Filhos da Esperança

30/05/2007 | Categoria: Críticas

Ficção distópica de Alfonso Cuarón chama a atenção pelo panorama assustador do futuro e pelos planos-seqüência elaborados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“O último a morrer, por favor, apague a luz”. A frase, pichada com letras negras num cartaz inteiramente branco, é uma das peças promocionais mais adequadas da ficção distópica “Filhos da Esperança” (Children of Men, Inglaterra/EUA, 2006). O item publicitário capta perfeitamente aquilo que faz do longa-metragem do mexicano Alfonso Cuarón um dos mais inteligentes filmes de 2006: a estética crua e o espírito visceral do trabalho, entrelaçados em uma peça cinematográfica cujo sentimento de urgência e medo do futuro é muito forte. Contando com uma equipe técnica capaz de proezas impressionantes, o diretor foi capaz de transformar uma despretensiosa alegoria futurista, concebida pela escritora de romances fast food P.D. James, em uma sombria, poderosa e realista visão do futuro.

“Filhos da Esperança” utiliza o escopo de um melodrama simples e direto – uma mistura bem torneada de road movie futurista, drama de ação com referências políticas, sociais e religiosas, e filme de guerra – para discutir um tema sempre presente no imaginário coletivo dos artistas, desde que o mundo é mundo: o futuro da humanidade, o temor de que não haja esperança para o homem, de que a fúria divina se abata sobre nós de alguma forma. Cuarón promove esta discussão através de uma história firme e direta, pontuada por elementos de simbologia cristã. Apesar das qualidades narrativas, o filme se destaca também por radicalizar e simultaneamente refinar a proposta estética de naturalismo – câmera na mão, longas tomadas e planos-seqüência sem cortes – que vem marcando o cinema contemporâneo (“Vôo United 93” é um bom exemplo deste filão).

Antes de falar da forma, porém, é importante tratar do conteúdo – até porque, no caso de “Filhos da Esperança”, está evidente que a história determinou a fórmula estética escolhida pelo diretor. Para começar, o filme de Cuarón oferece aquilo que o thriller “Minority Report” (2002), de Steven Spielberg, tentou e não conseguiu: um panorama assustador do futuro que aguarda a humanidade. Não se trata de um futuro tecnológico, onde carros voam e robôs convivem na rua com humanos sem que se possa distinguir os primeiros dos últimos. O futuro proposto por Cuarón é feio, sujo e violento. É um futuro com cara de passado, que junta cacos de filmes recentes (“Código 46”, de Michael Winterbottom; “V de Vingança”, de James McTeigue; “Os Doze Macacos”, de Terry Gilliam; e o já citado “Minority Report”) para compor um quadro coeso e cheio de detalhes de uma época apocalíptica.

Este panorama futurista é apresentado e desenvolvido de forma impressionante, tornando-se um dos maiores acertos do longa-metragem. Trata-se de um mundo caótico e militarista, em que facções terroristas e seitas religiosas se multiplicaram, brigando entre si, e as fronteiras entre países viraram pó. As grandes metrópoles do mundo (Paris, Nova York, Tóquio) estão tomadas por desordeiros. A Inglaterra é o único país a ter um governo constituído, que controla a população através da força: multidões de policiais povoam as ruas, cheias de lixo e pichações, com carros e casas caindo aos pedaços. Campos de refugiados e fronteiras fechadas a ferro e fogo tentam conter as massas gigantescas de imigrantes ilegais vindas de todas as partes do mundo. Os ônibus vermelhos de dois andares, símbolos de Londres, continuam por lá, mas agora são enferrujados e desertos. Os tensos centros super-povoados da classe média nem parecem estar no mesmo país onde gigantescos campos de refugiados lembram favelas africanas em guerra civil.

O motivo de tanto caos é explicável facilmente por uma espécie de praga bíblica de escala global que perdura desde 2009. Estamos em 2027, e já faz 18 anos que nasceram os últimos seres humanos. Desde então, as mulheres se tornaram inexplicavelmente inférteis. Inicialmente não sustentavam uma gravidez até o fim; depois, não podiam mais engravidar. Nenhum médico, padre ou curandeiro conseguiu explicar o que aconteceu. O significado disso é evidente: a humanidade está condenada à extinção dentro de poucos anos, o que explica perfeitamente porque as pessoas não se preocupam mais em cuidar do planeta, já que ninguém estará por aqui para desfrutar dele. Além disso, a situação – cientificamente inexplicável – é propícia para uma nova onda de misticismo, com seitas religiosas se proliferando em incrível velocidade. Em outras palavras, a humanidade regrediu a um estágio medieval de barbárie: guerras, doenças, religiosidade pagã.

Este é o pano de fundo em que vive o funcionário público Theo (Clive Owen), um solitário burocrata alcoólatra que recebe involuntariamente a tarefa inacreditável de cuidar de uma mulher grávida. Kee (Claire-Hope Ashitei), uma imigrante ilegal negra que fala o inglês muito mal, está no oitavo mês de gravidez. Ela não consegue explicar o drible na infertilidade (milagre?), mas diante das evidências, as especulações são inúteis. Theo sabe muito bem que todas as facções políticas e religiosas do planeta, legais ou ilegais, têm interesse em explorar aquela impossibilidade da natureza de alguma forma. Estupefato, ele é obrigado a abandonar a indolência em que vive para ajudar a garota a se isolar politicamente. Para deixá-la ter o filho em paz, só há uma saída: entregar Kee à única organização não-governamental internacional ainda ativa, o que significa atravessar o país para chegar a um porto distante – uma jornada no estilo de “Fuga de Nova York”, de John Carpenter.

