Fim dos Tempos

06/11/2008 | Categoria: Críticas

Apesar da categoria na criação da atmosfera tensa, Shyamalan faz filme moralista, com personagens fracos e mensagem ecológica besta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O fracasso retumbante de “A Dama na Água” (2006) fez um estrago considerável na reputação de M. Night Shyamalan. Um estrago tão grande que nenhum estúdio quis bancar o projeto seguinte do diretor. Para manter o controle criativo da produção, ele foi obrigado a reduzir substancialmente a escala do longa-metragem. Mesmo assim, “Fim dos Tempos” (The Happening, EUA, 2008) só saiu do papel porque Shyamalan usou sua ligação emocional com a Índia – ele é filho de indianos – para convencer um grupo de investidores do país a bancar parte dos custos. Apesar de esbanjar categoria na criação de uma atmosfera tensa, em que os personagens compartilham a sensação de pavor e desorientação com a platéia, Shyamalan fez um filme moralista, com personagens fracos e superficiais, que tenta passar sem sutileza uma mensagem ecológica boba.

Na verdade, “Fim dos Tempos” retoma um dos piores cacoetes do cineasta, um moralista incorrigível. A lição de moral que ele insiste em enfiar guela abaixo do espectador, em um epílogo lamentável, quase estraga a cuidadosa construção de suspense dos dois primeiros atos. Em termos de narrativa, a obra possui o aspecto de colcha de retalhos, parecendo ter sido construída com pedaços de outras produções. Conforme revelou em entrevistas, Shyamalan decidiu realizar um autêntico filme B, aproveitando que teria mesmo que trabalhar com orçamento reduzido. Rodou tudo em 44 dias, em cenários naturais (80% das cenas se passam ao ar livre), com elenco relativamente desconhecido, cuja única exceção é o protagonista, Mark Whalberg. Os efeitos especiais são realizados à moda antiga, com uso abundante de maquiagem, máquinas de produzir vento e truques de câmera. Nada de CGI.

O cenário remete ao segundo maior sucesso da carreira do cineasta (“Sinais”, de 2002): acontecimentos sangrentos, extraordinários e inexplicáveis ameaçam a estabilidade do planeta e o futuro da raça humana. No outro filme, a razão era uma invasão alienígena; aqui, as pessoas simplesmente começam a se suicidar, todas ao mesmo tempo, sem que seja possível descobrir o motivo. Em Nova York, milhares de homens e mulheres se comportam de modo estranho, em bizarra sincronicidade. Todos repetem as mesmas frases seguidas vezes, andam para trás, fitam o infinito por minutos a fio, e entram num padrão recorrente de auto-violência, tirando as próprias vidas com qualquer coisa que estiver a mão, como prendedores de cabelo.

Policiais atiram nas próprias cabeças. Trabalhadores de prédios em construção pulam para a morte certa (a “chuva de suicidas” é um dos mais melhores e mais apavorantes momentos do longa-metragem). O tratador de um zoológico se transforma em comida de leão, em cena distribuída em tempo real por todo o país através de telefones celulares (uma crítica à tecnologia?). Pela primeira vez na carreira, Shyamalan filma os atos de violência de forma explícita, com muito sangue falso e maquiagem, mas sem deixar de primar pela elegância nos enquadramentos. Preste atenção na tomada em que três pessoas diferentes usam o mesmo revólver para se suicidar. Até os jatos de sangue esguichando da testa dos cadáveres são mostrados em close, uma novidade considerável na obra do diretor. A estratégia de manter o espectador desorientado, como os personagens, funciona muito bem.

As primeiras suspeitas indicam a possibilidade de ataque terrorista. Os especialistas acreditam que alguma toxina desconhecida esteja bloqueando o instinto de auto-preservação dos seres humanos (explicação mais “filme B”, impossível). A onda de violência se espalha por toda a costa leste dos EUA, enquanto a população procura sair da área de risco. Novamente como em “Sinais”, Shyamalan opta por filmar este cenário apocalíptico de forma discreta e intimista. Não acompanhamos multidões correndo pelas ruas, nem vemos tomadas panorâmicas espetaculares. Ficamos com quatro personagens que tentam fugir pelo interior do país, primeiro de trem e depois a pé: um professor de Ciências (Whalberg) e outro de Matemática (John Leguizamo), a esposa em crise do primeiro (Zooey Deschanel) e a filha pequena do segundo (Ashlyn Sanchez). Desorientados, sem saber onde e quando a ameaça pode dar as caras, eles não fazem muito além de se unir e torcer para escapar.

Shyamalan usa uma trilha sonora hitchcockiana de James Newton Howard, à base de cordas, e paisagens naturais adornadas por ruídos orgânicos e ventanias fora de hora (“A Vila”, lembram?) para realçar o clima de desorientação e perigo iminente. Na primeira metade, a estratégia narrativa funciona. Estão lá os melhores momentos do filme. Por outro lado, o cineasta falha justamente numa das áreas em que sempre se destacou, que é a construção de personagens. A dinâmica do casal protagonista, que passa por uma crise, é incrivelmente pífia, infantil e sem sentido – qualquer pessoa que já tenha encarado um relacionamento em frangalhos vai dar gargalhadas com as demonstrações pueris de imaturidade do casal.

Além disso, a personagem feminina peca pela frieza excessiva, que faz o espectador se perguntar em diversos momentos se ela está sendo atacada pela toxina assassina. A fraca atuação de Deschanel, que o diretor tenta compensar com inúmeros closes nos enormes olhos azuis da mulher, prejudica ainda mais a química do casal. Marido e mulher em crise, como se sabe, são recorrentes na obra de Shyamalan (“O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado”, “A Vila”), mas neste caso o cineasta não consegue dar peso e gravidade à relação deteriorada. Ambos parecem caricaturas superficiais de seres humanos. Não criam qualquer empatia com a platéia. Ainda por cima, a forma moralista e repentina como o roteiro resolve a situação chega a ser constrangedora.

Infelizmente, os problemas de “Fim dos Tempos” não param nos personagens. A própria trama carece de originalidade, já que o roteiro abusa de referências a filmes anteriores, como “Os Pássaros” (1963, de Alfred Hitchcock, diretor favorito de Shyamalan). Toda a estrutura narrativa, em particular o trecho final, é bastante semelhante ao segundo ato de “Guerra dos Mundos” (2005), de Steven Spielberg, longa-metragem que permite criar uma cadeia de comparações bastante curiosa. Afinal de contas, o trabalho de Spielberg já parecia uma versão épica, em grande escala, de “Sinais”. Produções menores, como o pequeno “O Núcleo” (2003), também surgem como referências importantes.

Por fim, é bem clara a influência do blockbuster ecológico “O Dia Depois do Amanhã” (2004), especialmente no subtexto panfletário e pouco sutil, arremessado ao fim da trama como uma bola de boliche na cabeça do espectador. Há deslizes até mesmo nas soluções dramatúrgicas escolhidas para os momentos de exposição. Observe, especialmente, a maneira anti-cinematográfica e nada original como Shyamalan oferece uma explicação didática, quase imbecil, para os acontecimentos vistos no decorrer da história, que termina de forma diáfana, como se o roteirista-diretor não tivesse encontrado uma maneira de concluir a trama. É um filme autoral, sem dúvida. Pena que o autor cometa tantos pecados.

O DVD nacional leva o selo da Buena Vista e é simples. O enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico) é preservado e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem cinco featurettes que cobrem os bastidores da produção, mais trailer e galeria de erros de gravação. 

– Fim dos Tempos (The Happening, EUA/Índia, 2008)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Mark Whalberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez
Duração: 91 minutos

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