Fenda no Tempo

17/10/2007 | Categoria: Críticas

Telessérie de três horas baseada em Stephen King começa muito bem e termina muito mal

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Stephen King é o autor literário mais adaptado para o cinema do século XX. Durante pelo menos três décadas (1970, 80 e 90), dezenas de livros e contos dele foram transformados em filmes pelos estúdios de Hollywood, com qualidade variável. Fanáticos pelos romances de King, contudo, têm a tendência de considerar a maior parte das produções insatisfatória. A razão é prosaica: adaptações literárias quase sempre implicam em reduções, simplificações e alterações, enquanto o leitor médio do escritor tende a considerar perfeito quase tudo o que ele escreve. Foi por isso que o próprio King passou a preferir, em meados dos anos 1990, a transformação de seus livros em minisséries de televisão, ao invés de filmes em longa-metragem.

Com mais tempo de tela, os seriados tinham como manter porções maiores da criação original de King. Já um filme dificilmente ultrapassa as três horas de duração. Foi por isso que o seriado “A Dança da Morte” (1994), com seis horas de duração, se transformou numa das adaptações favoritas dos fanáticos pela obra de Stephen King. O sucesso trouxe a reboque diversas outras séries, quase sempre com a colaboração direta do escritor. Este é o caso da claustrofóbica “Fenda no Tempo” (The Langoliers, EUA, 1995), série que começa muito bem e termina muito mal, construída sobre um dos cenários mais intrigantes a sair da mente fértil de King. O romancista até faz uma ponta no telefilme, embora não tenha tido participação direta no roteiro.

A história mostra um grupo de dez passageiros de um vôo doméstico, nos Estados Unidos, que acorda no meio da viagem e descobre que todos os outros passageiros e tripulantes desapareceram misteriosamente, deixando para trás apenas objetos pessoais, como relógios, perucas, dentaduras e pinos cirúrgicos. Para piorar, a comunicação com o exterior é nula, e não é possível ver nem mesmo as luzes das cidades que o avião sobrevoa. Sem conseguir entender os dois fatos associados (uma guerra nuclear poderia ser a resposta para a ausência das metrópoles, mas não explicaria o desaparecimento dos passageiros ausentes), resta aos sobreviventes tentar pousar o avião e tentar entender o quadro completo, se é que isto é possível.

O melhor de “Fenda no Tempo” está no primeiro ato. Extremamente claustrofóbica (porque filmado quase inteiramente dentro de um avião) e angustiante, a trama gera interesse porque funde conceitos sedutores, bastante explorados pela cultura pop – viagens no tempo, apocalipse nuclear, realidades alternativas – em uma história original e inventiva, povoada por um grupo interessante de personagens. Há um piloto traumatizado pela morte da esposa (David Morse), um executivo estressado pela perda de milhões de dólares em ações (Bronson Pinchot) e um irlandês agressivo de passado violento e misterioso (Mark Lindsay Chapman). Como nem tudo é perfeito, há também os personagens melodramáticos e chatinhos que King sempre gosta de incluir nos livros que escreve, e eles incluem uma menina cega com dotes de vidente e uma professora balzaquiana a caminho de encontrar o primeiro pretendente dos últimos 20 anos.

De todos eles, o personagem mais importante acaba sendo o escritor de romances populares (Dean Stockwell), obviamente baseado no próprio King. Embora não participe da ação física, é ele quem utiliza o princípio da dedução, de maneira a ir descobrindo pouco a pouco o contexto fantástico da jornada empreendida pelos passageiros do vôo desgarrado da realidade. Sem ele, não seria possível entender o cenário completo. Aqui, Stephen King também recorre a uma fórmula bem conhecida de seus leitores: cada personagem tem pelo menos um momento de protagonista, de “salvador da pátria”, em que se torna fundamental para o inevitável final feliz. Este elemento, associado ao já conhecido sistema de punições morais típico da obra de King (quem cometeu mais erros no passado sempre ganha punições maiores), ameaça de tempos em tempos afundar o filme no melodrama mais deslavado.

A direção do cineasta Tom Holland (que fez pelo menos um sucesso juvenil nos anos 1980, o misto de horror e comédia “A Hora do Espanto”) é correta, e ele leva o mérito de ter conseguido manter toda a ação em apenas dois cenários – o avião e um aeroporto abandonado – o que acentua a tensão da narrativa. Apesar dos acertos, porém, os efeitos especiais patéticos que surgem no terceiro ato, perto do clímax, ameaçam seriamente a credibilidade da produção. Provavelmente sem dinheiro no orçamento, Holland não tem pudor de pôr animações em 2D (ou seja, desenhos animados feitos com caneta e papel) para contracenar com os atores, criando um híbrido deslocado que ficaria bem em um filme B de Zé do Caixão, mas acaba soando constrangedor em uma minissérie que se leva muito a sério. É como água e óleo, que nunca se misturam. Apesar do senão, a fidelidade canina ao texto de King e o bom primeiro ato garantem a diversão.

A minissérie ganhou lançamento correto em DVD, no Brasil, pelas mãos da Paramount. O disco é simples e contém apenas o filme. A qualidade de imagem é razoável, apesar de estarem no formato de tela cheia (1.33:1), com cortes laterais em relação à filmagem original – ocorre que mesmo nos EUA a minissérie foi lançada desta forma. O áudio é bom (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– Fenda no Tempo (Os Langoliers, EUA, 1995)
Direção: Tom Holland
Elenco: David Morse, Mark Lindsay Chapman, Dean Stockwell, Bronson Pinchot
Duração: 179 minutos

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