Firewall – Segurança em Risco

18/07/2006 | Categoria: Críticas

Harrison Ford retorna ao papel do homem comum lutando para salvar a família em thriller burocrático

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

À medida que foi envelhecendo, o ator Harrison Ford foi construindo uma persona cinematográfica diferente, ao se especializar no papel do homem comum que, envolvido em circunstâncias desesperadores, precisa bancar o herói para defender a sua família. Levando em consideração a enorme importância do conceito de família para o norte-americano médio (conservador e protestante), foi uma jogada certeira, que o transformou num dos astros mais queridos dos EUA. “Firewall – Segurança em Risco” (Firewall, EUA, 2005) é um thriller pouco mais do que burocrático que explora, mais uma vez, essa faceta do ator.

Dirigido por Richard Loncraine, “Firewall” cria e desenvolve uma situação dramática que, infelizmente, vem se tornando rotina nas grandes cidades brasileiras: um funcionário de alto escalão de um banco tem a família seqüestrada por uma quadrilha e é forçado, então, a utilizar seu conhecimento privilegiado para permitir que os bandidos roubem grandes quantidades de dinheiro sem correrem riscos. No Recife, gerentes de banco têm sido seqüestrados com alguma regularidade, seguindo essa técnica criminosa. O roubo de “Firewall” é um pouco mais sofisticado, mas segue a mesma lógica.

O alvo dos bandidos é o chefe de segurança de um banco de médio porte em Seattle. Jack Stanfield (Ford) é o dedicado marido de uma arquiteta (Virginia Madsen, de “Sideways”) e pai de dois filhos. Ele ocupa uma posição confortável na hierarquia do banco, embora venha tendo atritos com a diretoria por se opor à fusão com uma instituição maior e mais gananciosa. Jack é o responsável pelo sistema eletrônico de comunicação do banco, incluindo as transações via Internet, e desenvolveu ao longo de 20 anos uma rede estável e aparentemente invulnerável.

O problema dele chama-se Bill Cox (Paul Bettany). A quadrilha liderada pelo meliante passou um ano inteiro registrando, passo a passo, a rotina de Jack, e sabe qual é o seu ponto fraco: ele é um homem caseiro e apegado demais à família. Assim, quando Bill seqüestra os três e força Jack a transferir US$ 100 milhões do banco para sua conta pessoal, o executivo parece não ter alternativa, embora vá continuar tentando se esquivar do plano criminoso sem comprometer a segurança da família. “Firewall” vira, então, um jogo e gato e rato entre o gerente e o bandido, com o primeiro tentando avisar a polícia sobre os acontecimentos, e o criminoso buscando forçar o gerente a obedecer às ordens o mais rapidamente possível.

“Firewall” poderia ser um thriller eficiente de ação, se não exagerasse no uso de clichês, o que incomoda bastante e torna a ação inverossímil. Um desses clichês é a doença do filho menor de Jack (um artifício que copia descaradamente “O Quarto do Pânico”, de David Fincher, e também foi utilizado em 2005 pelo fraco “Fora de Rumo”), usada pelo diretor Richard Loncraine para agregar tensão à trama. Outro exagero está na caracterização do personagem de Harrison Ford, que chega a apressar o final de uma importante reunião de negócios apenas porque aquela é a “noite semanal da pizza” da família (“ele é um homem caseiro”, explica outro diretor do banco ao cliente em questão).

Além disso, o plano criminoso elaborado por Bill Cox não é eficiente, especialmente quando se sabe que a quadrilha levou um ano inteiro elaborando-o. Para começar, os bandidos demonstram um amadorismo imperdoável quando demonstram desconhecer os mecanismos eletrônicos do sistema desenvolvido por Jack, o que inviabiliza o modo originalmente planejado para a transferência eletrônica do dinheiro. Como se isso não bastasse, a quadrilha passa mais de 48 horas com os reféns, o que é absolutamente impossível de acontecer na vida real – quanto menos tempo um bandido ficar com a vítima, menos probabilidade ele terá de ser preso, conforme reza qualquer manual para policiais (e roteiristas) principiantes.

O que evita que “Firewall” seja um desastre completo é exatamente a presença de Harrison Ford no papel que ele se especializou. Apesar de não ser ajudado pelo roteiro, ele desempenha com muita eficiência, parecendo genuinamente assustado durante quase todo o tempo. Outro acerto está nas seqüências de ação, que Richard Loncraine filma de modo a enfatizar a idade avançada do protagonista (Ford tinha 63 anos quando filmou as cenas, entre janeiro e maio de 2005): Jack sua, treme, respira com dificuldade, grita de dor e se move de forma lenta, o que dá um pouco mais de credibilidade ao filme. Graças a Harrison Ford, “Firewall” é pouco mais do que uma Sessão da Tarde de luxo.

A Warner lançou o DVD no Brasil pelado, sem extras, mas a qualidade do filme é boa: imagem em widescreen anamórfico e som Dolby Digital 5.1.

– Firewall – Segurança em Risco (Firewall, EUA, 2005)
Direção: Richard Loncraine
Elenco: Harrison Ford, Paul Bettany, Virginia Madsen, Mary Lynn Rajskub
Duração: 105 minutos

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