Febre da Juventude

29/11/2006 | Categoria: Críticas

Estréia de Zemeckis na direção é comédia adolescente cheia de energia e despretensão

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Estréia no cinema de Robert Zemeckis, cineasta que se tornaria um dos maiores artesões de aventuras juvenis de Hollywood duas décadas depois, “Febre da Juventude” (I Wanna Hold Your Hand, EUA, 1978) é uma bobagem contagiante e despretensiosa que radiografa, com muito humor e ingenuidade, o fenômeno da beatlemania. Dá para afirmar, sem medo de errar, que se trata do melhor filme dos Beatles sem os Beatles. Trata-se de diversão descerebrada para esvaziar a cabeça, embora não desfrute do mesmo status cult que longas-metragens muito influenciados por ele, caso do superestimado “Curtindo a Vida Adoidado” (1986).

A produção, assinada por Steven Spielberg e escrita pelos chapas Zemeckis e Bob Gale (time que faria a trilogia “De Volta para o Futuro”, alguns anos mais tarde), narra as peripécias de seis adolescentes de Nova Jersey, em 1964, fazendo de tudo para conseguir assistir ao vivo à estréia do quarteto de Liverpool em território norte-americano, no programa Ed Sullivan Show. Em meio à histeria generalizada de milhares de jovens, eles vivem aventuras em quartos de hotéis, elevadores e bastidores, sempre com a intenção de encontrar os ídolos. É mais ou menos como se “Os Reis do Iê-Iê-Iê” (1964) tivesse sido filmado da perspectiva dos fãs.

A temática escolhida deixa evidente o quanto Zemeckis e Gale entendiam, com poucos cineastas em Hollywood, as angústias e frustrações adolescentes. Além disso, a fascinação de ambos pelo momento histórico do nascimento do rock’n’roll é óbvia – eles retornariam ao tema não apenas no primeiro “De Volta para o Futuro”, em 1985, mas também em uma cena hilariante de “Forrest Gump – O Contador de Histórias” (1994), filme que finalmente deu o Oscar de direção a Zemeckis. O resultado é um longa-metragem energético, divertido e alto astral.

Um dos grandes destaques é o elenco jovem e desconhecido. Todos os atores estão perfeitos nos papéis (com a possível exceção de Eddie Deezen, um pouco exagerado no papel de um colecionador quatro-olhos cujo maior tesouro é um pedaço de grama pisado por Paul McCartney). De toda a turma, apenas Nancy Allen faria uma breve carreira de sucesso (“Vestida para Matar”, “Robocop”). A tarefa desta turma é facilitada pelo excelente roteiro, que dá a cada um dos seis membros da gangue uma razão individual para querer ficar frente a frente com Paul, John, George e Ringo.

A jornada rende seqüências hilariantes, como o encontro inusitado entre Pam (Allen) e o baixo de McCartney, e a manobra incomum organizada por dois dos rapazes para salvar o cabelo incrementado do pequeno fã Peter (Christian Juttner) da tesoura de um barbeiro caolho. Vale a pena ressaltar, ainda, a boa sacada dos roteiristas de salpicar títulos de futuras canções dos Beatles (“Helter Skelter”, “Get Back”) nos diálogos deliciosos, bem como a trilha sonora óbvia, mas ainda assim sensacional, com clássicos de início de carreira da maior banda de todos os tempos. O resultado geral é diversão rock’n’roll de primeira.

O filme não foi lançado no Brasil em DVD, embora possa ser conferido com certa freqüência na televisão. O DVD norte-americano traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica), som (Dolby Digital 5.1) e comentário em áudio com diretor e roteirista.

– Febre da Juventude (I Wanna Hold Your Hand, EUA, 1978)
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Nancy Allen, Bobby DiCicco, Theresa Saldana, Wendy Jo Sperber
Duração: 104 minutos

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