Feitiço da Lua

26/08/2006 | Categoria: Críticas

Norman Jewison cria personagens humanos, com sentimentos verdadeiros, que reconhecemos como reais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Pense em uma comédia romântica tradicional ambientada no universo do primeiro exemplar da trilogia “O Poderoso Chefão” (1971). Pensou? Pronto, você já tem uma boa idéia do que é “Feitiço da Lua” (Moonstruck, EUA, 1987), um dos mais populares romances cinematográficos produzidos nos Estados Unidos durante a década de 1980. Além de ser um filme simpático e engraçado, o longa-metragem de Norman Jewison fez muito pela equipe que trabalhou nele, firmando em definitivo a carreira de Cher, que até então era mais conhecida como cantora, e colocando Nicolas Cage no mapa de Hollywood.

“Feitiço da Lua” é mais um exemplar do subgênero cômico que observa a cidade de Nova York como cenário perfeito para romances improváveis, regidos por um elemento levemente sobrenatural (a lua cheia, no caso). No entanto, apesar de utilizar a familiar paisagem romântica nova-iorquina – o Central Park, os restaurantes charmosos – com eficiência, a produção jamais tira o foco da comunidade italiana que vive na cidade. Este é o ambiente do filme, e ele é muito importante, já que as regras de conduta desse comunidade estão, como no caso de “O Poderoso Chefão”, no centro dos problemas de Loretta (Cher), a protagonista.

Loretta é uma jovem viúva, na casa dos 40 anos, que aceita o convite de casamento proposto por Johnny (Danny Aiello), um homem mais velho por quem ela sente simpatia, mas não amor. Loretta, contudo, vive num ambiente que não olha com bons olhos uma mulher jovem morando sozinha. Como ela não espera mais que a vida lhe reserve surpresas amorosas, aceita a proposta com prazer e resignação. Só que o mundo dela vai abaixo quando conhece Ronny (Cage), o irmão mais novo de Johnny. Entre os dois surge uma paixão vulcânica e difícil de controlar. E agora, o que fazer?

Na verdade, “Feitiço da Lua” é um filme de personagens. Todo mundo, desde os protagonistas até os menores coadjuvantes, são tratados com carinho e definidos em detalhes pelo roteiro de John Patrick Shanley. Um ótimo exemplo está na subtrama que envolve o professor universitário Perry (John Mahoney, um dos atores mais naturalistas do cinema americano), homem de meia-idade que está cansado de se envolver sexualmente com alunas mais jovens, mas não consegue encontrar uma mulher mais velha de quem realmente goste. Ele simplesmente não freqüenta ambientes onde essas mulheres existem. Ou acha que não.

Certa noite, no restaurante italiano em que leva suas conquistas, Perry conhece Rose (Olympia Dukakis, em interpretação sensacional que lhe valeu um Oscar), a mãe de Loretta. Os dois dividem uma longa e imprevisível seqüência que exala empatia por todos os poros. É uma subtrama leve e simpática, que ecoa o tema principal do longa-metragem: a fidelidade, e a maneira como esse valor é importante – quase tanto quanto a macarronada aos domingos – dentro da comunidade italiana da cidade.

Perry e Rose, como todos os demais seres humanos que habitam “Feitiço da Lua”, são personagens que têm sentimentos, que podemos reconhecer como reais. Eles não estão no filme apenas para cumprir um papel dramático menor e sair de cena; eles existem, são de carne e osso, e a gente se emociona com eles. O modo sutil como Jewison trabalha as histórias pessoais dos personagens, sem jamais se desviar do tema do filme, é a melhor coisa de “Feitiço da Lua”. E não se pode esquecer de Cher, que interpreta uma mulher de personalidade oposta à que possui na vida real, e dá vida a ela com enorme realismo.

O DVD da Fox é simples e destaca basicamente o filme, com qualidade OK de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e som (Dolby Digital 5.1). O único extra é um comentário em áudio do diretor, sem legendas, além de trailer.

– Feitiço da Lua (Moonstruck, EUA, 1987)
Direção: Norman Jewison
Elenco: Cher, Nicolas Cage, Olympia Dukakis, Danny Aiello
Duração: 102 minutos

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