Felicidade Não se Compra, A

07/06/2004 | Categoria: Críticas

Comédia romântica de Frank Capra é o filme que melhor define o espírito norte-americano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um anjo recebe a missão de descer à Terra e ajudar um homem desesperado. Esse tema e suas variações possuem tanta ressonância no imaginário popular que pode ser difícil encontrar um marco inicial desse tipo de mito. Nos cinemas, porém, a tarefa é bem menos complicada: “A Felicidade Não se Compra” (It’s a Wonderful Life, EUA, 1946), clássico maior de Frank Capra, possui a honra do pioneirismo. Esse é um dos filmes que melhor define o espírito (eu poderia defini-lo como “amistosamente individualista”) do povo norte-americano, o que assegura sua permanência nas listas dos melhores longas-metragens de todos os tempos.

Frank Capra é considerado, até hoje, o cineasta que melhor conseguiu capturar em celulóide o “american way of life”, com suas comédias românticas e filmes carregados de otimismo. Veterano da época do cinema mudo, Capra jamais foi um estilista. Seus filmes têm técnica correta, mas pobre, sem muita preocupação com estilo. Ele não usava muito close ups ou tomadas panorâmicas, e costumava manter a câmera parada, a dois ou três metros dos atores. Fazia o grosso do trabalho na mesa de edição – e fazia isso muito bem. Para Capra, o mais importante era o enredo. Ponto final.

Ao realizar “A Felicidade Não se Compra”, Frank Capra já era um realizador consagrado. Sua comédia “Aconteceu Naquela Noite” foi o primeiro filme a receber os cinco principais Oscar de uma só vez (Filme, Direção, Roteiro, Ator e Atriz) e definiu a fórmula da chamada “screwball comedy”, a comédia de costumes, até hoje um dos gêneros mais rentáveis em Hollywood. Filmes como “Harry e Sally” e “Procura-se Amy”, ou séries de TV do naipe de “Friends” ou “Sex and the City”, devem muito aos filmes de Capra – isso sem falar do subgênero filme-de-Natal, a exemplo de “Um Homem de Família” ou “Escrito nas Estrelas”, que o copiam sem cerimônia. A ironia é que, com “A Felicidade Não se Compra”, o diretor amargou um relativo fracasso à época do lançamento.

O crítico norte-americano Roger Ebert lembra que, em 1946, “A Felicidade Não se Compra” passou despercebido aos estudiosos e não recebeu grande atenção do público. A revisão histórica que transformou o filme em clássico veio muitos anos mais tarde, principalmente a partir da década de 1960. Na época, segundo Ebert, o filme começou a ser exibido em sessões de reprise na TV, principalmente na época do Natal, e de repente o público passou a pedi-lo com mais e mais freqüência.

Um fenômeno estranho, sem dúvida, que talvez tenha alguma ligação com a II Guerra Mundial. Quando dirigiu “A Felicidade Não se Compra”, Capra tinha uma mensagem clara em mente: passar ao público a sensação de que a vida, apesar das tragédias, vale a pena; que o simples fato de estar vivo já é motivo para ser celebrado. Talvez os traumas da guerra recém-terminada tenham enevoado a compreensão da platéia, mas o fato é que o filme não foi percebido com o otimismo que o diretor desejava. O fato é que, da década de 1960 para cá, “A Felicidade Não se Compra” galgou o imaginário popular e se estabeleceu como um dos filmes que mais conseguiu influenciar a maneira de o norte-americano médio encarar as situações difíceis do cotidiano. É impressionante que um simples filme tenha conseguido tanto.

Quando a película começa, o anjo Clarence (inicialmente uma bolinha de luz piscante, depois o ator Henry Travers) recebe instruções para tentar salvar George Bailey (James Stewart) do suicídio. Em plena véspera do Natal, o sujeito anda desesperado e pensando em se jogar num rio. A missão do anjo é mantê-lo otimista e afastar a idéia da morte. Preparando-se para a tarefa, Clarence revisa os momentos cruciais da vida de George. É um dos flashbacks mais longos de toda a história do cinema: quase 80 minutos que resumem as alegrias e frustrações do comerciante que sempre sonhou, e nunca conseguiu, sair da pequena cidade de Bedford Falls. Assim, o filme retorna mais de 30 anos no tempo e mostra, através de uma longa cadeia de eventos, como o energético George se tornou um sujeito amargurado.

A narrativa de Frank Capra é espetacular. Quando Clarence desde a Terra e aborda um James Stewart com cara de quem não dorme há três dias, o filme ganha em humor, ritmo e inteligência. De repente, até os menores incidentes da vida de George, como uma infecção no ouvido que ele teve aos 12 anos, ganham significado crucial – e não só para a vida dele, mas para toda a cidade. Frank Capra parece dizer que uma única vida, apesar de não parecer muita coisa, pode fazer toda a diferença. O mais bacana é que o diretor cumpre esse objetivo sem fazer um filme açucarado ou burro.

“A Felicidade Não se Compra” provoca um paralelo irresistível entre a vida do seu protagonista, George Bailey, e a trajetória do próprio filme. Afinal, pode parecer que uma única obra é insignificante para uma indústria capaz de produzir uma média de 320 longas-metragens por ano, mas não é assim. “A Felicidade Não se Compra” foi decisivo nos rumos – para o bem e para o mal – que a indústria do cinema tomou dali em diante. No Brasil, o filme existe em três diferentes versões digitais. Uma delas, lançada pela Versátil, tem imagem e som (Dolby Digital Mono 2.0) restaurados. As outras são mais fracas.

– “A Felicidade Não se Compra” (It’s a Wonderful Life, EUA, 1946)
Direção: Frank Capra
Elenco: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Henry Travers
Duração: 132 minutos

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