Flores Partidas

07/11/2006 | Categoria: Críticas

Jornada de homem de meia-idade para reencontrar antigas namoradas é o filme mais mainstream de Jim Jarmusch

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O elemento mais importante do cinema de Jim Jarmusch é o personagem. O cineasta mais independente dos Estados Unidos está interessado em contar histórias de pessoas que vivem à margem da sociedade. Pessoas que exercem uma resistência cultural, sem dúvida, mas uma resistência pacífica, tranqüila, quase zen. “Flores Partidas” (Broken Flowers, EUA, 2005), que ganhou o prêmio do Júri (o segundo mais importante) no Festival de Cannes 2005, é um dos filmes mais mainstream da carreira de Jarmusch, mas não deixa de ser cinema de ótima qualidade.

Por se ajustar à perfeição ao tipo de personagem que interessa ao diretor, Bill Murray é o ator perfeito para figurar nos filmes dele. A persona que Murray construiu em duas décadas de atuação (principalmente ao mais alternativos) é a de um sujeito calmo, de ritmo lento, contemplativo. Em “Flores Partidas”, ele radicaliza essa persona e vira um homem em estado quase catatônico. Don Johnston é um empresário aposentado de meia-idade, que fez fortuna no ramo de computadores, mas aposentou-se e vive numa casa que não tem nenhum. Internet é uma lenda longínqua ara Johnston. O dia-a-dia dele se resume a ficar enterrado no sofá, escutando música e eventualmente espiando algum programa de TV. Não se anima muito nem para ir à casa do vizinho Winston (Jeffrey Wright), um etíope expatriado com cinco filhos cujo hobby é literatura policial.

O fato extraordinário que muda a vida de Don é a chega de uma carta de envelope cor-de-rosa. Nela, uma antiga namorada solta a bomba: ele tem um filho de 19 anos que acaba de sair de casa, talvez procurando descobrir quem é o pai. A carta é anônima e não anima muito Don, mas causa empolgação em Winston – finalmente ele tem um mistério de verdade para resolver. Não demora muito para que o etíope convença Don a procurar cada uma das antigas namoradas, na tentativa de encontrar a mulher que lhe deu o filho.

“Flores Partidas” enfoca a jornada de Don e abre espaço para que ótimos atores encarnem personagens deliciosos: Sharon Stone é a viúva de um piloto Nascar com uma filha espevitada chamada Lolita; Jessica Lange faz uma terapeuta de animais; Tilda Swinton, uma motoqueira barra-pesada. As ex-namoradas de Don são mulheres atraentes, simpáticas e inteligentes, mas cada uma possui um toque esquisito que as transformam, cada uma, em parias sociais como ele. São tipos interessantes, gente por quem Jim Jarmusch demonstra um afeto enorme, pessoas que gostaríamos de abraçar.

Uma tentativa de rotular “Flores Partidas” não leva a lugar nenhum. Embora o tom geral seja leve e bem-humorado, o filme não se encaixa muito bem na idéia que o público faz de uma comédia, na medida em que a projeção oferece poucas oportunidades de risadas. Alguns espectadores podem esperar um enredo detetivesco cômico, linha narrativa que o filme de fato segue, mas é bom não se enganar: Jarmusch não está muito interessado na investigação da paternidade de Don. A jornada do personagem é, na verdade, uma oportunidade para que ele faça uma reavaliação divertida e original das loucuras que viveu no passado.

De modo geral, “Flores Partidas” foi bem recebido pela crítica norte-americana, que apontou uma semelhança entre o filme de Jarmusch e o cult movie “Encontros e Desencontros”, de Sofia Coppola. A presença de um Bill Murray de olhar fixo e gestos lentos, bem como a trilha sonora pop e descolada, confirmam a semelhança, mas o filme de Jarmusch é bem mais relaxado e menos ambicioso. Se “Encontros e Desencontros” fosse uma pessoa, daria para dizer que “Flores Partidas” é o mesmo sujeito, depois de um belo baseado de maconha. É por aí. Quem já conhece o estilo de Jim Jarmusch vai adorar.

A Europa Filmes lançou duas versões do filme em DVD no Brasil. O disco para locação, simples, tem apenas o filme, com imagem que preserva o enquadramento original (letterbox 4×3), som razoável (Dolby Digital 2.0) e nenhum extra. Já a versão para venda é dupla, contém o filme com excelente qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), mais um disco extra contendo um documentário e dois featurettes.

– Flores Partidas (Broken Flowers, EUA, 2005)
Direção: Jim Jarmusch
Elenco: Bill Murray, Jeffrey Wright, Sharon Stone, Jessica Lange
Duração: 105 minutos

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