Feitiço do Tempo

27/02/2008 | Categoria: Críticas

Simpática e despretensiosa, comédia de Harold Ramis é também uma poderosa parábola sobre maturidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Um evento inexplicável mantém um repórter especializado em meteorologia vivendo sempre o mesmo dia. À primeira vista, “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, EUA, 1993) é apenas uma simpática e despretensiosa comédia com um pequeno toque de realismo fantástico, na tradição de obras como “A Felicidade Não se Compra”. O filme de Harold Ramis funciona perfeitamente nesse nível elementar, mas é também uma parábola sobre crescimento e maturidade. Em resumo, o filme funciona como uma fábula sobre como alguém pode aprender a utilizar em proveito próprio as dificuldades da vida, usando-as para se tornar uma pessoa melhor.

Se fazer essa leitura do longa-metragem redondo, sem arestas, parece uma atitude pretensiosa, vamos analisar com calma o perfil e o acontecimento fantástico que envolvem Phil Connors (Bill Murray, perfeito, construindo sua persona cinematográfica definitiva), o “homem do tempo” de uma grande rede de TV norte-americana. Phil é um sujeito egoísta, egocêntrico, mau-humorado; em suma, um chato. Faz o seu trabalhando resmungando impropérios todos os dias, trata mal os subordinados e acredita-se injustiçado por permanecer em uma posição profissional rotineira e sem visibilidade. Ele só permanece no emprego porque acha que não vai demorar para que galgue alguns postos na hierarquia do telejornal.

Em um dia 2 de fevereiro (o filme não esclarece o ano), Connors precisa viajar para a pequena cidade rural de Punxsutawney, a fim de acompanhar um evento folclórico muito popular nos EUA: o Dia da Marmota (daí o título original do filme). Neste dia, na cidadezinha ao norte dos Estados Unidos, os moradores “acordam” uma marmota e a fazem sair da toca, observando se o bicho percebe ou não a própria sombra. Dependendo do resultado, isso significaria um inverno seis semanas mais longo ou mais curto. Puro folclore, claro. Phil sabe disso, e encara o trabalho como uma tarefa imbecil, que ele trata com indisfarçável má vontade. Tudo o que o “homem do tempo” quer é sair de Punxsutawney.

Não consegue. Após a cerimônia da marmota, a cidade é atingida por uma nevasca e a equipe precisa passar a noite lá. Junto com Phil, estão a produtora Rita (Andie McDowell), uma garota doce e meiga, que o repórter trata a pontapés, e o câmera Larry (Chris Elliott), um cara brincalhão. Os dois não suportam a presença ranzinza e desagradável de Phil, que também não faz a mínima questão de ser amável; afinal, a cidade é tão pequena que não tem sequer uma lanchonete que sirva um cappuccino! Ele dispensa os convites (obrigação puramente social, diga-se), vai dormir cedo e torce para a noite passar logo. Quer chegar em casa o mais rápido possível.

No dia seguinte, Phil acorda às 6h. O rádio toca a mesma canção do dia anterior (“I Got You Babe”, com Sonny e Cher, uma pérola redescoberta pelo diretor do filme). Logo, Phil vai descobrir que está vivendo o mesmo dia, nos mínimos detalhes: ele encontra sempre o mesmo colega de infância que se transformou em vendedor de seguros (Stephen Tobolowski), pisa num buraco cheio de neve, e por aí vai. Ninguém, a não ser Phil, percebe a bizarrice da situação. Só ele sabe que está vivendo o mesmo dia. O pior é que isso acontece repetidamente, dia após dia: a mesma canção na rádio, os mesmos cumprimentos, o mesmo buraco com neve. Situação enlouquecedora, não?

“Feitiço no Tempo” não explica o acontecimento surreal. O filme se concentra nas reações diferentes de Phil a cada Dia da Marmota que se repete – primeiro a surpresa, depois a irritação, a raiva, o desespero, a angústia, a autocomiseração – para ilustrar a progressão pessoal do personagem. Essa progressão é pontuada por seqüências de tons distintos: hilariantes (um pequeno roubo cometido por Phil), melancólicas (a tentativa de suicídio), emocionantes (o salvamento do mendigo). Sempre, no entanto, há humor. O roteiro de Ramis e Danny Rubin é sólido e bem construído.

Em determinado ponto, Phil se descobre apaixonado por Rita – e essa constatação é definitiva para que ele deixe de ser o homem amargo e taciturno de antes e se transforme, aos poucos, em um Phil mais compreensivo, mais otimista e mais adulto. Aos poucos, as ações dele dentro daquele pequeno universo de um dia, em que ele vira Deus (claro, pois ele é o único que pode prever o que acontecerá, onde e quando!), mudam como um diapasão; sai o egoísmo, entra o espírito altruísta.

É uma parábola, claro. Este é um filme perfeito, que flui na tela de modo tão claro, tão límpido, tão natural, que parece não ter sido dirigido por ninguém; na verdade, “Feitiço no Tempo” parece ter nascido, e pronto. Isto é um elogio e tanto: quantos diretores são capazes de contar uma história, em termos visuais, sem chamar a atenção para si?

Na certa, “Feitiço no Tempo” não é o tipo de filme que costumamos chamar de obra-prima, já que não ostenta as marcas registradas da personalidade de quem o fez. Mas ele funciona como um relógio suíço, e mantém um lugarzinho na memória quando acaba, e você se descobre revisitando-o vez por outra, como talvez não faça com outros filmes mais famosos e mais importantes. O longa-metragem de Harold Ramis desafia o conceito de obra-prima. Isso significa que ele deve ter algo especial, não?

O filme saiu no Brasil em DVD numa edição especial bastante acanhada. O disco contém um documentário (25 minutos), incluindo entrevistas com Harold Ramis e Andie McDowell, e um comentário em áudio do diretor. Infelizmente, os extras estão sem legendas. O enquadramento da imagem é original (widescreen 1.85:1), e a trilha de áudio em inglês é Dolby Digital 5.1 (em português, está no formato DD 1.0, em apenas dois canais, no lugar dos seis da versão gringa). Um trailer completa o pacote. A edição especial do aniversário de 15 anos tem os mesmos extras, mas é acrescida de cenas cortadas (6 minutos), uma trilha DD 5.1, uma entrevista com o diretor (10 minutos) e um featurette sobre marmotas (6 minutos). Desta vez, há legendas.

– Feitiço do Tempo (Groundhog Day, EUA, 1993)
Direção: Harold Ramis
Elenco: Bill Murray, Andie McDowell, Chris Elliott, Stephen Tobolowski
Duração: 101 minutos

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