Foi Deus Quem Mandou

14/03/2006 | Categoria: Críticas

Filme radical de Larry Cohen trabalha no limite ente o thriller de suspense e o horror religioso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um atirador solitário de mira implacável assassina a esmo 14 pessoas de cima de uma caixa d’água. Um homem pacato mata a mulher e dois filhos sem motivo aparente, durante um dia comum. Um policial perde a cabeça durante um desfile militar e dá cabo de vários colegas. Três crimes aparentemente sem motivo, cometidos por gente normal, em explosões de fúria impossíveis de antecipar. Para a polícia de Nova York, não há nenhuma ligação entre eles. Mas o detetive Peter Nicholas (Tony Lo Bianco) pensa diferente. A investigação particular que ele empreende é o mote de “Foi Deus Quem Mandou” (God Told Me To, EUA, 1976), bizarro thriller religioso dirigido pelo especialista em horror Larry Cohen.

Cineasta respeitado nos círculos independentes dos EUA, Cohen havia acabado de desovar a franquia “Nasce um Monstro” (três filmes até 1987) quando se debruçou sobre o projeto. Trata-se de seu longa-metragem mais pessoal, realizando uma louca mistura de gêneros que soa surpreendentemente bem amarrada e carrega, nas entrelinhas, uma crítica ácida à faceta mais conservadora da sociedade norte-americana. Um a um, Cohen vai demolindo valores básicos do país: a crença ferrenha na família, a religiosidade quase fanática, a mania por teorias conspiratórias.

Produzido de forma independente e com baixo orçamento, “Foi Deus Quem Mandou” lança mão de uma técnica de edição incomum em produções norte-americanas para acelerar a ação e acentuar o caráter despojado da história. A técnica, chamada “jump cut”, foi tornada popular pelo francês Jean-Luc Godard a partir de “Acossado” (1957), e consiste em arrancar largos pedaços mornos da ação principal, evitando por exemplo as panorâmicas que normalmente abrem cada seqüência em um filme comercial. Essas tomadas servem para localizar o espectador no tempo e no espaço, e dão ao filme um ritmo mais tranqüilo.

A ausência dela faz de “Foi Deus Quem Mandou” um filme alucinado, nervoso, cheio de sobressaltos. Essa sensação começa já na cena de abertura, que mostra a ação do atirador solitário da caixa d’água. Um dos policiais chamados ao local do crime é o detetive Nicholas. Espontaneamente, o policial toma a decisão de conversar com o assassino e tentar demovê-lo da idéia de tentar matar mais gente. Antes de se jogar lá de cima, o matador lhe revela o motivo do crime: “Foi Deus quem mandou”.

A revelação, aparentemente absurda, intriga Peter, e ele começa a investigar os casos. Aos poucos, descobre que a mesma frase é obsessivamente repetida pelos criminosos, todos homens pacíficos e tranqüilos, que mantêm essa índole mesmo após cometer as piores atrocidades. Estranho, não? Peter Nicholas também acha, e continua a analisar os crimes por conta própria. Descobre que um sujeito parecido com Jesus Cristo tinha sido visto com os assassinos, no dia de cada crime. A investigação vai seguir lances surpreendentes e resvalar em gêneros distintos, como o suspense, o horror, a ficção científica, o thriller e a fantasia de cunho religioso.

Um dos grandes trunfos do filme é o personagem principal. Peter Nichols é um homem torturado. Profundamente religioso, ele é casado e possui uma amante com quem mora há quatro anos, mas não tem coragem de pedir o divórcio, para desgosto das duas mulheres. O roteiro do filme, escrito pelo próprio Cohen, é tão hábil utiliza essa característica para alfinetar sem piedade a hipocrisia religiosa que impera nas famílias dos EUA – onde essa situação é bastante natural – ao mesmo tempo em que a liga à trama principal, de uma maneira literalmente impossível de imaginar, já que a própria vida particular de Nichols, a certo momento, passa a ser afetada pelos resultados da investigação demolidora.

Se você curte filmes com enredo imprevisível que mantêm um pé firmemente ancorado no bizarro, “Foi Deus Quem Mandou” é um prato cheio. O longa de Larry Cohen segue um rumo realmente impossível de prever e entra de peito aberto em um terreno delicado, que é a fricção entre religião, história e ciência. Em certos momentos, a trama chega a antecipar, com uma antecedência de 25 anos, o que o roteirista de quadrinhos Garth Ennis faria na intrigante série Preacher. Fora isso, é melhor ficar calado e deixar cada leitor conferir pessoalmente a fascinante trama de mistério tecida por Larry Cohen.

O lançamento no Brasil em DVD acontece pelas mãos da Aurora. A cópia é bem razoável, preservando o aspecto original do filme (wide 1.85:1 letterboxed) e com trilha de áudio Dolby Digital 5.1. Não há extras dignos de nota, além de trechos de críticas e biografias dos envolvidos.

– Foi Deus Quem Mandou (God Told Me To, EUA, 1976)
Direção: Larry Cohen
Elenco: Tony Lo Bianco, Sandy Dennis, Deborah Raffin, Richard Lynch
Duração: 90 minutos

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