O trabalho do fotógrafo Emmanuel Lubezki (“A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “O Novo Mundo”) é impressionante. Um dos maiores nomes da profissão nos dias de hoje, o conterrâneo do diretor Cuarón optou por sublinhar o clima de urgência, medo e incerteza que a história pedia radicalizando a proposta de naturalismo extremo vista em “Vôo United 93”. Isto significa que a jornada de Theo e Kee é contada de forma incomum: através de longas tomadas e elaborado planos-seqüência, com câmera na mão, que transformam o espectador em companheiro de viagem da dupla. As proezas de Lubezki vão além de simplesmente manter a câmera ligada e registrar a ação de perto. Há diversas passagens que exigem coreografias incrivelmente complicadas, com a movimentação sincronizada de centenas de figurantes, tiros, explosões, correrias, perseguições de carros e tanques, tudo planejado cuidadosamente, de modo que a aparência de despojamento e caos permaneça forte. Pense na tomada de abertura de “A Marca da Maldade” (1958) em velocidade supersônica.

Cuarón e Lubezki atuam como maestros, compondo verdadeiras sinfonias visuais intrincadas, que deixam a platéia estupefata, mas sem perder a aparência orgânica que caracteriza a atmosfera do filme como um todo. Tome como exemplo a tomada espetacular (quatro minutos sem cortes) em que Theo, Kee e alguns terroristas sofrem um ataque de facções rivais, enquanto viajam de carro. A câmera acompanha toda a ação ao lado dos personagens, fazendo movimentos impossível de até 360graus, dentro do carro. A cena começa calma. Eles brincam, ficam nostálgicos e discutem, antes que ocorra o ataque propriamente dito, e a violência tome conta de tudo. Esta tomada, contudo, parece mero ensaio para o sensacional plano-seqüência de sete minutos em que a câmera acompanha Theo em um subúrbio de Londres, no meio de uma batalha entre policiais e terroristas, entre prédios semi-destruídos. Em certo momento, o sangue literalmente pinga na câmera, e nem mesmo assim Lubezki deixa de compor enquadramentos inventivos e originais.

É importante observar que o fotógrafo também selecionou para a película uma paleta de cores frias, azuladas, de modo a refletir o estado de espírito angustiado do protagonista. Somente por esta cinematografia extraordinária, “Filhos da Esperança” já valeria a pena, mas há outras qualidades. Diretor versátil e talentoso, capaz de trafegar da aventura infantil (“Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”, melhor filme do bruxinho) ao drama adolescente (“E Sua Mãe Também”), Cuarón acentua as implicações teológicas inerentes à história, pontuando-a com símbolos cristãos. Preste atenção na seqüência em que Theo descobre a gravidez de Kee, por exemplo – isto acontece num momento em que os dois conversam dentro de um estábulo, e a garota está cercada por vacas e bois, em uma clara citação ao nascimento de Jesus (e, no entanto, o diretor faz questão de afastar a tentação melodramática de transformar a criança em um novo messias, criando um diálogo bem-humorado sobre a paternidade do bebê).

O elenco também é um ponto alto. Clive Owen tem um ar de galã surrado que encaixa perfeitamente no assustado Theo, e há pequenos papéis interessantes para atores classe A, como Michael Caine (impagável como um hippie maconheiro amigo do burocrata) e Julianne Moore. De certa forma, também reside nestas pessoas o único defeito do filme, que é a tendência a transformar os personagens secundários em meros penduricalhos do roteiro. Ou seja, eles não passam de bois de piranha da história – entram em cena quando a ação exige, desempenham a função que se espera deles o mais rapidamente possível, para então sair da frente e deixar Theo mais uma vez sozinho. É um problema esquecido instantaneamente quando o final perfeito – amargo, redentor, silencioso – encerra a trama com chave de ouro. Aproveite: filmes como “Filhos da Esperança” não aparecem todos os dias.

O DVD de locação da Universal tem ótima qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O único extra é um featurette (8 minutos) em que Cuarón e Lubezki explicam a mistura de coreografia complexa e improviso necessária para conduzir dois dos planos-seqüência acima mencionados. Este extra também está presenta na edição especial, dupla, para colecionadores. O disco 1 é idêntico ao encontrado em locadoras, enquanto o DVD extra traz uma combinação de três featurettes sobre direção de arte, atores e efeitos digitais (15 minutos), mais um segmento de cenas cortadas (três delas, todas curtas, com menos de 3 minutos no total) e um comentário genial sobre o filme pelo crítico cultural Slavoj Zizek (6 minutos, o tipo de análise que põe qualquer crítico de cinema no chinelo). O maior documentário traz sete intelectuais expondo suas preocupações acerca do futuro (27 minutos). Tudo com legendas.

– Filhos da Esperança (Children of Men, Inglaterra/EUA, 2006)
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor
Duração: 109 minutos

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