), com o qual, aliás, o filme de 2009 divide uma porção de pontos em comum.

O mencionado caso de bastidores ocorreu em outubro de 2009. O diretor de fotografia, Tristan Oliver, escreveu no jornal Los Angeles Times que trabalhar no longa-metragem havia sido muito frustrante, pois Anderson havia dirigido o filme por e-mail. No texto, Oliver diz que o cineasta passava a maior parte do tempo no apartamento em que vive, em Paris, dando uma passadinha semanal no estúdio de gravações e inspecionando o trabalho através de pacotes virtuais enviados pela equipe de produção via Internet. A resposta de Anderson basicamente confirmou a acusação – o cineasta norte-americano explicou que o processo de trabalho de animações stop motion é muito mais lento do que num filme com atores em carne e osso e não requer a presença física do diretor todos os dias.

Sob certo aspecto, Anderson tem razão. Basta dar uma olhada no cronograma de “O Fantástico Senhor Raposo” para confirmar o que ele diz. O projeto em si começou a ser desenvolvido ainda em 2004, durante as filmagens de “A Vida Marinha com Steve Zissou”, e deveria ter sido fruto de uma colaboração entre Wes Anderson e Henry Selick, que dividiam o gosto pelo livro homônimo de Roald Dahl (“A Fantástica Fábrica de Chocolate”), no qual o roteiro foi inspirado. No entanto, problemas financeiros levaram Selick a abandonar o projeto para dirigir “Coraline” (2009), deixando Anderson sozinho no barco.

A boa notícia é que o diretor norte-americano conseguiu manter certa fidelidade ao livro e Dahl, ao mesmo tempo em que inseriu seus temas prediletos: um protagonista alienado, egoísta e que não consegue enxergar o desprezo com que trata a própria família, praticamente nunca tirando o olho do próprio umbigo. Nesse aspecto, Anderson teve a colaboração do roteirista Noah Baumbach, outro cineasta independente que lida com famílias disfuncionais (é dele a direção de “A Lula e a Baleia”, crônica de um divórcio abordada do ponto de vista de um filho adolescente do casal brigão).

A história conta um episódio da vida do Sr. Raposo (George Clooney), animal ambicioso que vive numa grande árvore perto de três fazendas. Através de um plano complicado que inclui a participação de um sobrinho e a exclusão de próprio filho – para a infelicidade deste, sempre humilhado pelo pai em público –, o Sr. Raposo comete três grandes roubos nas fazendas vizinhas, levando galinhas do fazendeiro Boque, patos do fazendeiro Bunco, e maçãs de Bino. Os três empresários se reúnem para a vingança, obrigando Raposo e toda a família a viverem escondidos em túneis escavados no subterrâneo das três fazendas.

Mesmo que tenha sido efetivamente dirigido por e-mail, “O Fantástico Senhor Raposo” é um filme típico de Wes Anderson. O protagonista mais parece um clone do personagem de Gene Hackman em “Tenenbaums”: usa os mesmos robes e gravatas chiques, tem a mesma postura blasé e a mesma relação problemática com a família. Convém lembrar, aliás, que toda a obra do cineasta lida com pais de família ausentes que caem em si quando parece tarde demais, e este filme não é diferente.

Além disso, estão aqui a direção de arte hiper-detalhada (observe a quantidade massiva de objetos cênicos), os monólogos cínicos e o gosto por composições pictóricas planimétricas (em que a ação dramática é encenada numa linha horizontal perpendicular ao eixo da câmera, resultando numa imagem sem profundidade que passa uma curiosa sensação de distanciamento). As tomadas que mostram as escavações do Sr. Raposo são idênticas aos planos que registravam a arquitetura do submarino do já citado “Steve Zissou”.

Ademais, o trabalho de stop motion é excelente e original (a captura de imagens foi feita a 12 quadros por segundo, ao invés dos tradicionais 24, para evocar certo clima de artificialidade, que foi efetivamente alcançado). Para completar, o elenco de vozes originais está ótimo, com destaque para o tom monocórdio da voz de George Clooney e para o sempre impecável trabalho com sotaques de Meryl Streep, escondida num papel relativamente pequeno. “O Fantástico Senhor Raposo” é um filme que, especialmente através do personagem do filho desesperado em busca do amor do pai, estabelece uma empatia com a audiência relativamente rara no trabalho de Wes Anderson.

O DVd nacional, da Fox, contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen 1.78:1 anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1).

- O Fantástico Senhor Raposo (The Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009)
Direção: Wes Anderson
Animação
Duração: 101 minutos

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Um comentário
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  1. e legal

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