Fido – O Mascote

19/12/2007 | Categoria: Críticas

Sátira canadense usa zumbis para fazer uma bem-humorada crítica à miopia social dos EUA

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Não é segredo para ninguém que George Romero criou o subgênero dos filmes de zumbi, na década de 1960, para fazer sátiras políticas. A figura do morto-vivo lhe proporcionou a chance de criticar a guerra do Vietnã e o consumismo desenfreado do norte-americano médio, por exemplo. Aos poucos, a onda de horror juvenil que varreu Hollywood uma década depois foi eliminando este aspecto político-social, mas a boa safra de filmes de baixo orçamento com zumbis, surgida neste princípio do século XXI, restaurou as intenções originais de Romero. “Fido – O Mascote” (Canadá, 2006) investe sem cerimônia nesta veia satírica, afastando todo tipo de clichês dos filmes de horror tradicionais e fustigando a miopia social dos subúrbios ricos dos EUA.

Na abertura do pequeno filme de Andrew Currie, uma produção semi-independente realizada com parcos US$ 8 milhões, um prólogo curto e direto explica a premissa que será a fundação sobre a qual a história se erguerá. Estamos nos anos 1950, na pequena Willard, cidadezinha fictícia dos Estados Unidos. Alguns anos antes, uma nuvem de poeira espacial fez os mortos voltarem à vida com intenções canibais. A ameaça foi combatida em uma guerra mundial entre vivos e mortos, que acabou quando uma empresa multinacional inventou um colar eletrônico capaz de eliminar a fome dos zumbis por carne humana.

Domesticados, os zumbis passaram a ser vendidos como escravos. São eles que realizam o serviço sujo normalmente relegado a quem vive de subempregos: cozinham, lavam pratos, são babás e jardineiros. O personagem principal é o jovem Timmy (K’Sun Ray), menino solitário cujo único amigo é o zumbi Fido (Billy Connolly). A trama inclui um par de acontecimentos inesperados que acabam por aproximar o garoto e o morto-vivo, mas ela é mera desculpa para que o diretor Andre Currie possa construir uma sociedade fictícia, muito parecida com os Estados Unidos da década de 1950, em uma sátira deliciosa que revela múltiplas camadas de significado.

Quer um exemplo? Basta perceber, por exemplo, como o cineasta canadense contrapõe os zumbis do filme aos imigrantes ilegais que os norte-americanos gostam tanto de criticar (mas não fazem força para expulsar de lá, porque se assim fosse não haveria ninguém para jogar o lixo fora). Currie zomba da família média norte-americana, que vive de aparências e de esconder a sujeita embaixo do tapete. O pai de Timmy (Dylan Baker) tem o perfil exato do chefe de uma família rica de subúrbio: um homem distraído, ausente, que usa os domingos para jogar golfe e não parece perceber que a esposa (Carrie-Anne Moss) e o filho sofrem de solidão aguda.

O visual do filme é cuidadosamente límpido, ensolarado, de cores fortes e básicas, como se um faxineiro (zumbi?) tivesse lavado o celulóide com detergente antes da exibição. O visual de subúrbio de classe média é emulado com perfeição: casas espaçosas, cercas brancas, gramados verdes e sem muros, árvores espalhadas pelas calçadas. Os zumbis são a mosca na sopa – e o filme faz graça ao mostrá-los como seres sujos, putrefatos, cuja aparência grotesca não causa nenhum incômodo aos habitantes do idílico mundo do subúrbio. Eles não sentem o mau cheiro dos cadáveres. Um dos vizinhos de Timmy (Tim Blake Nelson) mantém uma relação escandalosa, quase como um incesto, com uma zumbi adolescente vestida sempre em trajes sumários.

Espertamente, a história traz à tona um dos aspectos mais sombrios da solidão, fazendo tanto Timmy quanto a mãe se afeiçoarem a Fido, simplesmente porque o zumbi é o único ser (humano?) que está por perto. No entanto, apesar da idéia ótima, a impressão que fica é a de que ainda falta alguma coisa para que “Fido” funcione realmente bem. E falta mesmo: mais humor, mais sarcasmo, uma dose extra de incorreção política e subversão. Por ter sido construído com a estrutura narrativa de uma sitcom (a cena do resgate de Timmy é claramente inspirada em “Lassie”), o longa-metragem acaba soando conservador demais para uma sátira.

O DVD da Paris Filmes traz o longa com qualidade OK de imagem (widescreen) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Fido – O Mascote (Canadá, 2006)
Direção: Andrew Currie
Elenco: Billy Connolly, Carrie-Anne Moss, Dylan Baker, Tim Blake Nelson
Duração: 91 minutos

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