Feras que Foram Homens

17/03/2006 | Categoria: Críticas

Filme de guerra de 1950 retrata horrores de um campo de concentração feminino com sobriedade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Nos primeiros anos após o término da Segunda Guerra Mundial, a maneira como Hollywood tratou o tema nos filmes foi, compreensivelmente, de maneira apaixonada e maniqueísta. Algo fácil de entender, levando em consideração os milhares de norte-americanos mortos no conflito por um inimigo que, à primeira vista, parecia não possuir nenhum resquício de humanidade. Por isso, é notável que um filme sóbrio como “Feras que Foram Homens” (Three Came Home, EUA, 195) tenha sido produzido apenas meia década após o fim do conflito.

Em geral, pode-se dizer que o tom das produções lançadas cronologicamente próximas da grande guerra era, em geral, ufanista e melodramático. Natural. O conflito, afinal, fora sangrento e envolvera horrores nunca imaginados, como o Holocausto nazista que exterminou seis milhões de judeus e os perversos campos de prisioneiros. Curiosamente, “Feras que Foram Homens” narra justamente a experiência de uma pessoa dentro de um desses locais infames.

Detalhe: não uma pessoa qualquer, mas uma mulher. Trata-se de uma história baseada em fatos reais. Agnes Keith (Claudette Colbert) era uma bem-sucedida escritora vivendo em Bornéu, uma ilha asiática no Pacífico Sul, com o marido (Patric Knowles) e um filho de 4 anos (Mark Keuning). “Viviam lá 14 mil mulheres asiáticas, 79 européias e uma norte-americana, que era eu”, descreve ela, na abertura do filme. Os ocidentais acabaram aprisionados em um campo para prisioneiros após a ilha ser invadida pelo exército japonês, que lutou no conflito ao lado da Alemanha e, portanto, contra os EUA.

A situação de Agnes é desesperadora. Separada do marido pelos japoneses, ela tinha que conviver diariamente com o frio, a fome, a humilhação e a dificuldade de ter que criar uma criança naquelas difíceis condições. O filme traça um retrato realista e admirável da vida dentro de um campo feminino, e inclui uma arrepiante seqüência de estupro que ecoa fundo na consciência de qualquer espectador. Apesar disso, o cineasta romeno Jean Negulesco conduz o espetáculo cinematográfico com mão firme, evitando o sensacionalismo e o melodrama e apresentando uma narrativa bastante objetiva.

O melhor exemplo disso é o retrato sóbrio do coronel Suga (Sessue Hayakawa), comandante dos japoneses em Bornéu e chefe dos campos de prisioneiros montados pelos nipônicos. Ao contrário do que muitos podem imaginar, Suga não é mostrado como um homem sádico ou cruel; é, ao contrário, um sujeito bem-educado, compreensivo e amante das artes. Um dos primeiros atos que toma após invadir Bornéu é pedir um autógrafo de Agnes, a quem reconhece como artista de primeira classe e dona de uma visão positiva para com o Japão. “Quem a lê sabe que a senhora entende e gosta da minha terra, e isso não é comum em ocidentais”, diz-lhe o oficial.

Uma das melhores cenas do longa-metragem acontece entre os dois personagens, em agosto de 1945. Ambos, carrasco e prisioneira, sabem que a guerra está no final, e que o Japão está derrotado. Suga chama a única norte-americana presa sob seu comando para dividir com ele uma xícara de chá. Motivo: acabe de perder a família inteira no bombardeio de Hiroshima. “Dentro desse lugar, somente a senhora entende meu desespero”, explica o homem, olhar perdido no horizonte. “Sinto muito”, é tudo que ela, horrorizada, consegue replicar.

Seqüências como essa revelam resquícios de humanidade que, vistos dentro da atmosfera claustrofóbica de um filme que se passa inteiramente dentro de um campo de concentração (verdadeiro, já que as cenas foram filmadas nas instalações verdadeiras construídas pelos japoneses), soam como uma lufada de esperança no ser humano. “Feras que Foram Homens” é um filme de guerra incomum, que evita o maniqueísmo e investe muito esforço no sentido de mostrar como as relações entre inimigos em uma guerra podem ser complexas e contraditórias. E isso é muito bom.

Lançado no Brasil pela primeira em vídeo pela Aurora DVD, o filme aparece em uma edição simples, sem material extra, mas com boa qualidade de imagem (formato original, 1.33:1, em tela cheia) e som (Dolby Digital 2.0). A edição brasileira foi baseada no disco norte-americano da Alpha Vídeo.

– Feras que Foram Homens (Three Came Home, EUA, 1950)
Direção: Jean Negulesco
Elenco: Claudette Colbert, Patric Knowles, Betty Sommers, Sessue Hayakawa
Duração: 106 minutos

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