Fargo

21/02/2008 | Categoria: Críticas

Ponto alto da carreira dos irmãos Coen, “Fargo” consegue ser divertido e profundo ao mesmo tempo, sem abdicar da simplicidade narrativa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Sete indicações ao Oscar, com vitórias nas categorias de roteiro (Joel e Ethan Coen, também diretores) e atriz (Frances McDormand). Bilheteria quatro vezes maior do que o orçamento de US$ 7 milhões. Uma posição garantida entre os 120 melhores filmes da história no maior banco de dados sobre Cinema do mundo, o Internet Movie Database. Essa trajetória de sucesso explica porque “Fargo” (EUA, 1996) se transformou no mais conhecido filme da mais criativa e original dupla de irmãos cineastas nascida nos Estados Unidos. Mas não pense que são apenas os prêmios que fazem do longa-metragem um dos pontos mais altos da carreira dos Coen, uma carreira repleta de grandes filmes e – raridade na indústria cinematográfica – sem nenhuma obra decepcionante.

“Fargo” faz parte daquela minoria de filmes que conseguem ser divertidos e profundos ao mesmo tempo, sem abdicar da simplicidade narrativa. Híbrido de thriller criminal com comédia de situação e drama familiar, a produção possui uma mistura certeira de personagens consistentes, diálogos inteligentes, humor negro pontuado por um leve molho surreal, e observações cortantes sobre o lado escuro da natureza humana. É um filme que funciona como uma partitura de Mozart, uma sinfonia de movimentos sem uma única nota fora do lugar. Tudo isso feito com simplicidade e despretensão, sem qualquer traço de ambição ou grandiloqüência. “Fargo” é apenas uma ótima história bem contada – e, como todo grande filme, acaba sendo muito mais do que isso.

Considerado de forma quase unânime como o mais brilhante trabalho de Joel e Ethan Coen, “Fargo” só viu esta posição ameaçada pelo igualmente perfeito “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007). Curiosamente, é possível traçar uma porção de paralelos entre os dois. Ambos têm enredos constituídos inteiramente por personagens que gravitam em torno de uma mala cheia de dinheiro. São narrados do ponto de vista de xerifes com grande capacidade dedutiva, e que se sentem mal com a banalidade da violência que vêem diariamente no trabalho. Demonstram ouvindo impecável para os sotaques carregados e comportamentos cordiais dos habitantes do meio-oeste dos EUA (Ye-eah!). Já no visual, funcionam como opostos complementares, ying e yang: um (“Fargo”) valoriza paisagens geladas e cores frias, com tonalidades brancas e azuladas; o outro (“Onde os Fracos Não Têm Vez”) é feito de tons crepusculares, quentes, vermelhos e alaranjados.

Em “Fargo”, a trama é disparada por Jerry (William H. Macy), um vendedor de automóveis afundado em dívidas. Desesperado, ele bola um plano audacioso e contrata dois sujeitos mau-humorados (Steve Buscemi e Peter Stormare) para seqüestrarem a esposa. Ele sabe que o sogro milionário não lhe emprestaria US$ 750 mil para que ele abra o próprio negócio, mas pagaria US$ 1 milhão sem pestanejar para ter a filha de volta. O plano arrojado exige também que ele engane, de quebra, os dois seqüestradores, que estão pedindo um resgate de apenas U$ 80 mil. A execução do seqüestro não acontece exatamente como esperado, e os imprevistos põem a xerife Marge (FrancesMcDormand) no encalço dessa turma toda. Detalhe: Marge está gravidíssima, com um barrigão de sete meses, sofre de enjôos matinais e come que nem uma louca.

Trabalhando com o excepcional diretor de fotografia Roger Deakins, que extrai tomadas panorâmicas espetaculares das planícies cobertas de neve de North Dakota e Minnesota, os irmãos Coen demonstram ser exatamente o oposto de seus personagens: enquanto dentro da tela tudo foge do controle, do lado de cá os cineastas criam um estado de caos controlado absolutamente perfeito. A narrativa é extremamente cinematográfica, sem usar os diálogos como muletas. Até mesmo a única subtrama que parece destoar do conjunto (o encontro de Marge com um ex-colega de escola extremamente solitário) espelha, numa escala menor, o drama da condição humana de Jerry, o protagonista infeliz.

Graças ao excelente roteiro escrito pelos dois irmãos, os personagens são uniformemente consistentes. A dinâmica entre eles é impecável, e todos soam perfeitamente naturais e acreditáveis. Jerry, por exemplo, é um arquétipo. Embora tenha uma capacidade de raciocínio limitada, é um sujeito de tenacidade admirável, que refazer os planos e tenta seguir em frente a cada novo imprevisto, mesmo quando as dificuldades parecem grandes demais. O vendedor de carros é um carinhoso idiota, um inocente útil. Quem não conhece alguém como ele? Já Marge – o sotaque de Frances McDormand é impecável – simboliza um aspecto diferente desta mesma tenacidade. O papel da policial grávida, aliás, representa a diferença crucial entre “Fargo” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Uma diferença que se manifesta no tom do filme, que aqui preserva uma ponta de otimismo inexistente no outro filme. Este otimismo está no porto seguro que o marido (John Carroll Lynch, excelente) representa para ela. Muito, muito bom.

O DVD da Fox lançado no Brasil leva o rótulo de edição especial, embora seja razoavelmente modesto para os padrões de uma. A qualidade do filme é OK, tanto em imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) quanto em áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras principais incluem um documentário (27 minutos) e uma entrevista com os diretores e a atriz principal (20 minutos), retirada de um programa de TV norte-americano. Os extras têm legendas em português. Uma galeria de fotos, dois trailers e um spot publicitário complementam o conteúdo.

– Fargo (EUA, 1996)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Francês McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare
Duração: 108 minutos

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