Feiticeira, A

08/02/2006 | Categoria: Críticas

Nora Ephron tenta pôr metalinguagem em seriado clássico e gera comédia sem graça

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★☆☆☆☆

Todo bom cozinheiro sabe que, para produzir uma receita deliciosa, é preciso muito mais do que bons ingredientes. O ditado se aplica à perfeição em “A Feiticeira” (Bewitched, EUA, 2005), comédia muito esperada que naufragou feio nas bilheterias dos EUA. Visto superficialmente, o projeto tinha tudo para dar certo. Unia uma atriz de carisma e talento (Nicole Kidman), um comediante em alta (Will Ferrell) e uma diretora e roteirista especializada em comédias românticas inofensivas (Nora Ephron), além de ser baseado em um seriado lendário da TV norte-americana. Apesar de ter os ingredientes certos, porém, o filme foi mal temperado, redundando assim em um produto sem graça – o pior rótulo a que uma comédia pode aspirar.

Bombardeado pela crítica por todos os lugares onde passou, “A Feiticeira” também não encontrou amparo no público, onde Kidman e Ferrell possuem acolhida quase sempre simpática. Ao fim da temporada de exibição dentro dos EUA, registrava meros US$ 62 milhões em caixa, um resultado pífio se levado em consideração o orçamento de US$ 85 milhões, cifra bastante alta para uma comédia. A história nos diz que quando crítica e público se unem – um casamento bastante raro e tumultuado – têm razão quase sempre. É o caso aqui. Pior: para desespero dos produtores, “A Feiticeira” apareceu numa temporada fraca, em que o público tem fugido dos cinemas e cujos melhores produtos representam justamente a comédia, mesmo gênero da obra de Nora Ephron.

Mas qual a razão de uma derrapada tão fulminante? Basicamente, a culpa pode ser debitada na conta de Nora Ephron, uma escritora que passou também à direção após escrever o hilariante “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”. Na cadeira de diretora, Ephron dirigiu mais dois sucessos, “Sintonia de Amor” e “Mens@gem Para Você”, e ganhou cacife em Hollywood. Ao mexer com uma série lendária na mitologia da indústria do entretenimento e ganhar a parceria da laureada Nicole Kidman, o mundo parecia pequeno para o projeto. Estava formado, assim, o contexto ideal para um fracasso retumbante, desses que têm capacidade para abalar as finanças de um estúdio.

Ephron errou, antes de tudo, por excesso de pretensão. Ao invés de simplesmente escrever uma adaptação do seriado original, ela optou por construir uma pequena fábula metalingüística sobre Hollywood. Dessa forma, Nicole Kidman não interpreta Samantha; ela é Isabel Bigelow, uma ingênua e frívola bruxinha boa que se muda para Hollywood buscando ares mais arejados. Lá, é descoberta pelo ator em decadência Jack Wyatt (Ferrell), recém-contratado para o papel de Darrin numa reedição da série histórica. Encantado com o belo retorcer do narizinho da loira, ele a convence a virar atriz, sem saber que Isabel é feiticeira na vida real.

O filme é a cara de Nora Ephron, cujas comédias românticas têm se tornado cada vez mais assexuadas e desligadas da realidade. O resultado dessa característica, em “A Feiticeira”, é que os dois personagens principais são chatos de galocha. Isabel é uma garota simpática, mas avoada e desligada… em bom português, insossa mesmo. Wyatt não tem perdão: é egocêntrico, invejoso e sem senso de humor. De certa forma, um casal tão sem graça acaba provocando desinteresse do espectador. A galeria de personagens secundários, que é defendida por gente boa, como os veteranos Michael Caine (mais uma vez desperdiçado no seu figurino de amante inglês) e Shirley MacLaine e o baixinho Jason Schwarztman, não fica muito atrás dos dois astros em termos de empatia.

“A Feiticeira” só não é um desastre completo porque possui bons momentos ocasionais. A cuidadosa seqüência de abertura do longa-metragem, por exemplo, ganha uma montagem “mágica” bem interessante, que vai deixar a platéia perguntando como a diretora conseguiu fazer determinados truques. Outra cena do tipo, mais à frente, brinca com o mundo de fantasia de Hollywood, ao fazer Michael Caine sair de um cenário bidimensional, uma pintura que está sendo empurrada por dois funcionários do estúdio, e caminhar até Nicole e MacLaine, com quem começa a bater papo. Infelizmente, esses são momentos raros em “A Feiticeira”.

O desastre comercial e artístico do filme não deve ter muita repercussão nas carreiras de Nicole, que emenda um filme atrás do outro, e Ferrell, que vem em momento ascendente graças a comédias superiores, como “Penetras Bons de Bico”. Mas Nora Ephron deve pagar pelo fracasso. Tomara que a experiência a leve de volta aos bons tempos de “Harry e Sally”, quando a roteirista e diretora sabia como envolver os espectadores com personagens empáticos e piadas inesquecíveis. Afinal, cenas como a do orgasmo falso de Meg Ryan na lanchonete a gente nunca esquece.

Em DVD nacional, o filme sai pela Sony Pictures e é simples, contendo apenas o filme (com imagem wide anamórfica) e som OK (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– A Feiticeira (Bewitched, EUA, 2005)
Direção: Nora Ephron
Elenco: Nicole Kidman, Will Ferrell, Michael Caine, Shirley MacLaine
Duração: 102 minutos

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