Felicidade

21/06/2007 | Categoria: Críticas

Todd Solondz filma o horror do cotidiano de uma família suburbana de rejeitados sociais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Cinco histórias paralelas de habitantes anônimos da classe média norte-americana. O escopo básico de “Felicidade” (Happiness, EUA, 1998) não traz, em teoria, muita novidade a um subgênero – o filme que enfoca grupos, coletivos, ao invés de indivíduos – já um tanto desgastado no cinema mais crítico e independente produzido na América do Norte. A diferença, no caso, é a forma crua, brutal até, com que o cineasta Todd Solondz invade a intimidade de uma dezena de personagens, investigando com lupa suas perversões, especialmente no que diz respeito a sexo.

Um monstro, esse Solondz. Para algumas pessoas, a declaração vale no sentido literal. Não são poucos aqueles que disparam contra o diretor, nascido em New Jersey (subúrbio de Nova York que serve como mancha geográfica do longa-metragem), sob a alegação de que ele trata os personagens dos filmes que dirige com crueldade incomum. Não deixa de ser verdade. Todo mundo em “Felicidade” é digno de pena, o que automaticamente os torna simpáticos à platéia, mas Todd Solondz os trata com uma dieta impassível de realidade, e sem o menor traço de piedade. Daí o estranhamento.

“Felicidade” é irônico e cínico a ponto de parecer uma comédia, mas quando o filme termina, é freqüente que as pessoas se perguntem por que estão rindo daquilo. Funciona mais ou menos como rir do modo engraçado como um aleijado caminha: a imagem em si pode parecer cômica, mas o politicamente correto existente dentro de nós abomina a idéia de que possamos transformar as desgraças dos outros em piada. Pois Todd Solondz faz exatamente isso, trazendo à tona os pequenos horrores da vida moderna – a solidão, o desespero, a agonia muda dos rejeitados – com cinismo omplacável, e também com enorme vigor e substância crítica.

O terceiro longa-metragem de Solondz funciona como seguimento lógico do filme anterior do diretor, o virulento “Bem-Vindo à Casa de Bonecas”, também sobre a dificuldade de comunicação que um rejeitado social – no caso, uma adolescente feiosa – enfrenta. Ambicioso, no projeto seguinte Solondz decidiu investigar esse troço inatingível e abstrato que as pessoas chamam de felicidade. Foi tão ousado que colocou essa proposta, claramente impossível de dar conta num filme, logo no título. Terminou com uma pérola de humor negro que assusta e põe a platéia em cheque.

De certo modo, a primeira cena já resume o filme trata. A seqüência mostra uma mulher, Joy (Jane Adams), dando um fora no namorado em um restaurante. Ela é paciente e educada, e tenta fazer a coisa toda do modo mais silencioso e simpático possível. Mas se trata de um daqueles momentos dolorosos e humilhantes de rejeição, que todos nós já passamos, e tentamos apagar de nossas memórias com toda a força que temos. Há dor, chantagem, vergonha, fúria e silêncio na cena, que cativa pela honestidade desconcertante com que desnuda a intimidade daqueles dois rejeitados. Mais irônico ainda é que a garota, verdadeira tragédia em duas pernas, se chame Joy (em português, Alegria).

Daí para frente, já temos uma boa idéia do que veremos. O enredo acompanha cinco histórias, todas girando em torno de personagens ligados à mesma família, uma turma suburbana e meio doida, como milhões de outras. São fracassados perseguindo obsessivamente uma felicidade que insiste em escapar por entre os dedos. Há um casal de meia-idade (Ben Gazarra e Louise Lasser) que está se separando. Suas três filhas (a já citada Adams, Lara Flynn Boyle e Cynthia Stevenson) vivem, cada uma a seu modo, vidas modorrentas e apáticas. São infelizes, embora nem sempre se dêem conta disso. Lembram o núcleo familiar de “Hannah e Suas Irmãs”, do mestre Woody Allen.

Há ainda aqueles que circulam ao redor o núcleo familiar, sem pertencer diretamente a ele: um nerd solitário solitário (Philip Seymour Hoffman), cujos únicos momentos de prazer se relacionam com masturbação e trotes telefônicos; uma gorducha hesitante (Camryn Manheim) que se acha perseguida pelo porteiro; o marido psicólogo da filha mais “normal” (Dylan Baker), o personagem mais denso e mais impressionante de todos, um pedófilo capaz de abusar sexualmente do melhor amigo de filho enquanto “cura” as perversões – menos secretas – dos outros.

O retrato da classe média trabalhadora dos EUA que emerge de “Felicidade” é assustador, uma porrada na boca do estômago. Há um enorme número de seqüências que deixam o espectador mastigando a língua ou rindo nervosamente, sob tensão. Se filmes como “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain” tentam capturar a poesia do cotidiano, “Felicidade” se situa no extremo oposto, e sai em busca do horror do cotidiano. É o tipo de filme que termina deixando um gosto amargo na boca, um pessimismo latente em relação ao comportamento humano.

Na época do lançamento, “Felicidade” foi muito comparado com “Short Cuts”, de Robert Altman. Mas a semelhança não vai além do fato de ambos trabalharem com vários personagens e nenhum protagonista evidente. Altman persegue a idéia do acaso e alcança um registro mais banal, mais melancólico; “Felicidade” é mais cru, mais raivoso, mais cínico. Não existe no filme de Solondz a idéia do acaso. Os personagens são muito próximos uns dos outros, e quando a câmera se aproxima, a espiá-los, é natural que as histórias se cruzem.

O tom geral do filme é espontâneo e despojado, sem os malabarismos técnicos que diretores como Paul Thomas Anderson (para citar outro cineasta que gosta de filmar coletivos) utilizam. No aspecto técnico, se sobressai o uso da música, criativo e diferente. As canções utilizadas sofrem cortes abruptos e paradas inusitadas em alguns momentos, o que enfatiza a sensação de deslocamento, de não pertencer a um lugar, que todos os personagens compartilham.

O lançamento do longa-metragem tem uma história curiosa de bastidores. Depois de ter o orçamento de US$ 2,5 milhões integralmente bancado pela Universal, o filme horrorizou os executivos do estúdio. Eles pressionaram Solondz para suavizar as cenas envolvendo o pedófilo, mas o diretor, que por contrato tinha direito a aprovar a montagem final, não quis fazê-lo. A Universal então se recusou a lançar a obra. Solondz teve que exibi-la em circuito alternativo, o que praticamente enterrou a carreira comercial do longa.

Nos Brasil, o filme saiu pela pequena distribuidora Lume, em um disco simples e sem extras. O enquadramento original (1.66:1) foi respeitado, o a trilha de áudio está em formato (Dolby Digital 2.0) apenas regular.

– Felicidade (Happiness, EUA, 1998)
Direção: Todd Solondz
Elenco: Jane Adams, Philip Seymour Hoffman, Lara Flynn Boyle, Cynthia Stevenson
Duração: 134 minutos

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