Filho da Noiva, O

30/10/2004 | Categoria: Críticas

Melodrama de roteiro brilhante e senso de humor afiado reforça ótimo momento do cinema argentino

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O cinema produzido na América Latina viveu, na primeira década do século XXI, um momento cinematográfico muito fértil. O que no Brasil se convencionou chamar de “cinema da retomada” correspondeu, em escala continental, ao movimento denominado “buena onda”. Embora os filmes brasileiros estejam inseridos nesse contexto, e Walter Salles seja considerado o líder do grupo de jovens cineastas latino-americanos, foi mesmo o cinema da Argentina que conseguiu mais e melhores resultados. “O Filho da Noiva” (El Hijo de la Novia, Argentina/Espanha, 2001) é um dos melhores filmes da “buena onda”, descontado o pendor para o melodrama popular que afasta a obra do diretor Juan José Campanella do gosto médio da crítica.

De fato, é preciso comprar o longa-metragem como um integrante genuíno do gênero que flerta com o exagero. Em outras palavras, prepare-se para gargalhar e se emocionar em proporções mais ou menos equilibradas. Não há, em “O Filho da Noiva”, vontade de revolucionar o cinema contemporâneo, e nem de estabelecer um padrão de como o cinema da América Latina deve se comportar. Esses dois defeitos têm afundado boa parte da produção de cineastas de qualidade no continente, e Campanella os dribla com desenvoltura. Ele fez um produto despretensioso e acertou na mosca.

Quando o filme começa, o espectador é apresentado a Rafael Belvedere (Ricardo Darín). Ele tem 42 anos e dirige um restaurante em Buenos Aires com muita dificuldade. Atrasa os pagamentos e está sempre resolvendo problemas, ao celular, com credores. Para completar, Rafael começa a enfrentar também problemas na vida pessoal. A namorada Naty (Natalia Verbeke) reclama mais atenção. A ex-mulher, Sandra (Gimena Nóbile), acha que ele está vendo pouco a filha.

Enquanto isso, os pais de Rafael vivem um drama. Nino (Héctor Alterio) está prestes a entrar em depressão, pois a mulher Norma (Norma Aleandro) começa a apresentar sintomas do mal de Alzheimer. A memória falha, e ela precisa morar num asilo. Como uma homenagem à mulher, Nino deseja conceder-lhe um desejo: casar na igreja. Rafael é contra a idéia. Ele sabe que Norma não tem mais condições de lembrar de que esse foi um sonho acalentado por toda uma vida, e não deseja gastar dinheiro com a cerimônia.

Imerso nesses problemas, Rafael não consegue perceber a vida estressante que leva. Mas um ataque cardíaco, bem como o aparecimento de um amigo de infância, Juan Carlos (Eduardo Blanco), promete mudar essa situação – e não exatamente da maneira que o espectador pode imaginar por essa sinopse. O roteiro, cuja abordagem melodramática da relação pais X filhos guarda semelhanças com o alemão “Adeus, Lênin!” e com o franco-canadense “As Invasões Bábaras”, apresenta muitas – e bem-vindas – surpresas.

O enredo, típico de um melodrama clássico, pode parecer gasto e sem inspiração, à primeira vista, mas não é nada disso. O texto recebe um tratamento refrescante de Juan José Campanella. Amparado em diálogos inteligentes e num senso de humor refinado sem ser pedante, o cineasta foi capaz de produzir um documento cinematográfico brilhante sobre a situação argentina em 2001, utilizando o caos econômico vivido pelo país como pano de fundo para um drama humano, calcado em personagens quase de carne e osso. É um filme contagiante, daqueles que a platéia não consegue esconder um sorriso até bem depois do final da projeção.

Campanella consegue uma direção de atores magistral, extraindo desempenhos uniformes de todo o elenco. Darín consegue se destacar pondo muita energia na atuação e exibindo um timing perfeito para diálogos engraçados. O roteiro, por sua vez, não escorrega para o piegas e nem para o vulgar, conseguindo ir do riso ao choro inúmeras vezes com suavidade. Preste atenção em especial para uma piada, no meio da projeção, que envolve o seriado “Chaves”: é a melhor cena de comédia do cinema em 2001, disparada. Só ela vale o filme inteiro.

Infelizmente, o tratamento que “O Filho da Noiva” recebeu no Brasil não foi dos melhores. A Warner lançou o filme em DVD com som Dolby Digital 2.0 (a qualidade superior só é alcançada com o formato DD 5.1) e imagem fullscreen, que preenche a tela da TV cortando as imagens originais na lateral. Também não há documentários ou extras no disco.

– O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia, Argentina/Espanha, 2001)
Direção: Juan Jose Campanella
Elenco: Ricardo Darín, Héctor Alterio, Norma Aleandro, Natalia Verbeke
Duração: 124 minutos

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