Fim e o Princípio, O

11/12/2006 | Categoria: Críticas

Eduardo Coutinho vai ao Sertão e volta com um documento de um Brasil em vias de desaparecer

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“O Fim e o Princípio” (Brasil, 2005) é exatamente o filme que Eduardo Coutinho queria fazer. Ponto. Espectadores acostumados à lógica tradicional do cinema comercial, mesmo os mais experientes no gênero documental, podem sentir uma dificuldade inicial. Incomoda, mesmo, o fato de que não existe um fio condutor à narrativa. O documentarista mais importante do Brasil foi a uma cidadezinha no Sertão da Paraíba e conversou com os moradores. Só isso. Não há um tema que ligue as entrevistas dos 18 personagens do filme. O grande negócio, ao ver “O Fim e o Princípio”, é tentar esquecer esse elefante branco do cinema, chamado unidade narrativa, e apreciar o mundo quase parado no tempo dos moradores de Araçás, sítio na área rural de São José do Rio do Peixe (PB).

Do ponto de vista sociológico, talvez este seja um dos filmes mais importantes de Coutinho, autor de obras-primas do cinema brasileiro, como “Cabra Marcado Para Morrer” (1984) e “Edifício Master” (2002). É uma olhar sereno, despido de preconceitos, sobre um Brasil rural onde a televisão não chegou, um Brasil marcado pela oralidade, por um vocabulário muito diferente daquele Brasil urbano e cheio de gírias que a maioria dos brasileiros conhece. Macaco velho, Coutinho não se aproxima dos sertanejos como um turista no zoológico, mas como uma espécie de irmão emigrado, caloroso e cheio de afeto genuíno. Esse enfoque dá a “O Fim e o Princípio” uma sobriedade que recusa estereótipos e faz do filme uma experiência maior do que cinema.

Essa visão, contudo, exige uma certa preparação do espectador. É o seguinte: ainda que aceitemos a lógica sem amarras de Eduardo Coutinho, o movimento inconsciente do espectador sempre se dá no sentido de procurar algum fio narrativo escondido. Tentamos encaixar os depoimentos dos sertanejos em alguma lógica invisível. Só que essa lógica não existe. E o próprio cineasta admite: não era mesmo para existir. Ele queria registrar outro Brasil, apenas isso. Coutinho acha que comunidades como Araçás estão em vias de desaparecimento, porque as próximas gerações de pessoas nascidas nesses lugares já foram criadas com a televisão em casa, o que altera – e muito – a cultura dos sertanejos.

A busca por uma unidade invisível pode ser prejudicial ao espectador porque atrapalha a fluência do documentário. Algumas pessoas podem esperar do filme, por exemplo, uma coleção de personagens fascinantes, cheios de histórias legais para contar. Mas “O Fim e o Princípio” não é isso. Há sertanejos simpáticos, curiosos e repletos de “causos”, mas há também os mal-humorados, os solitários e os banais, cujas vidas foram marcadas por um imobilismo quase letárgico.

Da mesma forma, quando Coutinho diz que estava interessado na oralidade, esse aspecto não sobressai na temática das entrevistas. Ninguém vai aprender palavras novas ou dialetos obscuros (claro que, para alguém no Sudeste ou no Sul, o linguajar dos matutos vai soar mais esquisito), e esse assunto jamais é abordado diretamente. Algumas pessoas tentaram encontrar o foco do filme dizendo que ele trata da proximidade da morte, mas mesmo esse tema, trazido à tona por alguns dos entrevistados, não é o fio condutor. A morte que sobressai em “O Fim e o Princípio” é a morte de uma civilização, de uma cultura, não a morte física dos indivíduos.

“O Fim e o Princípio” foi filmado em condições espartanas, por uma equipe de seis pessoas, durante quatro semanas. O time foi auxiliado por uma moradora de Araçás, Rosa, que fez uma relação de 86 pessoas da comunidade e guiou o grupo em conversas com elas. Na edição, Coutinho eliminou os mais jovens, de forma a apresentar um panorama geral que refletisse melhor o que é aquela comunidade, um lugar onde quem tem pouca idade emigrou e os idosos vivem calmamente, em um ritmo alienígena para quem vivem em cidades grandes. Acabou com um documento cinematográfico de um Brasil desconhecido. O valor sociológico é inegável; o cinematográfico, no mínimo importante. Mas “O Fim e o Princípio” não é para todo mundo. Antes de encará-lo, melhor se despir dos preconceitos e assistir de mente aberta.

O DVD da Videofilmes é ótimo. O filme conta com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, há entrevistas-teste feitas com moradores de Araçás (nos moldes das que estão no disco extra de “Edifício Master”) e um documentário sobre o retorno da equipe à locação, para exibir o longa-metragem finalizado.

– O Fim e o Princípio (Brasil, 2005)
Direção: Eduardo Coutinho
Documentário
Duração: 110 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »